Quarta-feira, 07.12.11

Terminou hoje, com uma conferência de Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra, o primeiro Colóquio Internacional A Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura.

O balanço é, por diversos motivos, positivo. O interesse que o tema despertou no público (universitário, mas não só), a qualidade das comunicações feitas e os próprios oradores, o recital de Luís Miguel Cintra e a mesa-redonda com Hélia Correia, José Mário Silva, Manuel Alegre, Mário de Carvalho e Vasco Graça Moura são prova disso. (Sobre a mesa-redonda, ver a notícia de Isabel Coutinho, do Público).

Tive o privilégio de pertencer à equipa que sonhou, idealizou e montou este encontro científico de primeira água. Foi uma honra.



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Terça-feira, 07.07.09

Acaba de sair o segundo volume de Conto Português — Antologia Crítica, que reúne contos de autores portugueses dos séculos XIX, XX e XXI (Porto: Caixotim, 2009). As organizadoras, Isabel Rocheta e Serafina Martins, são Professoras da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tal como alguns dos colaboradores que escrevem as leituras críticas que acompanham cada um dos oito contos, mas a diversidade de origem académica e de gerações é evidente: Gonçalo Cordeiro, Clara Rocha, Teresa Martins Marques, José Augusto Cardoso Bernardes, Patrícia Cardoso, Annabela Rita, além das organizadoras.

O acolhimento de uma obra de natureza antológica suscita sempre várias interrogações quanto ao critério que preside à selecção dos textos. As organizadoras defendem-se deste tipo de observações alegando terem um corpus em aberto, já que estão previstos outros volumes (cf. p. 12). Na página 10:

“ponderámos, por um lado, a qualidade das narrativas, por outro, a distribuição dos autores no perímetro cronológico considerado, por outro lado ainda, a adequação dos contos a um público alargado, incluindo jovens a partir dos quinze anos. Este último critério não poderia ser descurado, pois pensamos que estes livros, para além de motivadores para o público culto em geral, interessam a estudantes de Português do ensino secundário e universitário e muito particularmente a professores de língua materna, pois neles se dispõem, lado a lado, contos de temática variada e ensaios que pretendem, antes de mais, constituir uma leitura crítica e fundamentada.”

O volume inclui os contos “O canto da sereia”, de Júlio Dinis, “Civilização”, de Eça de Queirós (mais do que aquele que foi incluído no volume anterior, “José Matias”, este é um conto de uma importância imensa para a história da literatura e da criação literária, pois está na base de A Cidade e as Serras); “A estranha morte do Prof. Antena”, de Mário de Sá-Carneiro, “O vestido cor de fogo”, de José Régio (o autor da Presença do volume anterior havia sido Branquinho da Fonseca); “Natal”, de Miguel Torga (conto conhecidíssimo que merece sempre releitura), “Teorema”, de Herberto Hélder, “O recolhimento”, de M. Ondina Braga, e “Cidades”, de Teolinda Gersão.

As leituras críticas (recorde-se que a obra se chama Antologia Crítica) que acompanham cada um dos contos oferecem não só interpretações com que podemos confrontar as nossas (é, aliás, um desafio que é lançado logo na introdução), mas também se assumem como ensaios inestimáveis para as bibliografias críticas dos autores em análise. Claro que a diversidade destes autores (esta observação tem muito pouco que ver com a idade ou universidade de origem dos académicos) traz um problema de falta de unidade de critério na referência bibliográfica (se é uma obra também destinada ao ensino secundário seria bom assumir uma vertente didáctica neste aspecto), até porque, por exemplo, as indicações bibliográficas de páginas da internet obedecem a critérios específicos de citação, não bastando escrever a morada, mas indicando o autor do texto, o título, se tiver, e a data da consulta. Para não dizer que usar edições disponíveis na internet é um mau exemplo para os alunos…

 

Um estudioso da literatura necessita ter sempre uma ferramenta com que trabalhar, ou seja, só se pode trabalhar um texto em condições se tivermos ao nosso dispor boas edições, e esta passa a ser, sem dúvida, uma ferramenta imprescindível para o estudo do género conto em Portugal, contribuindo para o aumento da qualidade do estudo (e ensino) da literatura portuguesa.



publicado por Ricardo Nobre às 09:32 | referência | comentar

Sexta-feira, 24.04.09
No âmbito do Programa de Intercâmbio e Mobilidade estabelecido com a Cátedra Sá de Miranda da Universidade Blaise Pascal (Clermont-Ferrand) relativo ao projecto «Transmissão e transformação dos géneros literários nos países lusófonos» realizar-se-á, com o apoio do Mestrado em Estudos Românicos e do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, o seminário de investigação intitulado Os Géneros Literários como fenómenos de longa duração: Continuidades e rupturas, da Antiguidade aos nossos dias.

O seminário decorrerá no dia 25 de Maio de 2009, na sala 2.13 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A entrada é livre.

 

Programa

9h30: Boas-vindas (Arnaldo Espírito Santo)
9h45: A questão do género na obra de G. Genette: inquirições entre poética, retórica e estética (Celina Silva)
10h05: Mitografia. Um género literário da época helenística? (Abel Pena)
10h25: Metamorfoses da Tragédia (José Pedro Serra)
11h30: O anel de Polícrates: da historiografia de Heródoto à ficção dramática de Eugénio de Castro e Machado de Assis (Cristina Abranches Guerreiro)
11h50: Sermões paródicos franceses no final da Idade Média e no Antigo Regime (– Margarida Madureira)
12h10: A vida da comédia na comédia Vita-Humana do Jesuíta Luís da Cruz (Manuel Barbosa)
14h30: Entre Camões e Tasso — os caminhos da épica portuguesa seiscentista (Manuel Rodrigues)
14h50: Presença da epopeia nas literaturas lusófonas do século XX (Saulo Neiva)
15h10 Da epístola familiar ao lado público das cartas privadas: o caso de Feliciana de Milão (Pedro Sena-Lino)
16h30: Implicações Paródicas do Poema Herói-Cómico: a Batracomiomaquia e a inversão do épico, O Hissope e a crítica anticlerical (Rui Carlos Fonseca)
16h50: Sobrevivências clássicas e releituras ‘modernas’ nos Idílios de Alcipe (Vanda Anastácio e Inês de Ornellas e Castro)
17h50: A literatura de cordel: género ou modo de difusão? (Isabel Ferreira)
18h10: Garrett e a tradição clássica: de Safo a Horácio (Ricardo Nobre)

A cada sessão segue-se um debate.



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Sábado, 28.02.09

Os livros académicos das melhores editoras do mundo são sempre muito caros, por isso merecem nota os saldos promovidos pela Oxford University Press (até 3 de Março) e pela Princeton University Press, donde faço sobressair os que têm que ver com os estudos clássicos (para outras disciplinas, basta navegar nos menus das páginas das ligações).



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Sábado, 01.11.08

Cita-se, a partir do De Rerum Natura, o artigo que Helena Matos assinou no Público do dia 28 de Outubro (“Até que a casa caia”). Os sublinhados são meus.

Nos últimos anos, nos ensinos básicos e secundário, institucionalizou-se uma espécie de loucura pedagógica. As disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Se eram difíceis, tornavam-se fáceis ou dispensáveis, como agora se viu com a Matemática. Simultaneamente todos os dias se repetia (e repete!) que os conteúdos têm de ser apelativos, pois supostamente o ensino deve ser lúdico e os alunos devem aprender sem esforço. À conta desta política de promoção do sucesso, entra-se em Engenharia sem ter estudado Matemática e a disciplina de Química corre o risco de desaparecer no ensino secundário porque os alunos não a escolhem. Idem para o Latim e para a Filosofia. Adeus equações, declinações e pensamento racional. Estuda-se um bocadinho de Psicologia e o resultado é o mesmo. Uma vez na faculdade, logo se vê. E se os engenheiros ainda vão estudando Matemática durante o curso — embora não a suficiente, porque mais de metade dos licenciados pelos 316 cursos de Engenharia existentes em Portugal chumbam no exame que a Ordem dos Engenheiros exige para o exercício da profissão — no caso dos antigos cursos de Letras, transformados cada vez mais numa versão literária das antropologias e sociologias, corre-se o risco de ver desaparecer os departamentos de Estudos Clássicos.

Noutras disciplinas, como a Física, baixou-se o nível de exigência nos exames nacionais de modo a que as estatísticas melhorassem. Mesmo nas línguas estrangeiras a opção pelo que se acha mais fácil pode levar a que se troque o francês pelo espanhol. A memorização tornou-se uma expressão maldita e arreigou-se a convicção de que o saber nasce das entranhas das crianças num fenómeno equivalente à intervenção do Espírito Santo que fez dos Apóstolos poliglotas. Os desaparecidos Trabalhos Manuais e Oficinais deram lugar às doutas tecnologias e áreas disto e daquilo, sendo que nestas disciplinas os alunos tanto podem levar o ano a fazer caixinhas de papel tipo pasteleiro, pintar cartazes para salvar a água, estudar, com detalhe, nas etiquetas da roupa a simbologia do torcer e lavar a seco, confeccionar bolos com pouco açúcar ou usar abundantemente as teclas “seleccionar-copiar-colar” da sala dos computadores. E para quê queimar as pestanas a estudar Química? Não existe, em alternativa, uma panóplia de disciplinas muito mais fáceis que, diz o “pedagoguês”, desenvolvem “novas competências e dinâmicas de interactividade”? Quanto aos professores, sobretudo com o actual modelo de avaliação, é sem dúvida bem mais fácil e propiciador de sucesso na carreira ser “ensinante” de Área de Projecto, nas quais os alunos invariavelmente obtêm melhores resultados, do que meter mãos à tarefa de dar aulas de Física ou Matemática.

A degradação do ensino não começou com este Governo. O que este Governo trouxe de novo foi a capacidade de transformar essa degradação, que os anteriores procuravam negar, num sinal de modernidade e progresso. Entrar em Engenharia sem ter feito exame a Matemática deixa de ser uma aberração e passa a “inovação”. Os conteúdos não contam, o que conta é o embrulho tecnológico com que chegam às mãos dos alunos. O Ministério da Educação há muito que vive num universo de ficção. O que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu foi que assumíssemos que essa ficção é do domínio do grotesco e que já não nos indignemos com isso.

Devo ainda acrescentar que nas faculdades de Letras os cursos de literatura estão a ser substituídos por cursos de “ciências da cultura”… Mas não nos iludamos com a nomenclatura. O fim da interpretação e da reflexão sobre textos literários é o início dos estudos de abrangência falsamente cultural onde nada se aprofunda e de tudo pouco se sabe.



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Segunda-feira, 01.09.08

Finalmente acabaram as férias. Vem aí o trânsito, a confusão na cidade, a reabertura das lojas fechadas para descanso do pessoal, os horários de Inverno da Carris. E as editoras retomam a sua actividade. A obra mais importante desta reentrada depois das férias, parece-me, é o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, sob a coordenação de Fernando Cabral Martins e com a participação de Jerónimo Pizarro, Rita Patrício, Patrício Ferrari, Sara Afonso Ferreira, Caio Gagliardi, Patrícia San Payo, entre outros. Publicado pela Editorial Caminho.



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Quinta-feira, 03.07.08

 Encontrei e identifiquei-me com o que diz este texto. Note-se, apesar disso, que devo ter encontrado mais excepções no meio da mediocridade, porque acho que há professores muito bons na Faculdade de Letras (quer no Departamento de Estudos Clássicos, quer no de Literaturas Românicas; de Linguística também, mas o tema é o ensino de literatura). Claro que houve aqueles que me ensinaram literatura pior do que uma barata. Mas prefiro recordar os muito bons: e aqueles que conheci e que nunca foram meus professores. Não vale a pena nomeá-los. Os meus colegas sabem de quem estou a falar.

Já depois da licenciatura, e sem ser nas aulas, encontrei professores que andam de um lado para o outro nos corredores da faculdade, cheios de projectos e de vazio intelectual, desonestos e vãos.

O ensino da literatura e das humanidades ressente-se disso, naturalmente, mas tenho as minhas dúvidas de que noutra faculdade a situação seja diferente.



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Domingo, 13.04.08
Partilho com os meus leitores um resumo da minha comunicação de ontem, na Livraria Livro do Dia de Torres Vedras.

Recepção dos clássicos na Literatura Portuguesa de Oitocentos
1. Um “surto” recente de traduções académicas e fiéis de autores das literaturas latina e grega não quer dizer que os autores da Antiguidade não tenham sido traduzidos antes. Assistia-se, no entanto, a um fenómeno que é ainda hoje visível: muitas das traduções eram feitas a partir de outras traduções. Exemplo disto é a afirmação de José Liberato Freire de Carvalho, que traduziu em 1830 os Anais de Tácito: “ou boa ou má, não é tradução de nenhuma francesa”.
Os autores clássicos mais traduzidos para português foram Vergílio e Horácio. Não é difícil perceber porquê. Para Eça de Queirós, que viveu no fim do século XIX, estes são essencialmente os mestres, a par de outros génios da Antiguidade.
Nas Cartas de Inglaterra, lemos num curioso passo a comparação das culturas e civilizações gregas e romanas com as nossas, modernas:

O tipo secular e doméstico de uma aldeia árida do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nos, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo doméstico e social. Já não falo de gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante génio para compor um coro de Ésquilo, ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitectura, somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar como Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma mais ideias superiores num só dia do que nós inventámos num século; (...) não há nada equiparável à administração romana; o bulevar é uma viela suja ao lado da Via Ápia; (...) nunca ninguém tornou a falar como Demóstenes — o servo, o escravo, essa miséria da Antiguidade, não era mais desgraçado que o proletário moderno. De facto, pode-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu venerável pai — o macaco.



2. Em que medida Eça usa esta preciosa tradição? Para já, e antes de mais, convirá esclarecer uma coisa: o mito da crítica ao ensino do latim na obra de Eça.
Estabeleceu-se nas obras de Eça de Queirós, e principalmente n’Os Maias, o modelo da educação portuguesa, onde o latim surge como prática pedagógica fossilizada e não criativa: um latim para traduzir Tito Lívio e Vergílio, mas principalmente orientado para a doutrina da Igreja.
Eça é um cidadão muito preocupado com a educação portuguesa. O ensino da língua latina é particularmente visado em obras de não-ficção. Porque o latim, no sistema de ensino português da época, representava uma educação baseada na memorização e que “implica a desvalorização da criatividade e do juízo crítico”. O escritor diz que os filhos dos portugueses são sepultados “sob grossas camadas de latim!” e que nós “só começamos a ser idiotas” porque não há literatura infantil como em Holanda ou na Suécia — Portugal importa “livros para completar a mobília (...); para educar o espírito, não.”
É a monotonia que Eça despreza, não o latim, a literatura latina, ou a história clássica como elemento de estudo.
Avancemos com a pergunta: Se Eça conhece os clássicos e lhes reconhece o valor, que uso faz deles?
Vergílio (evocado em cenários bucólicos) e Homero são os mais citados, mas reconhece-se um grande respeito por Horácio. De Ovídio colhe uma experiência de vida (com ele partilha a condição de exilado). Em Tácito reconhece uma prosa superior. E os exemplos poderiam continuar.

3. Baseado num episódio da Odisseia, obra escrita pelo mais antigo dos poetas, um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa de sempre escreveu o conto A Perfeição.
3.1 Numa carta de 1899 ao seu amigo Bernardo Pinheiro, o conde de Arnoso, Eça de Queirós escrevia:

“Estou em Salamanca. (...) A minha história é simples. Não sei se te lembras de Ulisses. E se te lembras sobretudo dos expedientes, das manhas sublimes desse divino homem, naquela prodigiosa viagem em que ele ansiosamente navegava em demanda da sua Ítaca, da sua Penélope, do seu doce Telémaco... Pois esse incomparável Herói, quando o cantar das Sereias, ou a beleza das enseadas das Ilhas cor-de-rosa, ou a hospitalidade das Rainhas, o tentavam a ficar, a desviar do rumo devido, metia cera dentro dos ouvidos, colava as pestanas com cera, e, num arremesso mais desesperado de vela e remo, atirava a proa a Ítaca! Eu imitei este herói prudentíssimo. Lisboa estava sendo para mim uma paragem perigosa e exercendo sobre mim, tão fraco, todas as seduções que tanto embaraçaram o forte Ulisses (que de resto, a edificou). Essa adorável de S. Domingos à Lapa, apesar do seu santo nome, era a diabólica Ilha dos Lotófagos, onde, depois de comer a flor de Loto (ponhamos o bacalhau assado) a gente tudo esquecia, envolta em beatitude. Em torno de mim boiavam Sereias...” Mais à frente diz que adoptou a “manha do herói manhoso”.

Estas palavras provam que Eça conhecia — e bem — a história da Odisseia.
Lia e conhecia Homero, é certo, mas Eça não sabia grego. Eça de Queirós, tal como a sua geração, teve acesso aos clássicos gregos e latinos através de traduções francesas.
3.2 Este conto chegou a ser classificado por um lusitanista holandês como uma encantadora variação de um tema da Odisseia. E de facto, se analisarmos as duas obras em paralelo, percebemos que A Perfeição não só é uma imitação como é uma reescrita de um pequeno episódio da Odisseia. Mas por “imitação” não devemos entender uma crítica, pelo contrário. Penso que as grandes obras “clássicas” têm esse estatuto porque nunca deixam de influenciar, contaminar, seduzir leitores e escritores de todas as épocas e de todas as sensibilidades. Não é imitação no sentido negativo do termo porque A Perfeição, ainda que criada a partir da Odisseia, acaba por veicular uma mensagem muito diferente. A começar no facto de, na Odisseia, a saída de Ulisses da ilha de Ogígia ser uma estratégia para iniciar o enredo da obra — o regresso a casa e a restauração da ordem em Ítaca.
Em A Perfeição, o retrato de Ulisses é a representação do Homem: ele parte a caminho da “delícia das coisas imperfeitas”. Na Odisseia, a sua história continua muito além do que aqui vimos, mas não podemos esquecer que o Ulisses de Eça não é o herói de Homero — é um herói moderno, também vencido da vida, que se movimenta num cenário aparentemente homérico.

4. Até aqui, falei de alusões e referências a autores e temas clássicos que Eça de Queirós aproveitou na sua produção artística, mas o assunto pode ser abordado com muito mais profundidade. É que a relação de Eça com os clássicos não se verifica só à superfície, mas também em termos estruturantes. Dou dois exemplos básicos:
- muitos escritos queirosianos, como As Farpas — e mesmo em passos de alguns romances — são verdadeiros nacos de sátira. Ora, a sátira é um género literário que nasceu e se desenvolveu (com muita saúde, diga-se) em Roma. Marcial e Juvenal foram os principais cultores deste género — e Eça certamente que os terá lido.
- o outro exemplo é retirado da literatura grega. É que é inegável que Eça tenha recolhido da tragédia grega elementos estruturantes para Os Maias: o tema do incesto, decorrente de uma avaliação errada, a presença do destino funesto, a falta cometida mesmo depois de se saber a verdade, etc. Tudo isto é característico da tragédia, e tudo isto daria para continuar a falar.

5. Concluo, ironicamente, citar um autor do Modernismo que sucumbiu ao gosto pelos clássicos — Fernando Pessoa. Diz ele nas Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação: “A mais antiga tradição da nossa civilização é a tradição grega. Devemos reatá-la. Temos de nos criar uma alma grega, para podermos continuar a obra da Grécia. Tudo posterior à Grécia tem sido um erro e um desvio.”
Voltemos, pois, à Grécia.


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Sexta-feira, 11.04.08
Amanhã à tarde a Livraria Livro do Dia, na “Praça da Batata”, em Torres Vedras, continua o ciclo de conversas sobre os clássicos (Abril, mês das Clássicas). Amanhã vai falar-se das Metamorfoses de Ovídio (para o que estará presente o tradutor da edição da Cotovia).
Também em discussão estará a recepção dos autores clássicos na literatura portuguesa do século XIX, tema tratado por mim próprio. Se o Romantismo é reacção ao Classicismo e se o Realismo e Naturalismo são reacção ao Romantismo, o que significam as referências a autores antigos e o seu reconhecimento como mestres? O pretexto da conversa é Eça de Queirós e a sua relação com os clássicos.
Estão todos convidados a comparecer e a participar. Às 4h da tarde.


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Segunda-feira, 10.03.08
O volume Aulas de Literatura reúne as aulas que Vladimir Nabokov deu em Cornell sobre (sigo o índice) Jane Austen, Mansfield Park, Charles Dickens, Bleak House, Gustave Flaubert, Madame Bovary, Robert Louis Stevenson, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, I: Do Lado de Swann, Franz Kafka, A Metamorfose, e James Joyce, Ulisses.
As aulas vêm enquadradas com o texto “Bons Leitores e Bons Escritores” — em que Nabokov refere uma importante qualidade do escritor: o bom escritor é sobretudo um bom contador de histórias —, e, no fim, “A Arte da Literatura e o Senso Comum” e “L’envoi”. Neste último, reafirma que é infantil o leitor querer identificar-se com uma personagem do livro: “Tentei fazer de vós [os seus alunos, incluindo-nos a nós, que com ele aprendemos, naturalmente] bons leitores, capazes de ler livros, não com o objectivo infantil de vos identificardes com as personagens, não com o objectivo adolescente de aprender a viver, nem com o objectivo académico de vos dedicardes a generalizações.”
Qual é, então, a concepção que Nabokov tem de literatura? O professor vê nos grandes livros que estuda obras de arte. Para aprender a analisá-las, não é preciso ler este livro — mas para apreciá-las enquanto elementos geniais do engenho humano ele dá uma grande ajuda.

NABOKOV, Vladimir, Aulas de Literatura, trad. Salvato Telles de Menezes, introd. John Updike (Lisboa: Relógio d’Água, 2004).


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Quinta-feira, 14.02.08
Em 2002, os Professores Doutores Maria Helena da Rocha Pereira, Américo da Costa Ramalho, Fernando Cristóvão, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Aníbal Pinto de Castro, João Almeida Flor, Yvette Centeno, Joaquim Fonseca, Manuel Gomes da Torre, Isabel Alarcão, e Jochen Vogt apresentaram o Relatório Final da Avaliação Externa das Licenciaturas da Área de Línguas e Literaturas Clássicas e Modernas e de Linguística (pode ser lido na íntegra aqui); dele, retiro os seguintes passos, que provam que houve melhorias, mas que também houve retrocessos (principalmente com Bolonha). Muitas coisas estão na mesma (a falta de salas de estudo em Lisboa):

 

Que outras funções haverá para linguistas e cientistas da cultura e da literatura, na sociedade globalizada e na construção da identidade europeia assente na preservação das entidades locais? Na Europa do conhecimento e no mundo globalizante em que vivemos, a formação de licenciados capazes de desempenharem na sociedade funções de investigação, de preservação e dinamização cultural, de tradução e comunicação interlinguística, deve assumir-se claramente como outra das funções das Faculdades de Letras e ser devidamente reconhecida, incentivada e aproveitada pela sociedade portuguesa em geral e pelo Governo em especial.
Se é certo que as Faculdades de Letras se têm, no passado recente, sabido abrir a novas tipologias de formação, também é verdade que a grande maioria dos seus estudantes envereda pelo ramo educacional, em função das perspectivas de emprego fácil que ainda se lhes oferecem, mas que, importa reconhecê-lo, serão também cada vez mais difíceis.
É urgente reconceptualizar a missão das Faculdades de Letras na exploração de novas recombinação de saberes e competências. A contínua evolução da sociedade de hoje e a sua natureza competitiva exigem aos licenciados, para além do domínio das matérias da sua especialidade, uma capacidade de iniciativa e de trabalho em equipa, de conhecimento das suas próprias qualificações e de capacidade para correr riscos, uma competência de comunicação nas suas várias modalidades e uma atitude de formação em permanência. Um debate e uma reflexão profunda sobre as exigências da sociedade deverá responder às seguintes perguntas: Que contributos pode trazer à sociedade actual um licenciado em Línguas, Culturas e Literaturas? Que cruzamentos interdisciplinares trarão mais valias de formação ajustadas às novas realidades?
(…)
A Comissão recomenda também que seja obrigatória, no Ensino Secundário, a frequência de dois anos de Latim para os alunos de toda a área de Humanidades, pois e unia disciplina fundamental para o conhecimento das línguas e literaturas modernas e está na base da formação intelectual e cultural do cidadão europeu.
(…)
Tanto a Faculdade de Letras de Coimbra como a de Lisboa se encontram em edifícios de grandes dimensões, construídos no chamado estilo modernista, mas hoje totalmente desproporcionados para a elevada frequência que têm de comportar, o que obriga à elaboração de horários pedagogicamente errados, à impossibilidade de mais desdobramentos de turmas onde elas são necessárias e ao aproveitamento de espaços (como os corredores) destinados à circulação, arejamento e iluminação, quer para colocação de estantes (caso de Coimbra) quer para a improvisação de salas de estudo (característico de Lisboa).
(…)
As Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto dispõem em quase todos os departamentos de Línguas e Literaturas de um número elevado de professores, muitos deles com as máximas qualificações académicas e um curriculum distinto. Também em algumas das Universidades novas existem professores de grande prestígio, e pode dizer-se que esse número tem subido consideravelmente nos últimos anos.
Não, porém, em todas. Algumas continuam a ter só professores auxiliares, e certas áreas vão ao ponto de não contarem sequer com doutores. Deve também notar-se que nalgumas Universidades, mesmo nas mais antigas, existe um número excessivo de assistentes convidados, geralmente por não se terem doutorado nos prazos legais. Devem as Escolas envidar todos os esforços para que esses elementos do corpo docente se valorizem, acompanhando de perto os seus trabalhos.
(…)
Outro princípio a observar é que, sem prejuízo da flexibilidade do plano curricular, a duração do estudo das Literaturas Grega e Latina, no curso de Línguas e Literaturas Clássicas, não deve ser inferior a dois anos.
Por outro lado, nas variantes com componente de Português, não pode faltar uma disciplina anual obrigatória de Literatura Brasileira e outra de História da Língua Portuguesa (esta precedida por dois anos de Língua Latina), para além, naturalmente, e como já sucede, de Fonologia e Morfologia do Português e de Sintaxe e Semântica do Português. De ponderar, as vantagens de colocar Sintaxe e Semântica do Português antes de Fonologia e Morfologia, como já se pratica na Faculdade de Letras de Lisboa, porquanto, conforme se observa no local próprio deste Relatório, há aspectos da morfologia (e até toda a morfologia derivacional) que suscitam dimensões sintáctico-semânticas que é vantajoso que os alunos já conheçam. Aponta no mesmo sentido a circunstância de os estudos de Sintaxe e Semântica deverem preceder os que cabem nas disciplinas de opção da área de Linguística, que são disponibilizadas a partir do 3º ano dos cursos.
(…)
Deverá também ser deixado tempo aos estudantes para frequentarem as bibliotecas (cujos horários, em muitos casos, precisam de ser alargados) e para a prática de actividades culturais e desportivas.



publicado por Ricardo Nobre às 08:35 | referência | comentar

Segunda-feira, 11.02.08
A novidade editorial do mês é a reedição, da Verbo, da obra da Professora Maria Helena da Rocha Pereira, Temas Clássicos na Literatura Portuguesa. Ninguém negará a forte influência que a tradição clássica exerceu nos nossos poetas, em todos os tempos, de Correia Garção a Ricardo Reis, de António Ferreira a Bocage. Este volume, reedição de 1972, estuda essas relações e influências.
Da autora, penso que nada há a dizer que não se saiba já: Professora Catedrática (a primeira mulher a assumir esse grau) Jubilada (1995) da Universidade de Coimbra, é autora de uma extensa obra sobre literatura grega e cultura clássica. As suas diversas traduções de Platão, Sófocles, Píndaro, etc., etc., são por todos consideradas modelo.


publicado por Ricardo Nobre às 19:15 | referência | comentar

RÁDIO
TSF — Rádio Notícias (emissão directo)
BBC Radio 4 (emissão directo)
BBC World Service (emissão directo)
BBC Radio 3 (emissão directo)
BBC Radio 5 Live (emissão directo)
LIGAÇÕES DE REFERÊNCIA
Informação Geral
BBC News
The Guardian
Público
Times
Diário de Notícias


Cultura
The TLS
BBC | Entertainment & Arts
The Guardian | Culture
Telegraph | Culture
New York Times | Arts
DN | Artes
Ípsilon
El Mundo | Cultura
El País | Cultura
Público | Culturas
Le Monde| Culture

LITERATURA
Bibliotecas
Biblioteca Nacional de Portugal (Porbase)
The British Library
Library of Congress
Bibliothèque nationale de France (Opale)
Biblioteca Nacional de España
National Library of Scotland
Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (SIBUL)
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
University of Cambridge Library (Newton)
Oxford University Libraries (SOLO)
Harvard Libraries (HOLLIS)


Editoras
Cambridge University Press: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos
Oxford University Press: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos; More than Words (Oxford World’s Classics)
Routledge: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos
Penguin Books


Revista CLASSICA — Boletim de Pedagogia e Cultura

LÍNGUA PORTUGUESA
Vírgulas
Sujeito e Predicado

Vocativo

Oração Causal

Oração Concessiva

Oração Condicional

Oração Conformativa

Oração Final

Oração Proporcional

Oração Temporal


Uso do apóstrofo


Vocabulário estudado
à
Alcaida
contracto
contrato
de
de mais
demais
grama
majestoso
para
presidenta
sedear
sediar
se não
senão
seriação


Livro de Estilo

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1945)
Código de Redacção Interinstitucional
Dicionário da Língua Portuguesa (Priberam)
Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora)
LX Conjugator (conjugação verbal)
MorDeb
Corpus do Português Europeu
Corpus do Português
Corpus Lexicográfico do Português
CETEMPúblico
Corpus Rede de Difusão Internacional do Português
Transliteração do Alfabeto Grego
Associação de Informação Terminológica
Acordo Ortográfico de 1990
Norma Portuguesa de Metrologia

APONTADORES
Bandeira ao Vento
Blogtailors: o blog da edição
Cadê o Revisor?
Detective Cantor
Lóbi do Chá
Memento…
Pesporrente
Português em Dia
Rascunho.net
Relógio D'Água Editores
A Senhora Sócrates
O Vermelho e o Negro
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Balanço de um colóquio

Conto Português — Antolog...

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Setembro: vem aí o Dicion...

Encontro com a realidade

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