Sábado, 03.03.12

Reformado o PÚBLICO a partir de segunda-feira, perdem-se algumas coisas, como o “Poema ao Sábado”, no P2. No entanto, receio que uma avalanche desenfreada de notícias profundas (expressão em que tento traduzir a ideia de meio caminho entre notícia contextualizada e reportagem) se faça esquecendo as notícias-notícias. Pessoalmente, e acredito não ser caso único, nem sempre tenho tempo ou paciência de ouvir ou ler notícias na rádio e na internet (como não vejo televisão não a incluo na lista). Uma notícia publicada no PÚBLICO, por muito batida que esteja nos outros meios de comunicação social, tende a ser diferente (excepto naquelas cadavéricas breves plagiadas das agências), bem enquadrada e bem escrita. Estão prometidas menos notícias “médias”, e isso preocupa-me, pois só com grandes e breves não vamos lá.

Assim, e apesar de o jornal já ter sido pensado por outros que não por mim, na minha opinião deveriam ser banidos do novo formado impresso:

- notícias breves em cabeçalho de página;

- a constante remissão para blogues no cabeçalho (é cansativa);

- as frases do dia anterior (sem contexto nem interesse), o “escrito na pedra” (que apresenta uma espécie de máxima ou sentença de alguém famoso);

- “blogues de papel” (se eu quiser saber o que dizem os blogues sobre uma notícia ou tema, leio na internet, pois essas páginas ficam ligadas à da notícia em causa);

- comentários dos leitores às notícias publicadas online; as “cartas à Directora” não têm de ser a forma de leitores comentarem ou reagirem à actualidade, devendo estar o espaço reservado a queixas como a da Fnac ao texto de Miguel Esteves Cardoso (1 de Março), reflexões sobre o fazer jornalístico, direitos de resposta, etc.

- cinemas, teatros, concertos, exposições, etc. na secção “Sair” (o Guia do Lazer do Público Online providencia todas as informações úteis; bastava que saísse no Ípsilon à sexta-feira, o resto é duplicação cansativa e uso abusivo dos espaços do jornal);

- programação de televisão e outras na “Ficar”: é tradição que o jornal sirva a televisão (que, aliás, também serve os jornais, ora mostrando manchetes em programas matinais inenarráveis ora plagiando notícias), mas não há nada mais obsoleto: quem quer saber o que dá na televisão vai à internet, ao teletexto ou tem Box para ver o Guia TV, principalmente porque na maior parte das vezes a televisão não cumpre as horas nem o anunciado, e os resumos ou chamadas para séries e filmes são os que aparecem em todo o lado. Se o espaço for comprado pelas televisões, mais um motivo para acabar com ele.

- secção “Pessoas”: onde o PÚBLICO encontra a Caras. O jornal é um espaço de prestígio e rigor, não é uma revista cor-de-rosa.

As novidades no jornal são anunciadas aqui.



publicado por Ricardo Nobre às 10:06 | referência | comentar

O novo PÚBLICO chega depois de amanhã, dia 5, dia do aniversário do jornal, às bancas. Trata-se de uma reorganização (o que implica uma nova orgânica) na edição impressa, ou seja, novo não só na imagem como na concepção de jornal diário. A Directora explicou a mudança no passado domingo, dia 26 de Fevereiro, até porque o grande redesenhar gráfico do jornal foi há cinco anos (recorde-se que foi nessa altura que o elegante e maiúsculo PÚBLICO deu lugar a um P vermelho enorme, mais plástico). Diz Bárbara Reis que “Depois de meses de discussão e análise (…) decidimos experimentar um conceito diferente de diário”. Tal decisão concretiza-se em fazer aquilo que o jornal publica todos os domingos no resto da semana: menos notícias em que se debitam factos e mais atenção a esses factos, vistos à lupa, num contexto alargado. Se uma notícia consome rádio e televisão de noite, se de manhã ainda ecoa nesses meios, não é preciso ler exactamente a mesma coisa no jornal, ainda por cima, sendo este uma instância a que se tem acesso mediante pagamento. É por isso que, do meu ponto de vista, valorizam muito o jornal impresso precisamente aquilo que tem de só seu: algumas notícias próprias (nomeadamente reportagens), infografias e principalmente opinião. Só os editoriais são, diariamente, uma breve lição de cidadania, para já não falar de colonistas menos isentos. Deste modo, era preciso que o jornal diário encontrasse na vida das pessoas um espaço que não é ocupado pela televisão, rádio e internet, que vieram ocupar o seu.

Por outro lado, a questão da efemeridade de uma notícia que é publicada online, desmentida ou rectificada, pode ser prejudicial numa fixação perene em papel. Como o próprio provedor dos leitores tem alertado, uma notícia, por muito importante ou escandalosa que seja, não deve ser publicada sem critério, fora de princípios deontológicos e éticos, nem reflexão. Normalmente, quando isso acontece, dá asneira.

Desde que leio o PÚBLICO de domingo (mesmo antes de ser assinante lia mais a edição de domingo por motivos pessoais) que me pergunto (e pergunto a quem me rodeia, por isso há testemunhas) porque é que o jornal não era assim todos os dias: sem o embaraço do P2, sem que essa informação se perca ao ser diluída no caderno principal, com rubricas de reportagem alargada, sempre com coisas interessantes para ler, etc.?

Decorre também desta reforma a reinserção no jornal de secções de cultura e ciência (até agora, notícias deste teor apareciam na secção “Portugal”, ainda que tendessem a ser agrupadas perto umas das outras).

Não sou — nem quero ser — teórico da comunicação, com especialidade em imprensa periódica, e aquilo que digo é o que me parece há muito tempo: o PÚBLICO pretende ser, a partir de dia 5 de Março, aquilo que deveria ter começado a ser quando se sentiu atacado pela internet: como uma revista de informação (tipo Sábado ou VISÃO) diária. Percebeu isso depois de tanta reflexão. E 22 anos depois de fundado, é mais uma revolução na imprensa de referência em Portugal.



publicado por Ricardo Nobre às 09:31 | referência | comentar

Sábado, 19.11.11

Toda a gente a dizer que o papel de Diogo Infante foi fundamental para atrair mais pessoas ao teatro do Rossio. Falam em taxas de ocupação a rondar os 90%. Não sei, sei falar de mim. Os anos em que Diogo Infante lá esteve coincidiram com a minha ida mais regular ao Teatro Nacional. Guardo na memória excelentes peças com excelentes actores como Édipo e Jardim Suspenso. Em breve lá irei ver o Eurico. Mas desde que Teixeira dos Santos despediu vários directores-gerais de diversos organismos do Estado porque não fizeram a avaliação dos seus funcionários a tempo, sem olhar ao excelente trabalho que lá tinham realizado, já não nos deveríamos espantar com nada. Gregos, cedei o passo aos próximos clientes do partido no poder, poderia dizer Propércio.



publicado por Ricardo Nobre às 09:54 | referência | comentar

Em política, a memória é sempre muito curta. A redução de salários no sector privado desencadeou críticas de vários comentadores e políticos. Há anos, um ministro da Economia promovia Portugal no estrangeiro com o argumento de que os salários eram baixos. Hoje, o secretário-geral do mesmo PS critica a solução dos nossos novos governantes externos. Era importante os políticos perceberem que quando falam representam um organismo superior a eles. No caso, o ministro que fez cornichos na ex-casa da democracia (ali em S. Bento, onde se decidiram, durante muitos anos, o futuro do país) falava ao serviço de um partido, que agora já não entende a "medida" como significativa para a concorrência. Coerência era o mínimo que se pedia, já que sentido de estado seria pedir demais.


publicado por Ricardo Nobre às 09:41 | referência | comentar

Quarta-feira, 16.11.11

Como ninguém me vai dar isto, os deputados da Assembleia da República devem dar o exemplo.

Está online a petição «Congelamento do Subsídio de Férias e Natal dos Deputados da Assembleia da República»: porque há quem precisa e não tem.



publicado por Ricardo Nobre às 00:08 | referência | comentar

Domingo, 13.11.11
Na antiga Roma republicana, aquilo a que na Grécia de hoje se chama Governo de Salvação Nacional, em funções durante escassos cem dias, tinha o nome de Ditadura. Em períodos de acentuada crise, o ditador governava os destinos da república. Assim em Roma e na Grécia a História repete-se. Até porque, no editorial do Financial Times de hoje, se diz que a nossa democrática União Europeia obriga a que países democráticos sejam governados por dirigentes não eleitos. Até que a crise os separe.


publicado por Ricardo Nobre às 10:08 | referência | comentar

Sexta-feira, 11.11.11
Foram já dois os “capitães de Abril”, Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho, a fazerem declarações e promessas de golpe de estado militar, por não concordarem com as opções políticas actuais. Eu também não concordo com quase nada que este governo fez até agora, mas, uma vez eleito democraticamente pela maioria dos eleitores portugueses, tenho de respeitar essas decisões. Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho esquecem-se de que há diferenças entre 1974 e 2011. Há trinta e tal anos, tiveram o apoio popular, e o governo não. Agora quem tem o apoio do povo é o governo (saiam dos seus cuidados revolucionários e vejam as sondagens), os militares não.
Não tivesse eu respeito pela história e mandaria os “capitães”, actualmente reformados e engordados, ir jogar às cartas num jardim próximo.


publicado por Ricardo Nobre às 09:19 | referência | comentar

Quinta-feira, 10.11.11

Todos os dias se fala e escreve sobre a Grécia, fazendo referências mais ou menos irónicas aos antepassados: é com a tragédia grega, ou mesmo a comédia grega, misturadas com outras brincadeiras que os comentadores, certamente profundos conhecedores desta literatura antiga, adornam os seus textos ou discursos. Mas a Grécia da Antiguidade não é só a do século V a.C., aquela que conheceu os tragediógrafos e comediógrafos, Tucídides, Péricles e Demóstenes... No início do século II da nossa era, escrevendo sobre o principado de Tibério, o historiador Tácito (Annales, 2.55) documenta, acerca de Pisão, governador da Síria e inimigo de Germânico:

No entanto Cn. Pisão, para mais adiantar seus intentos, entrava, sem ser esperado, em Atenas; e repreendendo com palavras severas os habitantes assustados, atacava indirectamente Germânico por haver feito, contra a dignidade do povo Romano, tamanhas distinções, não a esses Atenienses, já extintos por tantas calamidades, mas a uma bastarda descendência de diversas nações, e que só era insigne por sua aliança com Mitridates contra Sula, e com António contra o divino Augusto. Deitou-lhes ainda em rosto crimes antigos, tais como as tentativas infelizes, que haviam feito contra os Macedónicos, e as violências que uns contra outros haviam cometido (...).

A tradução é de José Liberato Freire de Carvalho (1830).

Já então os gregos eram uma bastarda descendência de um antepassado longínquo (quase seiscentos anos; menos que isso separa-nos dos descobrimentos). Acontece, porém, que no original latino se lê conluuiem, o mesmo é dizer 'excremento'.



publicado por Ricardo Nobre às 14:45 | referência | comentar

Terça-feira, 08.11.11
Voltámos a ler e a ouvir, infelizmente, que os políticos deixam os seus cuidados pessoais e profissionais para assumir as funções governativas. Quem melhor do que Camilo Castelo Branco, na voz do seu protagonista de A Queda dum Anjo, Calisto Elói, para comentar esse mesmo sacrifício?
Calisto Elói, enternecido até às lágrimas pela sorte da terra de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor Cincinato:
— Aceito o jugo! Assaz receio, mulher, que os nossos campos sejam mal cultivados este ano.


publicado por Ricardo Nobre às 18:00 | referência | comentar

Segunda-feira, 07.11.11
Preciso de citar aqui parte do editorial do PÚBLICO de hoje:
Ainda é cedo para compreender os cortes que o Governo realmente tenciona fazer nos transportes públicos de Lisboa e do Porto. Mas o que já se sabe (e o que não se sabe) é mais do que suficiente para fazer disparar os sinais de alarme. Lançam-se para a praça pública propostas que afectam o quotidiano e o direito de milhares e milhares de pessoas que trabalham à noite, uma parte das quais vive em zonas suburbanas que só há poucos anos foram ligadas ao metropolitano. Os números essenciais não são conhecidos: quantas pessoas serão afectadas e quanto dinheiro se vai poupar? A sensação que fica é a de que estes planos foram pouco pensados e de que não estão minimamente enquadrados numa política de transportes públicos.
Há um certo primarismo nesta política de cortar às cegas cujo objectivo é remendar os prejuízos astronómicos das empresas públicas do sector e o respectivo impacto no défice. Nos primeiros nove meses do ano, os apoios do Estado a essas empresas aumentaram 2121 % face a todo o ano de 2010 - um número inimaginável e terceiro-mundista.
Fundir empresas, como prevê o plano estratégico do Governo para os transportes, é um passo correcto e necessário para inverter este estado de coisas. Mas não se pode acrescentar ao desvario financeiro o desvario dos cortes irracionais na rede de transportes públicos, sem compreender primeiro quais os serviços que são insubstituíveis. O preço da cegueira será acrescentar despesa à despesa: outro cálculo que ainda não está feito é o custo para os cidadãos e para a economia destes cortes indiscriminados.
Ouve-se dizer que estamos numa economia de guerra. Só que, durante as guerras, os estados não abandonam os cidadãos. E é exactamente isso que o Governo estará a fazer, se estas propostas impensadas forem para a frente.


publicado por Ricardo Nobre às 20:55 | referência | comentar | ler comentários (1)

Domingo, 06.11.11
O estudo encomendado pelo governo para diminuir os custos operativos dos transportes colectivos da região de Lisboa prevê o fim de várias carreiras de autocarro, uma de eléctrico (o 18), o meio de transporte típico que os turistas mais procuram em Lisboa.

O ministro já disse que apenas há propostas, e que nada está decidido. Toda a gente sabe que o estudo não foi feito por nenhum especialista em transportes, nenhum dos envolvidos escreveu um artigo de jornal sobre transportes públicos, muito menos artigos científicos. Sim, estas coisas estudam-se em moldes sérios e criticamente sustentados.

Os nomes das autoridades do estudo são os nomes de pessoas que tinham como missão reduzir despesas. E o estudo prova que o estado encomenda estudos sabendo à partida o que quer que eles concluam.

Quando se ouve um responsável do governo dizer que é preciso acabar com sobreposições entre a rede do metro e da Carris, podemos concluir, sem dúvidas, que essa pessoa não só nunca andou de transportes, como nunca pensou criticamente sobre o assunto.

Entre estações de metro pode haver várias paragens de autocarro. Há dezenas de estações de metro que não têm acesso facilitado, não só a deficientes, como a pessoas com outras dificuldades de locomoção. Já se disse neste blogue (http://livrodeestilo.blogs.sapo.pt/272213.html) que a estação de metro da Cidade Universitária serve o Hospital de Santa Maria, o maior do país, mas tem uma única escada rolante que apenas sobe, mas não desde o comboio até à rua. Não há elevadores.

Além de vedar o acesso universal aos transportes públicos, o governo quer também que quem paga passes e bilhetes cada vez mais caros ande mais a pé. Uma vista de olhos pelas carreiras que se prevê venham a encerrar estão algumas que não têm problemas de lotação.

Estão nesta lista carreiras cujo número começa por 7, ou seja, fazem parte da Rede Sete. Parece-me que esta é uma imensa fraude e que a Carris andou a mentir aos seus utentes... Estamos perante uma empresa ignorante, a que faltam estudos sérios e críticos. O objectivo da Rede Sete afinal foi reformular percursos, alguns deles tão mal estudados que mudaram diversas vezes. O 16 ia para a Praça do Chile. Passando a ser 716, começa a ir apenas para S. Sebastião. Não por muito tempo... Actualmente avança até ao Arco do Cego.

Porque não se reduzem os custos da empresa com um corte severo nas chefias da empresa, não só na quantidade de assalariados milionários, como na sua quantidade? Com a publicidade instalada nos autocarros, com o preço dos passes e bilhetes, com o dinheiro dos contribuintes, o que está a mais na Carris é o salário dos dirigentes.

O mesmo para a CP. Só quem nunca andou de comboio pode aceitar que uma empresa destas dê despesa. Como é que a quantidade de passageiros, suburbanos e de longo curso, não pagam todas as despesas operacionais da empresa naquelas linhas deficitárias? Porque é que em vez de automotoras velhas e dispendiosas não estão a circular veículos modernos, ecológicos, rápidos e que sejam, de facto, alternativas às rodovias? Não sei. Faltam estudos.



publicado por Ricardo Nobre às 15:30 | referência | comentar

Domingo, 13.02.11

Há uma campanha do Metropolitano de Lisboa que diz «vá de metro», quer seja ao futebol, aos concertos do Rock in Rio, ou mesmo ao cinema. É inacreditável as coisas em que as empresas de transportes gastam dinheiro, eu sei. Também sei onde não gastam.

No PÚBLICO de ontem (não encontro a notícia no site; eu comprei o jornal) vinha uma reportagem a dizer que cerca de 40% dos equipamentos de mobilidade das estações do Metro de Lisboa (elevadores e escadas rolantes) estão fora de serviço. Há 81 elevadores em todas as estações, 31 estão avariados. A juntar a isto, são raras as estações que têm tudo operacional. Dessas excepções vinha nessa notícia-reportagem a referência à estação dos Restauradores, mas a jornalista deve ter-se esquecido do elevador que, no cais do sentido Santa Apolónia, levaria os clientes ao átrio. Não funciona há meses (se calhar há ainda mais elevadores não contabilizados pelo PÚBLICO e também avariados).

Outro aspecto negligenciado pela notícia é o número de estações que ainda não dispõe desses equipamentos, nomedamente o Martim Moniz (que deveria servir o Hospital de S. José), a Cidade Universitária (que serve o Hospital de Santa Maria), Jardim Zoológico (onde as pessoas andam carregadas a caminho da rodoviária), Colégio Militar (que serve o Colombo)...



publicado por Ricardo Nobre às 10:55 | referência | comentar

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