Terça-feira, 3 de Abril de 2007
Na passada quinta-feira fui ao Teatro Municipal de S. Luiz assistir à representação da peça Julius Caesar de William Shakespeare, renomeada de A Tragédia de Júlio César, encenada por Luís Miguel Cintra e por ele representada com o elenco da Cornucópia.
O texto é belíssimo e os actores estiveram à sua altura, mas não me parece bem o Cássio ficar sem fôlego no final de cada frase que pronuncia. A banda sonora ao vivo estava excelente, mas a repetição dos separadores da segunda parte era ligeiramente enervante.

No entanto, o problema foram e são os figurinos e o cenário, que causam ruído e desviam a atenção da mensagem.
Pessoalmente, nunca percebi muito bem porque é que se fazem adaptações de peças clássicas se elas são consideradas geniais como estão. Assim, não sei porque é que, na segunda parte, os legionários romanos aparecem vestidos de soldados modernos (mas lutam com espadas, que nem gládios romanos eram), ou Marco António, Lépido e Octaviano aparecem de fato e gravata (até pensei que ia começar o Diz que é uma Espécie de Magazine). Ainda por interpretar estará a mistura de lençóis a fazer de togas na primeira parte com as sapatilhas (feias, ainda por cima) do Júlio César — ou os sapatos de qualquer outra personagem.
As personagens que ficam durante a peça quase toda paradas e sem função dramática em cena têm alguma razão de ser, mas também me parecem desnecessárias, principalmente na segunda parte, quando o sujeito se limita a levantar-se para fumar.
A intenção dessa adaptação é óbvia: ver o Marco António a mexer numa calculadora a fingir de computador actualiza-nos a mensagem, que não é de Shakespeare, nem da Antiguidade, mas de todos os tempos. Só não sei para que serve essa actualização. Na plateia não vi nenhum atrasado mental que não soubesse transportar a mensagem para o mundo moderno, ou ver na guerra em Filipos (que se diz Filipos, e não Filipòs*) a atrocidade e violência de qualquer guerra, ou nas traições e intrigas a mesma desonra de qualquer traição e intriga.
A juntar a isto a duração da peça. Eu sei que é a duração original, mas no tempo de Shakespeare as representações não começavam às 21h e acabavam depois da meia-noite e quarenta, quando os espectadores precisavam de se levantar cedo para ir trabalhar.

Há mais Shakespeare, Hamlet, no Teatro da Trindade. Hei-de ir ver, esperando encontrar, senão fidelidade, pelo menos congruência de uma qualquer actualização/ adaptação.

* Já agora: diz-se Pompeio e não Pompeu; Metelo pronuncia-se metèlo e não metêlo, como em metê-lo. Conviria ainda que, quando se diz “bom Messala” não pareça “Gonçalo”. E não tenho problemas de audição...


publicado por Ricardo Nobre às 10:35 | referência | comentar

5 comentários:
De Susana Alves a 3 de Abril de 2007 às 11:44
Hum, acho que na Trindade também irás encontrar All Star, se não laranja, provavelmente de outra cor... Mas mesmo assim, aquilo que mais me chocou até hoje em cena foram, sem dúvida, os capacetes de ciclista na peça Medeia, que estave em cena no D. Maria, a servirem de coroas...


De André a 4 de Abril de 2007 às 00:30
Metêlo é realmente uma afronta, além de uma cacofonia que dispensa comentários.


De Anónimo a 4 de Abril de 2007 às 01:11
Não percebo por que se há-de dizer metèlo e não metêlo... o -e- é longo, encontra-se em sílaba aberta (ou seja, é "naturalmente" longo) e são muitos os que eu oiço lerem cêpi e lêgi...


De Anónimo a 4 de Abril de 2007 às 01:18
Peço desculpa: o -e- não está em sílaba aberta porque em latim escreve-se Metellus. É por isso que se deveria ler -tè-?


De Isaltina a 10 de Abril de 2007 às 14:45
Mas não nos esqueçamos do espaço, que no momento do intervalo tanto nos animou. Vimos logo ali um espisódio queirosiano, com uma Maria Eduarda a assistir ao teatro, numa das galerias...


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