Domingo, 24 de Fevereiro de 2008
Tal como das outras vezes, Livro de Estilo pretende problematizar o teste do Campeonato da Língua Portuguesa — e não necessariamente dar as respostas sem uma apreciação crítica acerca de algumas questões linguísticas levantadas.

Primeiro texto
No primeiro texto, surge a forma cotidiano, perfeitamente aceitável em português brasileiro (PB). No entanto, é manifestamente dominante a variante europeia do texto. Assim, é erro.
A palavra pantalha é tão “bonita” que deve ser encorajado o seu uso na SIC e na Sociedade da Língua Portuguesa.

Pergunta 3
Pede-se a expressão correcta de entre estas:

- as blusas amarelas-canário
- as camisas verdes-escuras
- os cavalos puro-sangue
- os vestidos rosas-claro


Ora, sabe-se que o plural de amarelo-canário é amarelos-canários ou amarelos-canário.
O plural do substantivo verde-escuro é verdes-escuros, mas o plural do adjectivo é verde-escuros. Assim, se rosa-claro existir, o plural do adjectivo também não pode ser rosas-claro.

Pergunta 5
É um caso em que há uma hipótese mais correcta do que outra. Claro que as palavras proparoxítonas são sempre acentuadas, mas só dois tipos de acento podem figurar na antepenúltima sílaba.

Pergunta 7

Qual é a classe de «quantos» na frase «Ele perguntou quantos filhos ela tinha.»?
- advérbio de quantidade
- determinante interrogativo


A forma quanto pode ser, segundo diversos dicionários (nenhum igual a outro, como sempre), adjectivo, determinante interrogativo, pronome interrogativo, pronome relativo, advérbio, e substantivo. Nesta frase, “quantos” introduz a oração subordinada completiva de “perguntou”, equivalente a “quantos filhos tens?”. Logo, em rigor, tratar-se-ia de um quantificador interrogativo, só que, como quanto não quantifica o nome que determina (filhos), pode designar-se determinante interrogativo.
Quanto à primeira hipótese, lembre-se que a classificação tradicional (baseio-me na Nova Gramática do Português Contemporâneo) não contempla “advérbio de quantidade”.

Pergunta 8
“Consoante sonora” significa que a sua realização fonética implica a vibração das cordas vocais. Nessa medida, f contrasta com v.

Pergunta 11
Poucas perguntas deste campeonato são tão mal formuladas que não se percebe o que se quer:

Na frase «As aves fazem os ninhos sobre as árvores de grande porte.», «aves», quanto ao sentido e forma, tem a classificação de:
A. hiperónimo
B. heterónimo
C. homónimo
D. sinónimo


Não tem a classificação de nada disso pelo simples facto de que “aves” só pode ser hiperónimo quando se estabelece uma relação entre esta palavra e outra (por exemplo, “ave” é hiperónimo de “canário” e de “periquito”). É por isso que os termos “hipónimo” e “hiperónimo” se enquadram naquilo a que se chama “relações semânticas de hierarquia entre as palavras”. Do mesmo modo, o vocábulo “ave” também pode ser homónimo de “ave”, forma de saudação; para não contar que “ave” pode ser até sinónimo de, por exemplo, “pássaro”. Sozinho, “quanto ao sentido e forma” não é nada.

Pergunta 12
Eu percebo que no terceiro teste se pretenda excluir muita gente com perguntas pretensiosamente difíceis. Mas falar em “tonalidade especial de categoria e de aspecto”, nomeadamente no âmbito da gramática tradicional pouco mais é do que dizer “escolha à vontade porque nós já nos estamos nas tintas”. Vejamos:

A frase «Eu tive de tomar esta atitude.» tem a seguinte tonalidade especial de categoria e de aspecto:
A. disposição ou determinação
B. necessidade ou obrigatoriedade
C. intenção
D. futuro imediato


Duas hipóteses podem estar correctas, a A. e a B., porque parece que a resposta depende da forma como a frase é lida. A ausência de ponto de exclamação parece apontar para algo mais cordial do que uma ordem — mas note-se como se juntou a necessidade com a obrigação: uma mistura muito pouco séria em termos científicos. Ah, esquecia-me que este campeonato não tem nada que ver com “termos científicos” — não vá uma “tecedeira” dizer que é feminino gramaticalmente correcto de “tecelão”.

Pergunta 16
O significado de “trintanário” foi inquirido na grande final do ano passado...

Pergunta 21

Recordando o escritor cabo-verdiano Gabriel Mariano, diga que figura de estilo é visível nestes versos: «Bandeira erguida no vento / em mãos famintas erguida / guiando os passos guiando / nos olhos livres voando / voando livre e luzindo / luzindo a negra bandeira»
A. epífora
B. anáfora
C. epanadiplose
D. hipérbole


Recorde-se que “epífora” (“repetição de uma ou várias palavras no final de um verso, de uma estrofe, de uma frase ou um período”, segundo o dicionário Houaiss) é o contrário de “anáfora” (“repetição de uma palavra ou grupo de palavras no início de duas ou mais frases sucessivas, para enfatizar o termo repetido”). Por sua vez, “epanadiplose” significa “repetição de um termo no início de um verso ou frase e no fim do seguinte; epanástrofe” (também segundo o dicionário Houaiss) ou, no dicionário da Porto Editora, “repetição de uma palavra ou expressão no princípio e no fim do mesmo verso ou frase”. Nos Elementos de Retórica Literária de Lausberg, vem claramente a dizer que a anadiplose também é epanadiplose e epanástrofe (pág. 169). O Dictionnaire de rhétorique de G. Molinié distingue epanadiplose de anadiplose como sendo aquela uma variedade desta.

Continua...


publicado por Ricardo Nobre às 20:58 | referência | comentar

13 comentários:
De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2008 às 21:38
Ora viva! :-)

Sobre a 5: as esdrúxulas podem ter aceto grave, agudo ou circunflexo... São 3, ao todo, não?

Um abraço,

APC


De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2008 às 21:44
Já agora, concordo inteiramente com o que diz sobre a 11, e também já me fartei de barafustar. De qualquer das formas, resolvi-me pela mínima tolerância, e a pensar assim: a) havia ninhos de pássaros nas árvores; b) nada dizem sobre o tipo de pássado, pelo que poderei considerar a hipótese de os haver de vários tipos; c) e, quaisquer que fossem os pássaros que ali haviam nidificado, todos eles pertenceriam sempre hipónimos de "ave". E pronto, fiquei assim!

:-)


De Ricardo a 24 de Fevereiro de 2008 às 21:56
Não, APC. Os acentos graves não marcam a sílaba tónica.
Abraço,
Ricardo


De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2008 às 22:07
Ressalva: (...) e, quaisquer que fossem os pássaros que ali haviam nidificado, todos eles seriam sempre hipónimos de "ave".

Ricardo: as palavras derivadas da crase "à" (àquilo, àquele/s(s), àqueloutro/a(s)) levam-no, certo?

APC


De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2008 às 22:09
Xi, Ricardo, esqueça! Já percebi o disparate que disse. Essas palavras são acentuadas mas não são esdrúxulas, não é?

Obrigada,

APC


De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2008 às 22:17
Pois... Quanto à 12, já se sabe que eles andam entusiasmadíssimos com a diferente entre "ter de" e "ter que"! :-)

E, pela minha leitura, à parte quaisquer confusões entre uma e outra, há epanadiplose em:
erguida ao vento, (...) erguida
guiando os passos, guiando

mas também anadiplose, em:
nos olhos livres voando
voando livre e luzindo
luzindo a negra bandeira


Estou errada?

Obrigada,

APC


De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2008 às 22:20
PS - Segundo isto: http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/A/anadiplose.htm


De Ricardo a 25 de Fevereiro de 2008 às 07:22
A acentuação grave não marca a sílaba tónica, mas a contracção: por exemplo, a sílaba tónica de "àquele" é "-que-".
Quando à epanadiplose, ainda que, como verifiquei, haja certa variação nos significados dos dicionários, por exclusão, só pode ser esse recurso de que se fala.


De Anónimo a 25 de Fevereiro de 2008 às 21:07
Exacto, a crase.

::: ::: :::

Agora:

Apesar de não ter quaisquer dúvidas em relação ao verbo "assegurar", esteja ele onde estiver no nosso teste, ocorreu-me explicar a alguém a diferença entre a regência desse verbo e do verbo "certificar", e, às tantas, dei por mim toda baralhada.

Em suma, o primeiro requer o "de" apenas quando reflexo (asseguro-me/asseguras-te...); já segundo (tal como acontece com o verbo "informar"), só quando se menciona a entidade a quem se certifica de algo (ou a quem se informa de algo), é isto?
(Sim, que eu também posso certificar algo a alguém - um doc, por ex. -, mas aí já não é a mesma coisa).

E não haverá uma forma mais clara de se explicar isto?; porventura com recurso à questão dos CD/CI?

Mil obrigadas,

APC


De Ricardo a 25 de Fevereiro de 2008 às 21:43
APC,

O verbo "assegurar" pode construir-se com a preposição "de" no sentido transitivo indirecto (sinónimo de 'garantir'); enquanto transitivo directo e indirecto, permite a preposição "a" (quer complemento preposicionado, quer complemento indirecto). É pronominal quando sinónimo de 'certificar-se' (o que exclui a hipótese de interpretação "certificar um documento"): neste caso, é seguido de "de"; sinónimo de 'basear-se' admite "em".
Estas são informações do Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses (Texto Editores), que observa ainda que "nas construções que admitem frase finita, a preposição pode ser omitida", sendo por isso legítimas construções como "asseguro que o compromisso será cumprido" e "o professor assegurou-se que os alunos estavam preparados".

Disponha sempre,
Ricardo


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