Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006
Estes são, grosso modo, os motivos que me levam a aceitar a TLEBS; serão refutáveis, falíveis, mas não é minha intenção fazer com que alguém que tenha posição firme contra passe a aceitar estas alterações; serve o presente texto para mostrar como também é possível ter formação em literatura e estar ao lado dos cientistas da língua.

Na escola, aprendi que o sistema solar era composto por nove planetas e que entre a Terra e Marte havia uma cintura de asteróides. O nono planeta chamava-se Plutão. Hoje, depois de uma reunião de cientistas, decidiu-se que, afinal, Plutão não tem as mesmas propriedades que os outros planetas – e Plutão deixou de ser considerado o nono planeta do sistema solar.
Os manuais escolares, os livros técnicos de astronomia, as enciclopédias ficaram desactualizados. Admito até que muitas obras literárias se “desactualizaram” e que daqui a 50 anos as suas referências a Plutão devem ser providas de nota de rodapé a explicar que Plutão foi considerado planeta durante muitos anos, mas que em 2006 provou-se que era um outro tipo de corpo.
Que atitude tomar perante esta evolução científica?
a) Podemos ignorá-la, continuando a nomear nove planetas até à morte – e ensinar os filhos e alunos que são nove;
b) Podemos fazer um esforço e actualizar-nos. Durante o processo de mudança, há um esforço extra para entender a mudança: porque é que Plutão não é, afinal, planeta digno desse nome? Que características o inscrevem na categoria “planeta anão”? quais são os planetas ‘novos’ no sistema solar? – e outras perguntas que podem emergir na investigação.
Qualquer pessoa alfabetizada e detentora das suas faculdades mentais opta pela atitude descrita na alínea b), mesmo que não tenha formação específica em astronomia. Isto porque essa pessoa tem a consciência de que a astronomia é uma ciência e, por isso, está sujeita a alterações significativas de um momento para o outro. Acredito que todos os dias sejam publicados artigos com novas descobertas e novas actualizações de saberes.
Alargue-se o escopo de análise a todas as ciências exactas, puras ou humanas de que nos lembramos: em todas elas, o conhecimento actualiza-se mediante novas descobertas, novas propostas de abordagem, novas perspectivas de entendimento.
Nesta medida, é normal e natural que também a Linguística tenha conhecido, nas últimas décadas, diversas teorias e contrateorias. É uma ciência que não está parada, pelo contrário.
Essa evolução faz-se, sobretudo e como é de esperar, em ambiente académico. Os programas das cadeiras de Linguística contemplam, desde há muito, uma perspectiva de análise diferente da de Cícero, Quintiliano ou João de Barros – e mesmo daquela que aparece na Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra [e não de Lindley Cintra e Celso Cunha, como dizem alguns]. Pela nomenclatura, pela análise de constituintes frásicos e das classes de palavras, chama-se a esta “gramática tradicional”, pois que se baseia na interpretação da língua portuguesa sob o espectro da tradição gramatical greco-latina (então ramo da filosofia e ou da retórica).
É claro que, 2000 anos depois, não há mal nenhum andarmos a seguir a gramática de Varrão ou de Donato. Há ensinamentos que são extrema e comoventemente actuais – e há estudos (meus, inclusive) que apontam no sentido de Varrão pressentir a existência de uma língua, comum, anterior ao grego e ao latim – e sabemos que esta é uma hipótese validada e assumida como certa desde o início do século XX (1900 anos depois de Varrão*).
Varrão, Donato, Fernão de Oliveira, João de Barros, Ferdinand de Saussure, Antoine Meillet, Roman Jakobson, Émile Benveniste foram gramáticos/ linguistas, cada um na sua época e na sua língua (ou estudando as “clássicas” – ou o arménio, lembrando Meillet), cada um introduzindo inovações extraordinárias que concorreram para que a Linguística se assumisse como ciência no final do século XIX.
Falamos porque somos humanos, mas somos humanos porque falamos. Alfabetizados, podemos protagonizar este milagre de criar pensamentos, colocá-los nestes caracteres a fim de transmitir esses pensamentos a outras pessoas. É o que estamos a fazer agora.
Os usos que se fazem desta faculdade de linguagem são muitos e muito diversos, mas eles são estudados e tipificados teoricamente. São os linguistas que estudam esses mecanismos. A linguística geral estuda aspectos relacionados com a aquisição e utilização dessa faculdade. Para o estudo, faz uso do método científico: toma o objecto e contrasta, prova, expõe, experimenta. A Linguística não é menos séria do que a astronomia do início deste texto.
Relativamente à gramática tradicional, a “nova” linguística distancia-se de diversas maneiras, nomeadamente no abandono do empírico e na substituição da oposição correcto/ errado pela de gramatical/ agramatical (aceite como próprio de uma língua e o que não é admissível). Quem somos nós, com estudos superiores, para dizer a uma criança que não se diz de uma maneira ou de outra só porque sim?
Esse “porque sim”, moralizador, saiu dos estudos de linguística. A linguística estuda processos de usos de uma língua em constante mudança, não a faz permanecer amordaçada nuns parágrafos de uma gramática. Estamos perante um estudo de um objecto em permanente mudança – e é preciso analisá-lo e estudá-lo e transmiti-lo.

* Em rigor, o termo é mais antigo, datando do século XVIII, quando foi empregue por Thomas Young, linguista e arqueólogo inglês.


publicado por Ricardo Nobre às 11:05 | referência | comentar

6 comentários:
De tempodividido a 18 de Dezembro de 2006 às 00:56
Meu caro, com a analogia "prova-se" não inmporta o quê. O problema da TLEBS não é a inovação. É a falta dela; não é o ser aberta, mas o pretender-se descritiva e ser de facto impositiva; é o estar inacabada e estarem desarticulados os seus domínios; é não ter sido didactizada e ter sido lançada às escolas sem respeito nem por alunos, nem por professores nem por quem deve ter tido bastante trabalho a fazê-la. Há quem deseje uma nova terminologia e uma nova gramática que clarifiquem o funcionamento da língua e sirvam a didáctica das línguas, materna e estrangeiras, nomeadamente que ajudem a escrever de modo escorreito, e não se contente com arremedos.
Pois não, a linguística não devia ser menos séria do que a astronomia, e por isso não devia confundir hipóteses com factos provados. Embora isto da exactidão científica tenha muito que se lhe diga, sobretudo no capítulo das ciências ditas sociais e humanas.


De Anónimo a 18 de Dezembro de 2006 às 16:13
O sr. pode ter toda a razão, quando afirma que uma língua não pode e não deve ser um corpo morto.
Contudo, a comparação com o que se passa com o planeta Plutão é algo de muito forçado, para não dizer sem qualquer sentido.
Se o sr. me explicar (para analfabeto entender...) porque é mais correcto chamar de "sujeito nulo expletivo" ao simples e tão compreensível sujeito indefinido, então eu talvez lhe possa dar alguma razão.
(j)


De Ricardo a 19 de Dezembro de 2006 às 10:05
Meu querido e bom "anônimo",

Não é costume neste blogue o autor responder a comentários, principalmente a provocações (para mais de alguém que não tem a dignidade de assinar o nome), mas no seu caso tenho de me manifestar:
se o "anônimo" ACHA que o sujeito indefinido é melhor do que o expletivo então, e lamento informá-lo, encontra-se entre a maioria dos opinadores, que são amadores e que por norma não percebem nada da TLEBS.
A gramática tradicional diz que o SUJEITO e o PREDICADO são os TERMOS ESSENCIAIS DA ORAÇÃO. No entanto, para frases como "chove", "faz frio", diz-se que - imagine o meu amigo "anônimo" - NÃO TÊM SUJEITO.
Sugiro que se mantenha atento ao andamento deste blogue, que irá, tão breve quanto possível, fazer aquilo que se vê nos outros: falar mal de umas definições, confrontando-as com as novas. É verdade: quando se quer ver a coisa pela parvoíce, podemos inverter o "sentido da seta semântica". A diferença será que vou tratar das coisas com o mínimo de dignidade possível, com o maior respeito que me merecem, tanto Celso Cunha e Lindley Cintra, como algumas das autoras da TLEBS.
Ricardo Nobre


De Manuel a 20 de Dezembro de 2006 às 12:15
Meus caros...

Neste mundo não há nada perfeito, nem a TLEBS nem a Gioconda o são. No entanto a tentativa de impedir a normal progressão científica é tão antiga que já tem barbas...

Isso de pegar nos pontos negros da TLEBS para a enegrecer por completo é apenas uma demagogia incipiente. Parece-me que há que ver o que está errado na TLEBS, porque como disse não nada perfeito, e tentar melhorar. As críticas que têm surgido, normalmente não passam de ataques de "velhos do restelo" sempre mencionando os mesmos exemplos de um documento muito mais vasto do que dão a entender. Dizer mal é muito fácil, mas criticar construindo é muito mais complicado não é?

Mas críticas como as do senhor "tempodividido" são mais concretas e atingem pontos cruciais. Lançar para as escolas a TLEBS como forma de teste empírico é discutível, mas isso não invalida o trabalho científico de quem realizou tal documento.

Cumprimentos e boas festas a todos, até aos anónimos...


De Anónimo a 27 de Dezembro de 2006 às 16:43
Não invalida?! Há domínios da terminologia que parece terem sido feitos com rigor, tanto quanto posso avaliar. Mas parece-me muito duvidosa a seriedade e honestidade das equipas responsáveis por outros domínios. Não vi, por exemplo, a Mira Mateus e a Ana Duarte, nos últimos artigo e entrevista publicados no Público, responderem às críticas feitas pelo João Peres ou refutarem as acusações graves de erros científicos e desonestidade intelectual. Ficaram-se pela afirmação de generalidades consensuais e inócuas: é importante o ensino da gramática, dizem ambas - e quem discorda disso?!; os alunos chegam às faculdades sem saberem o que são palavras esdrúxulas e sem saberem regras de ortografia: é certo, e saem de lá na mesma. Assim que...
Também esse argumento de que recusar a tlebs tout court é ser-se velho do restelo não cola: nem tudo o que é pouco conhecido ou parece bizarro (pois pouco é assim tão novo na tlebs, mesmo se me reporto ao tempo em que que concluía Filologia Românica, vertente de Linguística, no início da dédacada de 80) se traduz em progresso ou qualidade sustentada.

tempodividido@yahoo.com


De Anónimo a 27 de Dezembro de 2006 às 16:44
Corrijo: Inês Duarte.

tempodividido


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