Terça-feira, 5 de Setembro de 2006
Tempos houve em que qualquer pessoa com um curso superior podia enveredar pela carreira docente. Hoje, a realidade é bem diferente. E a juntar ao curso superior é precisa formação profissional específica (as chamadas “didácticas” e “pedagógicas”).
Juntamente com essas pessoas, com um curso sólido, entram no mercado de trabalho outras, com cursos das chamadas “escolas superiores de educação”. Estas últimas pessoas recebem formação didáctico-pedagógica ao longo do curso, a par de sucessivos “estágios”, que nos cursos das faculdades se resume a um ano no final da formação teórica.
Todavia, nas faculdades também há diferenças significativas. Não é novidade para ninguém que um aluno de 16 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL, se estudasse na Faculdade de Letras da Universidade Clássica, teria uma média de 11-12*. Porquê? Porque os padrões de exigência diminuem nas universidades mais recentes. Afinal, elas têm de se afirmar no mercado. Concomitantemente, interessa aos alunos um curso superior com uma média maior e, se possível, passando por professores que aparecem na televisão. É pouco relevante a mãe ficar na terra a dizer que a filha tem aulas com os maiores especialistas na área, se não disser que tem aulas com esta ou aquela figura pública.
Actualmente, os próprios cursos de humanidades sofreram uma redução muito significativa na procura. E os poucos que os procuram preferem o mais fácil. Como resultado, a faculdade mais exigente tem de se tornar mais permissiva (porque acaba por perder alunos e... dinheiro). Nos casos em apreço, lembro que na “Nova” o Latim não era obrigatório para alunos de Estudos Portugueses, ao passo que na “Clássica” todas as variantes de Português tinham de frequentar dois anos dessa língua. Com Bolonha, deixa de ser obrigatório o Latim também na “Clássica”. E toda a gente sabe o que a dificuldade desta língua arrasa sempre uma média... ou atrasa sempre a conclusão do curso.
Desta conjuntura resulta que mesmo das melhores universidades saiam pessoas formadas que escrevem “françês” (não é gralha...), ou mesmo com uma aversão muito vincada pelo mesmo Latim, língua essencial para o uso correcto das palavras portuguesas.
É com este cenário por trás que escrevi já dois textos (este e este) sobre a qualidade dos professores. Esses textos foram comentados e cabe-me rectificar o panorama geral.
Efectivamente, os melhores alunos continuam a sair das melhores universidades (e admito excepções em relação às ESE, mas não conheço nenhuma) com notas razoáveis e a ser ultrapassados, em concurso público, por outros “profissionais” que não sabem movimentar-se na biblioteca da sua faculdade porque “ao longo do curso raramente cá vinha”, ou que não sabem que o “chapeuzinho” (é possível que nem “chapeuzinho” saibam escrever) se chama acento circunflexo.
A solução? O tal certificado de qualidade de cursos e universidades (a que aludi aqui). Começar a pontuar cursos e universidades, e a pontuação geral, mais do que a média, que sabemos que é variável, passar a significar, para os licenciados, o acesso ao ensino (seja em que nível for).
Daqui resulta, naturalmente, que aqueles que foram maus alunos (admito que a culpa não é só deles), vão ser maus professores. Por não saberem escrever, por não perceberem o que estão a ensinar. A consequência é o apego extremo aos manuais, tantas vezes cheios de erros e textos para atrasados mentais, em vez de textos efectivamente literários. Sim, neste aspecto, estou inteiramente do lado de Vasco Graça Moura. O cânone não pode ser um artigo de um jornal, um texto publicitário ou banda desenhada (sim, ensina-se banda desenhada nas escolas portuguesas — sim, nas aulas de Português). Os alunos têm de ser sensibilizados para a escrita, para a leitura, elevando os padrões. E tenho a certeza de que isto só será possível com os bons professores. Eu sei que há alguns porque os tive.

* Até tenho medo de recordar o caso do Direito... Mas os advogados e juízes sabem muito bem de onde saem os melhores.


publicado por Ricardo Nobre às 10:30 | referência | comentar

2 comentários:
De S.V. a 5 de Setembro de 2006 às 12:59
Esta intervenção dispensa comentários. Eu não teria dito melhor.


De outros_sons a 6 de Setembro de 2006 às 01:25
Concordo plenamente com a maioria das afirmações contidas neste post. Ainda assim, pressenti uma certa ironia quando se refere às ESE - com efeito, determinados cursos ministrados nestas escolas não deixam de ser um amontoado de cadeiras que abordam as suas temáticas com pouca ou nenhuma profundidade (formando curiosos em várias àreas que são, no final de contas especialistas em coisa nenhuma).
Cabe-me, como aluno de uma ESE, salvaguardar que determinados cursos, em determinada ESE, têm ainda qualidade e exigência capazes de formar profissionais competentes.


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