Terça-feira, 24 de Abril de 2007
Estilística da Língua Portuguesa
M. Rodrigues Lapa (Lisboa, 1945)
Estrangeirismos

O motivo por que os filósofos, os gramáticos, os homens muito eruditos escrevem mal é geralmente êste: não teem presente e fresco o sentimento da língua de hoje. As palavras evocam-lhes representações passadas, conformes à sua etimologia. De modo que, quando escrevem, é um passeio constante pelos domínios da antiguidade. A sua maneira de escrever traz por isso mesmo um cheiro a bafio. É um estilo pretencioso [sic] e avelhentado, muito em voga nas academias.
(...)
Quando quisermos estudar o problema dos galicismos, assim se chamam os têrmos ou locuções afrancesadas, que abundam na nossa língua, devemos ter sempre presente o que acabámos de dizer: a verdade é que a nossa própria liberdade tem uma raiz francesa. Nada é pois de estranhar que, acompanhando nós através dos séculos, com maior ou menos intensidade, o prestígio da cultura francesa, tenhamos recebido na nossa a marca da sua língua.
O problema é sobretudo um problema de ordem moral, que deve ser pôsto desta maneira: A influência duma cultura como a francesa, onde predominam a razão e a claridade, só pode ser benéfica para nós, com uma condição: que, em vez de nos escravizar ao estilo francês, estimule e clarifique as energias do nosso portuguesismo.
(...)
Contudo, a nossa facilidade de imitação e aceitação de modas estrangeiras pode conduzir-nos a excessos. E, de-facto, sempre que surge uma vaga de francesismo, há um período de imitação desordenada, efervescente. Logo depois se estabelece o equilíbrio, e na língua só ficam, por via de regra, os vocábulos que oferecem maior novidade. É inútil e até grotesco berrar contra isso. A adopção dos estrangeirismos é uma lei humana e particularmente portuguesa: constitue como que uma fatalidade, devida aos intercâmbios das civilizações. A língua, especialmente o vocabulário, só tem a lucrar com isso. O ponto está em que essa imitação não exceda os limites do razoável e não afecte a própria essência do idioma nacional.
(...)
Há porém casos em que o estrangeirismo representa uma innovação escandalosa e indesejável, por absolutamente desnecessária. Repare-se que, mesmo aqui, os nossos maiores estilistas, que se nutrem principalmente de literatura e idéias francesas, estão cheios de pecados contra o purismo do vocabulário. O próprio Camilo Castelo Branco, que é um formidável vernaculista, e que tanto bramava contra o emprêgo dos estrangeirismos, abunda nêles.
(...)
Há portanto no estrangeirismo, e muito particularmente no galicismo, dois casos a considerar: a adopção de vocábulos, e o emprêgo de construções ou de grupos fraseológicos que contrariam a natureza da língua. Os primeiros são geralmente menos graves: porque, ou ficam no idioma, por representarem uma necessidade, e passam, nesse caso, a vestir à portuguesa: abandonar, atitude, sofá, boné, desporto, túnel, turismo, embaraçar, etc., ou são repudiados pela língua, como coisa que não serve e só teve moda passageira no falar corrente ou no livro de um ou de outro escritor (ex. gôche, tige).
Os segundos, que constituem pròpriamente um decalque da construção estrangeira, são mais perigosos, porque podem envolver uma desnaturação mais grave na forma de pensar à portuguesa. Pertencem a este grupo certas locuções como: fazer a honra, fazer o conhecimento com alguém, fazer um passeio, ter lugar (por «efectuar-se», «realizar-se»), de maneira a, emquanto que, o emprêgo abusivo da preposição em (vestido em sêda), o uso irregular do gerúndio, etc.
(...)
O estrangeirismo é um fenómeno natural, que revela a existência duma certa mentalidade comum europeia. Os povos que dependem económica e intelectualmente de outros, não podem deixar de adoptar, com os produtos e idéias vindas de fora, certas formas de linguagem que lhes não são próprias. O ponto está em não permitir abusos e limitar essa importação lingüística ao razoável e necessário. Contido nestes limites, o estrangeirismo tem vantagens: aumenta o poder expressivo das línguas, esbate a diferença entre os idiomas, tornando-os mais compreensivos, e facilita, por isso mesmo, a comunicação das idéias gerais.
Uma coisa é necessária, quando o estrangeirismo assentou já raízes na língua nacional: vesti-lo à portuguesa. Os estrangeirismos mais em voga (blusa, chalé, interesse, club, túnel, coquete, abandôno, lanche, etc.) estão já encorporados no idioma, havidos e sentidos como portugueses. Aquelas palavras são empregadas por nós como se fossem nossas. (...)
O estudioso terá talvez empenho em consultar algum reportório de estrangeirismos. Temo-los numerosos entre nós. (...) A consulta de tais livros pode ter seus perigos para o principiante. Feitos com a preocupação exagerada do purismo clássico, com duvidoso discernimento e acentuado mau gôsto, dão, para traduzir idéias modernas, têrmos antiquados, aproximações e perífrases, como se a preocupação de quem deseja escrever bem não fôsse a busca do têrmo justo, lapidar, único.



publicado por Ricardo Nobre às 13:45 | referência | comentar

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