Domingo, 21 de Junho de 2009

Por ocasião do quinto aniversário da morte de Sophia de Mello Breyner Andresen (que será dia 5 de Julho), Alexandra Lucas Coelho escreveu no P2, do Público, sobre o mundo da escritora. De lá, cito alguns excertos:

(…) Sentada em cima de um molho de cabos, Sophia de Mello Breyner Andresen escreve na primeira página de um caderno escolar: “11 de Setembro de 1963. Navegamos sem um balanço. Mar azul, céu azul, ilhas azuis enevoadas.” E então vê a ilha de Ulisses à sua frente: “Ítaca aparece, vai-se desenhando: verde, até ao mar, despovoada, quase sempre.”
É a sua primeira vez na Grécia.
“Piso às quatro e meia a terra grega. Entrada maravilhosa à saída de Patras. Vamos rente ao mar entre oliveiras e ciprestes e montanhas azuladas. Calor leve, ar perfumado. As montanhas ligam a terra ao Olimpo. Paramos e vou molhar os pés, as mãos, os braços e a cara no mar. A água é maravilhosa, transparente e fresca. Bebo-a. É muito salgada. É a paisagem mais maravilhosa que vi na minha vida.”
Sophia tem 43 anos. Já leu a Grécia em Homero, nas tragédias de Sófocles, Ésquilo e Eurípides, na História de Arte — mas agora está lá. Pode tocar-lhe, comê-la à beira da estrada com queijo de cabra, tomate, pepino e azeitonas. Bebê-la no vinho branco de resina. Entrar na pedra como no mar: “De manhã voltei à Acrópole sozinha. Escrevi Sophia, Setembro de 1963, numa parede do Parténon, na frontaria, à direita, numa reentrância. Coisa bárbara e selvagem mas que tive de fazer.” Este caderno pautado, comprado em Itália, é um diário de viagem, um dos muitos que Sophia escreveu, esquecendo uns, enchendo outros com poemas e anotações. Cinco anos depois da sua morte, o P2 folheia-os numa sala do Centro Nacional de Cultura (CNC), em Lisboa.
A casa da Travessa das Mónicas, à Graça, onde a poeta viveu com Francisco Sousa Tavares e os cinco filhos durante décadas, foi vendida em 2006. Cadernos, cartas e outros papéis ficaram à guarda da filha mais velha, Maria, também poeta e professora da Faculdade de Letras, até serem ordenados para doação à Biblioteca Nacional (BN).
É isso que agora está a ser feito no CNC. Em três visitas ao espólio, o P2 leu diários, cartas e poemas nunca mostrados. E a partir de alguns fragmentos ouviu histórias contadas por dois dos filhos, Maria, no CNC, e Miguel Sousa Tavares, fora do espólio. (…)
Na primeira viagem à Grécia, Agustina Bessa-Luís e o marido, Alberto Luís, são os companheiros de Sophia. Miguel Sousa Tavares lembra-se “de a ver partir da Granja no Volkswagen preto da Agustina”.
A par da correspondência com Jorge de Sena, já publicada, as cartas de Agustina são talvez o conjunto mais extenso no espólio de Sophia. “A minha mãe tinha uma grande admiração literária pela Agustina. Gostava do seu lado visionário.” Foram amigas quase contranatura, como espécies humanas distintas, e essa tensão atravessa o diário grego. Vinte dias juntas, de carro e de barco. Toda uma revelação do mundo por contraponto.
(…) “Ao fim da tarde fomos à Acrópole. Beleza inigualável, leve brisa, mar brilhando ao longe. Maravilhoso o enquadramento na paisagem. Mar de pedras à roda do Parténon. Tirei muitas fotografias. Mas tal como o Ulisses estou sempre a pensar na minha casa.” Sozinha no teatro de Epidauro, diz palavras gregas. E aí nasce um dos seus poemas breves mais fortes: “Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha.”
(…) De uma viagem ao Brasil, em 1966, trouxe a mais irrepetível das prendas, um caderno cheio de poemas para Maria. Abrimos e aparecem Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira já com a letra a tremer, Murillo Mendes, Vinicius de Moraes (“Difícil é escrever para você, Sophia / Porque você é menina / Porque você é poeta / Porque você vem de longe, de tão longe / Que a sua luz não pára nunca de chegar-nos”).
O do Vinicius foi escrito em Lisboa, explica Maria. “Ele foi uma noite lá a casa e eu convidei os meus amigos da faculdade, o Luís Miguel e o Diniz Cintra, o Nuno Júdice, o Jorge Silva Melo...”
E também há portugueses: Ruy Cinatti (“Sophia, maga florida”), Alexandre O'Neill , Lindley Cintra. Há Vieira da Silva numa aguarela verde. Cargaleiro a lápis de cera. Um desenho de José Escada. Uma pauta de Fernando Lopes Graça para um poema de Sophia. (…)
Além das de Sena e de Agustina, as cartas para Sophia enchem duas caixas de arquivo no espólio.
De Eugénio de Andrade há cartas, postais, poemas e textos, como aquele que diz: “De repente ouvia-se uma voz: Onde está a Sophia? Não havia Sophia, mas o ar era fresco como se atravessássemos uma alameda de tílias.”
Seguem-se, entre outros, John Banville, Mário Cláudio, Ruy Cinatti, Maria Velho da Costa, Ángel Crespo, Fernando Lopes Graça, Ernesto Melo e Castro. As muitas cartas de Alberto de Lacerda estão entre as favoritas de Maria.
Uma carta enviada de Santarém a 5 Junho de 1962 termina assim: “Nunca lhe contei? Uma tarde na ilha da Madeira, tinha eu a idade maravilhosa que já não sei, descobri numa livraria o seu Poesia. E foi um dos mais belos encontros da minha vida. Não há aqui literatura. Tudo isto é verdadeiro. Seu muito admirador. Herberto Helder.” (…)
Teixeira de Pascoaes, em 1944: “O seu livro deu-me um ‘frisson nouveau’. Esta frase é de Victor Hugo, ao acabar de ler As Flores do Mal, de Baudelaire. (…)”
José Régio, Júlio Resende, António Ramos Rosa, José Saramago, Agostinho da Silva.
Muitas cartas de Miguel Torga. Em 1957: “Não há dúvida que os deuses gostam de si, pelo menos tanto como os mortais.”
E muitas cartas de Vieira da Silva. Em 1968: “O seu artigo é exactamente o que eu quero ser e não sei se sou. Mas se a Sophia o diz deve ser verdade.”
Ao todo, são 70 caixas de arquivo, com poesia e prosa (éditos e inéditos), agendas, cadernos, correspondência, folhetos, livros com notas. (…)
A biblioteca de Sophia está na garagem do filho mais novo, Xavier, e vai ficar para o filho mais velho, Miguel. (…) Sophia, diz Maria, não tinha o culto da biblioteca. “Dava e desfazia-se de muitos livros, porque queria reduzi-los ao essencial.” Qual é então o essencial de Sophia? “Muita coisa sobre a Grécia. Várias traduções da Ilíada e da Odisseia em francês e português — e ela teria adorado as traduções de Frederico Lourenço. Muito teatro grego, Platão, muita história de Roma. Depois, romance russo, Tolstoi, Tchekhov, em francês. Shakespeare todo no original. Cesário. Fernando Pessoa foi uma época. Cecília Meireles. João Cabral, de quem ela gostava imenso, era o seu grande poeta. Depois, gostava muito de poesia espanhola, Lorca, Antonio Machado, Alberti. Poesia medieval francesa que deve ter lido muito nova. A lírica de Camões. Byron. Várias biografias. Hölderlin, nas traduções de Paulo Quintela e em francês. Os simbolistas franceses mas sobretudo o Rimbaud. Sabia de cor imensa coisa de São João da Cruz. Adorava Teixeira de Pascoaes. Jorge de Sena, tudo.”
O espólio será doado à BN até Abril de 2010, na sequência de conversas com o director, Jorge Couto, pensa Maria Sousa Tavares. “Por essa altura queria fazer um colóquio internacional.”
É Maria, como representante da família, quem dirige o projecto do espólio. Luísa Sarsfield Cabral colabora na classificação e Manuela Vasconcelos, que trabalhou 10 anos no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional, coordena o trabalho de inventariação: “Entre Setembro e Dezembro vou começar a descrever os materiais e a fazer um guia preliminar.” Além de ser um espólio literário, sublinha, é “rico para a história política, com circulares, folhetos, intervenções”. (…)
Os cinco anos sobre a sua morte cumprem-se dia 5 de Julho. Já no dia 2, numa iniciativa da Câmara de Lisboa organizada por Manuela Júdice, o Miradouro da Graça passará a chamar-se Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, com um arranjo de Gonçalo Ribeiro Telles.


publicado por Ricardo Nobre às 20:43 | referência | comentar

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