Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

Bom fim-de-semana.



publicado por Ricardo Nobre às 07:34 | referência | comentar | ler comentários (1)

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

É inaugurada dia 30 de Setembro a exposição Weltliteratur, sobre literatura portuguesa e outras formas de expressão artística como a fotografia e a pintura:

A Fundação Calouste Gulbenkian inaugura a 30 de Setembro uma exposição sobre literatura que mostra textos literários e documentos em conjunto com quadros, esculturas e fotografias, procurando estabelecer ligações entre uns e outros.

"Weltliteratur - Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!" é a designação dada a esta mostra, associando uma expressão de Goethe a um verso de Cesário Verde.

O professor universitário António M. Feijó é o comissário da mostra, que ficará durante três meses na galeria de exposições temporárias da Fundação Gulbenkian.

Ao longo de 11 salas concebidas pelos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus pretende-se mostrar a literatura portuguesa do Mundo e os autores da geração de Fernando Pessoa.

A exposição "é sobre Fernando Pessoa e alguns contemporâneos, alguns previsíveis, como é o caso de Mário de Sá-Carneiro, Almada, etc... mas outros que o não são", indicou António M. Feijó numa entrevista publicada na revista mensal da Gulbenkian.

"Um deles é Teixeira de Pascoaes", continuou, indicando ainda os nomes de Camilo Pessanha, "que é de uma geração anterior", e de Vitorino Nemésio, "que aparece como expoente de toda a grande poesia pós-Pessoa".

Segundo o comissário, a exposição "tem presentes as obras de que se fala nos textos - pintura, escultura, fotografia, mas também tem manuscritos, vídeos".

Sobre a convivência entre os vários objectos, Feijó apontou, por exemplo, um poema de Jorge de Sena que "descreve um quadro anónimo que está no Museu de Arte Antiga".

"Podemos trazer essa peça, e fizemo-lo, e pôr o poema em presença", explicou.

Para o arquitecto Manuel Aires Mateus, esta "é uma exposição sobre o prazer da literatura, a descoberta do prazer da cultura".

"É um convite à ideia de ler", reforçou.

Fonte: Lusa via Jornal de Notícias.

 



publicado por Ricardo Nobre às 07:00 | referência | comentar

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Ana Vitória, do Jornal de Notícias, escreve um interessante artigo sobre a história do Tribunal de Contas. Interessante também em termos linguísticos:

Expressões como "estamos quites" ou "ter em linha de conta" surgiram no âmbito de uma instituição que, embora tenha tido várias designações ao longo dos tempos, conta já com 600 anos: o Tribunal de Contas.
(...)
O actual Tribunal de Contas entronca numa longa sucessão de instituições a mais antigas das quais documentada no reinado de D. Dinis (sec. XIII). Começou por se chamar Casa dos Contos (sec XIV), passou a designar-se Contos do Reino e Casa (sec XVI), e Erário Régio, entre 1761-1832. A actual designação data de 1930.


publicado por Ricardo Nobre às 07:35 | referência | comentar

Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Há 20 anos, Portugal acordava com a notícia de um terrível incêndio em Lisboa. Em pleno Chiado, um enorme fogo destruía diversos prédios de lojas, escritórios, e habitações, perante a quase impossibilidade de actuação dos bombeiros (a Rua do Carmo, pedonal, tinha na altura uns canteiros de betão irremovíveis que impediam a passagem dos carros dos bombeiros). Tendo tido início na Rua do Carmo (provavelmente num curto-circuito), os materiais de construção dos edifícios antigos serviram de comburentes para que o fogo se alastrasse rapidamente pela Rua Garrett, Ivens, Nova do Almada. Muitos edifícios do século XVIII foram destruídos e Lisboa perdia de modo irremediável grande parte do seu património edificado, mas não só.
Um repórter de uma rádio então a emitir há seis meses disse em antena que Lisboa tinha assistido à morte do Chiado. Uma descrição da catástrofe pode ser lida neste livro. Alguns sons dessa cobertura e fotografias (do arquivo do Diário de Notícias) podem ser ouvidos e vistas aqui.

Desde sempre o Chiado me despertou interesse. Até ter vindo viver para Lisboa, apenas o conhecia da televisão e da literatura. Nos primeiros tempos da capital, percorria com provinciano deslumbramento toda a zona e sempre me pareceu um fantasma daquilo que foi ou que eu imaginava ter sido. Hoje, 20 anos depois, o Chiado já recuperou quase por completo do incêndio (saliente-se o trabalho do arquitecto Siza Vieira, cujo projecto preservou muitas das fachadas originais), mas continua a ser um fantasma. Desabitado, tal como toda a Baixa, muitos prédios reconstruídos estão vazios e entregues ao vandalismo. De vez em quando ouve-se falar num plano de requalificação adiado ou parado por falta de interesse ou de dinheiro. Em minha opinião, era preciso, entre outras coisas, habitar a zona e fazer o eléctrico circular na Rua Garrett, S. Pedro de Alcântara, Rato, Amoreiras. Dar vida cultural ao Chiado, que apenas pontualmente é escolhido para iniciativas sem continuidade e de interesse duvidoso, deveria ser um desígnio dos políticos. Essa vida cultural poderia perfeitamente aliar cinema ao teatro, em vez de se ficar por iniciativas de rua (espectáculos circenses, desfiles de moda, e feiras do livro pontuais). Por exemplo: há teatros desde a Avenida da Liberdade (Parque Mayer, Tivoli) ao Chiado (Trindade, S. Luiz, S. Carlos), passando pelo D. Maria II. Que mal haveria em devolver o Teatro da Trindade ao culto do Teatro, criando um programa cultural que envolva todos teatros da Baixa, com uma oferta variada e contínua? O mesmo se diga do cinema. Desde a Cinemateca ao Chiado Terrasse, passando pelo S. Jorge e pelo Animatógrafo do Rossio, deveria haver uma grande reprogramação e difusão do cinema comercial, sim, mas também todo o cinema de culto, o português, o europeu, etc.

Seria possível recuperar toda a vida cultural de Lisboa com especial concentração no local onde ela tem mais tradição: a Baixa e o Chiado. Coisas fechadas, abandonadas, vandalizadas, a emitir filmes pornográficos e com pip shows: é assim que Lisboa (e Portugal) trata do seu património cultural e edificado.

Sim, eu sei. Não havendo lá habitantes também não há eleitores.

O Chiado agonia, mas resiste à mediocridade política.

Nas fotos, a Rua do Carmo actualmente (lado norte e sul), vista do cimo do Elevador de Santa Justa.

Ver também este texto que publiquei em Agosto de 2006; ler este especial (com este texto) e este  sobre a reconstrução do Chiado, publicados pelo Jornal de Notícias para evocar a efeméride.



publicado por Ricardo Nobre às 07:00 | referência | comentar | ler comentários (1)

Domingo, 24 de Agosto de 2008

A utilização das vírgulas nas orações concessivas

As orações concessivas exprimem oposição, contraste; são introduzidas por conjunções e locuções conjuncionais: embora, conquanto, malgrado, que, ainda quando, ainda que, apesar de (que), mesmo que, não obstante, nem que, por mais/menos que, posto que, (se) bem que…
Tal como as orações subordinadas puras, as orações concessivas têm grande mobilidade na frase, podendo aparecer em posição inicial [1], medial, ou final [3]. Seja qual for a sua posição, são sempre isoladas por vírgulas:

[1] Apesar de nervosa, a Maria concluiu o exame com sucesso.

[2] A Maria, ainda que estivesse nervosa, concluiu o exame com sucesso.

[3] “João Pacheco era benquisto, honestíssimo, respeitador da honra das famílias, não obstante haver sido criado e educado em Lisboa.” Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho.



publicado por Ricardo Nobre às 10:40 | referência | comentar | ler comentários (2)

Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

Nas gramáticas e nos dicionários de português, encontramos a seguinte classificação para “porque” enquanto conjunção:

Dicionário da Língua Portuguesa (Verbo), supostamente de acordo com a TLEBS:

conj[unção] 1. Exprime causa, razão, POIS. Caí ~ tropecei numa pedra. Cheguei atrasado ~ adormeci. 2. Introduz justificação de frase anterior, JÁ QUE, POIS QUE, UMA VEZ QUE. Ele está cá, ~ ainda há pouco o vi!

Grande Dicionário da Língua Portuguesa e Dicionário da Língua Portuguesa 2009 — Acordo Ortográfico (Porto Editora):

conj[unção] uma vez que; já que; como; por causa de

Priberam:

conj[unção] introduz uma oração causal: Ele ganhou as eleições porque fez uma boa campanha.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores/Temas e Debates/Objetiva):

conj[unção] coord[coordenativa] (…) 1 conj[unção] expl[i]c[ativa] liga duas orações coordenadas, numa das quais se explica ou se justifica a asserção contida na outra; pois, porquanto, que

Na observação do fim da entrada: “não há diferença muito sensível semanticamente entre a explicativa e a causal; segundo os gramáticos, a oração coordenada explicativa ger[almente] é separada da oração anterior por uma pausa, que pode ser expressa na escrita por vírgula, ponto-e-vírgula [sic] ou mesmo ponto final”.

A polémica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), na sua primeira versão, problematizou a classificação das conjunções coordenadas explicativas e conclusivas, apresentando em alternativa uma classificação única de conclusivas (ou seja, são conclusivas as conclusivas e as explicativas tradicionais). Como é evidente, esta unificação trazia problemas, porque uma explicação não é uma conclusão, e a revisão da TLEBS restaura a classificação tradicional. Mantém-se, no entanto, a dificuldade de interpretação não só entre coordenadas explicativas e subordinadas causais, como entre as explicativas e as conclusivas.
Esquecendo a resposta do Ciberdúvidas, convém reportar ainda que nem todas as gramáticas indicam “porque” como conjunção coordenada explicativa, e as que o fazem não costumam distinguir este uso daquele que mais comummente encontramos, que é o de conjunção subordinada causal. Quanto aos casos em que “porque” não figura nas conjunções explicativas, tomemos por exemplo uma gramática de uso escolar como a Gramática Universal da Língua Portuguesa, de António Afonso Borregana (Lisboa: Texto Editora, a minha é a primeira edição, de 1996), lemos que as explicativas “[l]igam duas orações, a segunda das quais justifica o conteúdo da primeira” (pág. 216). Mais à frente deparamos com estas duas observações: “As orações explicativas despertam muitas dúvidas a professores e alunos. Com efeito, se substituirmos o pois e o porquanto (…) por porque, as duas orações introduzidas por esta conjunção [anteriormente citadas] conservariam sensivelmente o mesmo sentido mas seriam subordinadas causais.”
“Atendendo ao significado da palavra coordenadas (ordenadas entre si) seria lícito concluir que tão coordenadas são (num período) a primeira como a(as) que se lhe segue (seguem). Por outro lado, atendendo a que há a tendência de procurar sempre uma oração principal num período, não nos parece errado chamar à primeira das orações coordena principal, pela razão de que é ela que inicia o processo de coordenação. Além disso, nas orações conclusivas e explicativas, é nela que se baseia a conclusão, ou explicação, dada na seguinte, ou seguintes.” (pág. 242)
Tal como esta gramática, também a Gramática do Português Moderno1 (que considero uma das melhores) não indica “porque” na lista de conjunções explicativas (apenas enuncia “pois”, “porquanto”, e “que”).
Por seu lado, a Gramática do Português Actual, de José de Almeida Moura (Lisboa: Lisboa Editora, 2003), 238, tenta explicar as diferenças entre coordenadas explicativas e subordinadas causais2:

As orações explicativas apresentam uma justificação, não a causa real, para a asserção contida na oração coordenada sua antecedente:
Faltou às aulas, que eu bem sei.
Faltaste à escola, malandro, porque a estas horas devias estar lá.
Anda triste, pois/que os olhos o indicam.
De facto, não se estabelece uma relação de causa-efeito nas asserções exemplificadas: o facto de se saber da falta não implica que alguém tenha faltado às aulas, nem o facto de os olhos indicarem tristeza a provoca.
Diferente situação é a das frases com subordinada causal, associada sem vírgula para se marcar a relação causa-efeito:
Faltou às aulas porque/visto que está com 40 de febre.
Anda triste porque/visto que rompeu o namoro.
Uma oração explicativa pode tornar-se casual, desde a se subordine a frase a uma oração cujo sentido a consinta:

O espaço é infinito, porque mo disseram. [coord.da explicativa]
Só acho que o espaço é infinito porque mo disseram. [sub.da causal]

Com efeito, a distinção semântica é esta. Falta realçar que em termos sintácticos existe uma grande diferença entre subordinação e coordenação, nomeadamente:
- no que concerne ao movimento dos membros da frase: os membros coordenados [1] não têm a mobilidade dos subordinados [2]:

 

[1a] Foi um passeio cansativo, mas diverti-me.
[1b] *Mas diverti-me, foi um passeio cansativo.
[2a] Adorei o jantar porque a comida estava óptima.
[2b] Porque a comida estava óptima, adorei o jantar.

 

- no que concerne ao tipo de ligação que a conjunção proporciona: os membros coordenados também ligam palavras simples [3], algo que os subordinados não fazem [4]:

 

[3] O bolo tem nozes e canela.
[4] *O bolo tem nozes porque canela.

 

Existem algumas restrições quanto a estas tendências sintácticas das conjunções coordenadas. De facto, nem todas as conjunções coordenadas ligam palavras [5]:

 

[5] *O bolo tem nozes, pois canela.

 

Este comportamento e outras distinções sintácticas fizeram com que a gramática moderna tivesse adoptado duas designações para aquilo que a gramática tradicional nomeava conjunções coordenadas:
- as conjunções propriamente ditas (excluem-se as subordinadas que passam a designar-se complementadores) são copulativas (e), disjuntivas (ou), e adversativas (mas).
- são conectores as “conjunções coordenadas” que designam contraste (porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto), explicação (pois, que, porque, porquanto), e conclusão (logo, pois, assim, portanto, por isso, por conseguinte, por consequência). Para desenvolvimento deste assunto, v. Mateus, M. H. M. et aliae, Gramática da Língua Portuguesa (5.ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003), 551–574.
Em termos ortográficos, retenhamos a observação quanto à colocação da vírgula antes de “porque” explicativo, mas não entre “porque” causal. Com efeito, é comum a utilização de vírgula com algumas conjunções coordenadas [6], mas não com todas [7]:

 

[6] O céu está nublado, mas a temperatura é agradável.
[7] O céu está nublado e a temperatura é agradável.

 

Observe-se finalmente que estamos a falar de subordinadas à direita da subordinantes, uma posição “menos marcada” dos elementos oracionais nas frases complexas do português. Em breve serão publicados textos sobre a pontuação nestas estruturas coordenadas e subordinadas.

 


1 Pinto, J. M. de C., M. C. V. Lopes, e M. Neves, Gramática do Português Moderno (5.ª ed., Lisboa: Plátano Editora, 1999).
2 Onde o autor tem realces de outra cor (laranja), eu escrevo em negrito. Os itálicos são os originais.



publicado por Ricardo Nobre às 09:00 | referência | comentar | ler comentários (1)

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

E se em vez de deitarmos para o lixo todos os dicionários caríssimos que temos em casa lhes acrescentássemos uma espécie de suplemento com as palavras cuja grafia é alterada com o Acordo Ortográfico? A Editorial Caminho parece que seguiu a ideia do Helder Guégués e apresenta agora o Vocabulário das Palavras que mudam com o Acordo Ortográfico. Positivamente melhor do que aqueles caderninhos que copiam (por vezes mal) o documento do acordo que algumas editoras se apressaram a publicar, e infinitamente melhor do que gastar rios de dinheiro com dicionários novos só para nos mantermos actualizados.



publicado por Ricardo Nobre às 16:01 | referência | comentar | ler comentários (1)

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

O uso da vírgula com o vocativo

O vocativo é um constituinte sintáctico que não controla a concordância verbal e que ocupa uma posição não argumental na frase, motivo por que as fronteiras esquerda e direita do constituinte devem ser sempre marcadas por meio de vírgulas. Uma dessas vírgulas não é necessária quando a fronteira esquerda do vocativo coincide com a fronteira esquerda de frase (marcada pela inicial maiúscula) [1] ou quando a fronteira direita coincide com um sinal de pontuação mais forte (por exemplo, o ponto final na fronteira direita da frase) [2].

 

[1] João, vem lanchar!

[2] Vem lanchar, João!

 

O vocativo aparenta ser uma das funções sintácticas com mais mobilidade na frase, sendo a sua posição no início ou no fim da frase a mais comum, ainda que também possa surgir no interior da mesma, como em [3] (esta posição tem um registo mais poético). Ocorre em contextos de invocação, chamamento, ou interpelação do interlocutor (sendo por isso mais frequente em frases imperativas [1–3], exclamativas [4], e interrogativas [5], próprias do discurso directo ou indirecto livre):

 

[3] Ouve, João, o que quero que faças.

[4] Obrigado, João!

[5] Como estás, João?

 

OBS1: O vocativo distingue-se do sujeito por poder co-ocorrer com esta função sintáctica e por, ao contrário do sujeito, não desencadear processos de concordância verbal.

OBS2: A função de vocativo é frequentemente reforçada por meio de interjeições, como em [6].

[6] Ó João, vem lanchar!



publicado por Ricardo Nobre às 10:00 | referência | comentar

Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

A vírgula hierarquiza os constituintes sintácticos da frase

Comecemos por recordar que “as frases não são sequências lineares de palavras mas obedecem a uma estrutura hierárquica em que há constituintes que por sua vez se formam de outros constituintes até se chegar ao nível da palavra.”1 Nas frases do português, a ordem simples das palavras (seguindo uma sequência Sujeito–Verbo–Objectos) configura as relações gramaticais (ou funções sintácticas) que os constituintes desempenham no enunciado. Assim, pela posição de tópico (a primeira da sequência) sabemos que “O João” é o sujeito da frase [1]:

 

[1] O João comeu o bolo.

 

Do mesmo modo, pela posição pós-verbal, sabemos que “o bolo” é o objecto directo (na gramática tradicional denominado “complemento directo”) do verbo “comeu”. A alteração da ordem das palavras na frase [1] torna-a agramatical, como prova a sua reescrita em [2]:

 

[2] *O bolo comeu o João.

 

No entanto, no português existe a possibilidade sintáctica da topicalização do objecto directo, sem que isso implique a alteração das relações gramaticais que os constituintes desempenham. As restrições de movimento dos constituintes são atenuadas na ortografia pela pontuação, sendo por isso aceitáveis as frases [3]:

 

[3a] O bolo, o João comeu.
[3b] O bolo, o João comeu-o.
[3c] O bolo, comeu-o o João.

 

Daqui se depreende que a vírgula tem como função a hierarquização dos constituintes sintácticos, nomeadamente quando estes não seguem a ordem regular SVO.

Note-se que a função de sujeito é normalmente desempenhada por um sintagma nominal e a função de predicado é desempenhada por um sintagma verbal, que por sua vez pode conter sintagmas nominais (SN) que saturam (ou seja, ocupam) a posição de argumento interno (ou seja, de complementos) do verbo. A complexificação dos SNs, a alteração da posição das palavras na frase (e a consequente alteração da ordem SVO para outra "mais marcada"), e algumas relações gramaticais periféricas não argumentais, como o vocativo, são os principais desencadeadores da utilização dos sinais de pontuação, da vírgula em particular, dentro de uma oração. Sobre todos estes casos serão os próximos textos dedicados à pontuação.

1 Mateus, M. H. M. et aliae, Gramática da Língua Portuguesa (5.ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003), 436.



publicado por Ricardo Nobre às 08:39 | referência | comentar

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

O sítio da SIC continua a mostrar que quem escreve para um público alargado não tem de ter o mínimo de preparação. Mostro o anúncio que dá conta do regresso da Roda da Sorte e que pede para que nos inscrevamos jà. Agora podem identificar o sujeito que escreveu aquele acento grave e expô-lo em todos os canais da SIC a dizer “eu não sei mais do que um miúdo de 6 anos”. Já agora, recorde-se que o emprego do acento grave em português está confinado, desde 1973, a marcar as contracções: à(s) (preposição com artigo), àquele(s), àquela(s) (preposição com determinante), etc.



publicado por Ricardo Nobre às 08:19 | referência | comentar | ler comentários (1)

Domingo, 17 de Agosto de 2008

O Presidente dos Estados Unidos da América disse, a propósito do conflito na Geórgia: "the President [Saakashvili] signed the six-point peace plan negotiated by President Sarkozy on behalf of the European Union." O discurso está aqui. Na SIC Notícias, a legenda diz claramente "Sarkozy e metade da União Europeia" (ou seja, "Sarkozy and half of the European Union").



publicado por Ricardo Nobre às 12:41 | referência | comentar

O atleta com vais visibilidade nestes Jogos Olímpicos é americano e chama-se Michael Phelps.

O meu afastamento dos meios de comunicação social portuguesa fez com que não visse o Telejornal de ontem, mas JCS comenta no Lóbi:

Interessava talvez saber quando começou a nadar, como treina ou como se prepara, lá na Aldeia Olímpica, para as provas. Até interessava saber o que come. Ou se dorme de barriga para cima…
No entanto, a RTP decidiu fazer uma extensa reportagem sobre quanto ganha Michael Phelps e quanto pode vir a ganhar. Comparou-o exaustivamente a outros milionários do desporto, cuja fortuna o mundo jamais respeitará.

É significativo comparar o interesse que se está a dar a este "fenómeno anfíbio" na RTP e aquilo que se vê e lê lá fora: o que ouve antes de entrar na piscina ou o que come (relevante principalmente porque não é uma dieta comum). A construção da imagem de um atleta faz-se percebendo como ele se treina (para servir de modelo a todos os que estejam interessados), e não o que ganha (assuntos periféricos que são comuns quando ligados ao futebol por motivos de saturação informativa).
O texto do Lóbi apenas me deixa cada vez mais na certeza de que, quando quiser saber alguma coisa, não é à RTP que devo recorrer.



publicado por Ricardo Nobre às 12:26 | referência | comentar

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