Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
No dia do lançamento do novo Dicionário da Língua Portuguesa 2009 (redigido de harmonia com as normas estabelecidas pelo Acordo Ortográfico de 1990), a Porto Editora disponibiliza também um Guia Prático do Acordo Ortográfico, “uma obra extremamente objectiva e de fácil utilização que permite perceber as alterações que irão ser introduzidas na grafia portuguesa pelo Acordo Ortográfico.” O livrinho (tem 32 páginas) divide-se em cinco áreas temáticas, ou seja, trata as principais alterações que a Ortografia Portuguesa irá conhecer com a entrada em vigor, por força da lei, do documento: Alfabeto, Consoantes mudas, Acentuação gráfica, Hifenização, e Maiúsculas e minúsculas.
É impossível não fazer comparações com o guia da Texto Editores com o mesmo propósito, o denominado Atual, que saiu em Março juntamente com os dicionários ‘conforme Acordo Ortográfico’. No entanto, há que recordar que esse guia da Texto Editores não interpreta correctamente algumas convenções do acordo (como o uso de maiúscula de Liberdade em expressões como Avenida ou avenida da Liberdade).
Entretanto, recordo que este blogue, ainda que contra as alterações, tem-se dedicado também a esclarecer algumas questões relacionadas com o Acordo Ortográfico (e vai continuar a fazê-lo).


publicado por Ricardo Nobre às 09:32 | referência | comentar

Terça-feira, 29 de Abril de 2008
As Bases VII, IX, e XIII do Acordo Ortográfico de 1990 consignam algumas mudanças nas normas de acentuação. O que muda efectivamente no português europeu pode ser assim sumariado:
1. Suprimem-se acentos que serviam para desfazer a homografia: para passa a designar a forma do verbo parar e a preposição, enquanto que vai escrever-se pelo para referir o fio capilar, a preposição (contraída com artigo, “caminham pelo bosque”), e a forma do verbo pelar. É de notar que se mantém a saudável distinção entre por e pôr.
2. Torna-se facultativo o uso do acento na flexão do pretérito perfeito do indicativo activo: falámos (cf. falamos, no presente do indicativo activo).


publicado por Ricardo Nobre às 21:42 | referência | comentar

Segunda-feira, 28 de Abril de 2008
Em recente debate sobre o Acordo Ortográfico com o autor do blogue Espectativas, surgiu a questão da aceitação e correcção gramatical de uma construção do tipo “o facto da acção do filme se basear...”. É um dos casos em que não é preciso fazer uma pesquisa exaustiva sobre o assunto, pois a boa bibliografia abunda. Cita-se, por isso, um excerto da obra Áreas Críticas da Língua Portuguesa, da autoria dos Professores João Andrade Peres e Telmo Móia (2.ª ed., Lisboa: Caminho, 2003, 222): “há razões estruturais que aconselhariam a não contrair preposições e artigos (ou pronomes) quando estes últimos aparecem à cabeça de uma oração dependente dessa preposição.” Depois de exemplos como “Surpreendeu-me o facto de o Paulo ter vindo visitar-me.” e “Isto depende de ele querer ou não.”, dizem os autores que no primeiro caso “a preposição de precede uma oração complemento (...) e o artigo ou pronome em causa (...) faz parte de um sintagma nominal integrado nessa frase (...). A este tipo de contextos opõem-se aqueles em que o artigo (ou pronome) faz parte de um sintagma nominal que não pertence a uma oração complemento, mas antes depende directamente da preposição, formando com ela um argumento ou um modificador, casos em que normalmente se faz a contracção”, como na interpretação que dei no meu comentário ao referido texto “o facto da acção significa que a acção tem um facto”.


publicado por Ricardo Nobre às 08:45 | referência | comentar

Domingo, 27 de Abril de 2008
Dicionário da Língua Portuguesa 2009
Os dicionários da Texto Editores lançados em Março foram publicados em Novembro de 2007. Por isso, saíram virtualmente desactualizados (por exemplo, não incluem Malta e Chipre como países cuja moeda é o Euro). Muitos outros problemas podem ser apontados a esses dicionários — nomeadamente por, à luz da norma efectivamente em vigor, conterem erros ortográficos (o Acordo Ortográfico continua por ratificar). Além disso, a ânsia de novidade é tal que esquece o período de seis anos para uma transição. E a transição saudável não se faz com ruptura.
Para evitar ruptura e para facilitar a transição, a Porto Editora, a grande especialista em dicionários, lança agora o Dicionário da Língua Portuguesa 2009, de harmonia com o Acordo Ortográfico de 1990, mas com a grafia anterior a essas regras, ou seja, a forma antiga remete para a forma actual, permitindo um diálogo entre o que se escreve actualmente e o que vai passar a escrever-se (por exemplo, “acção” remete para “ação”, onde se desenvolve a entrada). Quando o acordo entrar em vigor temos seis anos para reagir a ele; e um dicionário com estas características é a melhor forma de o fazer. Se eu não souber que a forma “ortopnóico” vai passar a grafar-se “ortopnoico”, a remissão está lá, com um expoente sinalizador da mudança da grafia. As grafias duplas estão também devidamente assinaladas.
Sai no dia 5 de Maio.


publicado por Ricardo Nobre às 18:19 | referência | comentar

Num momento de reflexão sobre a posição a tomar em face do Acordo Ortográfico de 1990, continuo a ler e a dar a ler opiniões (a favor e contra) sobre o documento que vai alterar a forma como escrevemos português. Um dos argumentos mais utilizados pelas duas polaridades é o recurso ao exemplo externo. Se não se pode comparar a realidade da língua inglesa (nas variantes britânica e americana, mas também australiana, sul-africana, entre diversas outras) com a da língua portuguesa (nomeadamente nas variantes europeia e sul-americana), também é verdade que se exigiria uma reflexão a partir desse exemplo, que remeto para outra oportunidade.
Gostaria de me centrar agora no caso francês.
O francês é a língua oficial (ou uma das língua oficiais) de França, Suíça, Bélgica, Canadá (Quebec), Luxemburgo, e do Haiti. É falada na ilha Maurícia, numa parte da Luisiana, e no Vanatu. É a língua de cultura comum em diversos estados africanos. Quer isto dizer que 120 milhões de pessoas falam francês.
A diversidade geográfica e cultural que se serve do francês obrigou à criação de meios académicos e científicos próprios (a famosa Academia Francesa) e de mecanismos políticos (um ministério da francofonia) com o objectivo de criar uma política de língua consistente, numa época em que o inglês remete esta importante língua de cultura para segundo plano (com tendência cada vez mais secundária), ainda que aufira de um estatuto (num âmbito mais teórico que prático) igual ao do inglês nas instituições internacionais.
É a Academia Francesa (criada em 1634 pelo cardeal Richelieu, como todos sabem) que tem como função conservar e aperfeiçoar o francês mediante a criação de um dicionário que regista, estuda, e ensina a língua. Também da responsabilidade da Academia é a correcção da grafia, o que aconteceu em meia dúzia de vezes ao longo da sua história — em 1694 (1.ª ed. do dicionário), 1718, 1740, 1762, 1798, 1835, 1878, e 1932–1935. As rectificações ortográficas propostas em 1975 não tiveram acolhimento, mas em 1989 o primeiro-ministro propôs um “melhoramento” da grafia (actualmente em vigor e que fez com que cent trois passasse a grafar-se cent-trois, por analogia com vingt-trois, que je céderai passasse a escrever-se je cèderai, ou que se retirasse o acento circunflexo de il plaît, entre outras alterações). Pretendeu-se atribuir à ortografia um carácter mais lógico e consistente, eliminando-se algumas excepções, tendo em vista facilitar a aprendizagem da língua, sem ferir a tradição ortográfica. Aliás, diz o Dictionnaire Hachette (ed. 2003), 1759, “No momento em que o estudo do latim e do grego não abarca mais do que uma minoria de alunos, parece necessário recordar o papel destas línguas para um conhecimento aprofundado da língua francesa, da sua história e da sua ortografia (...). De facto, o sistema gráfico do francês é essencialmente baseado na história da língua”. As modificações agora em vigor toleram integralmente a grafia anterior, uma vez que se reconhece o valor afectivo da grafia e o direito de produção poética e literária (não se prevê, pois, alterar as edições dos autores que escreveram inseridos noutro sistema ortográfico).
Refira-se ainda que “[t]oda a reforma do sistema da ortografia está excluída: ninguém poderá afirmar sem ingenuidade que se possa tornar «simples» a grafia da nossa língua (...).” Admite-se, pelo contrário que as “muitas irregularidades que são a marca da história não podem ser suprimidas sem mutilar a nossa produção escrita.”
Finalmente, sublinho que nenhuma das alterações realizadas ou propostas pretendia a conciliação das variantes da língua, que parecem seguir a da Academia.

NB: As traduções do dicionário são de minha autoria.


publicado por Ricardo Nobre às 10:55 | referência | comentar

Sábado, 26 de Abril de 2008
deus é um astronauta (“toda a gente sabe isso”) é um blogue fabuloso. No sentido etimológico do termo: cheio de fábula. Tem dois autores, um melhor do que outro (basta ter atenção aos pormenores), que garantem que “existe uma hipótese remota de este blogue ser interessante. mas é mesmo muito remota. isto serve para dizermos o que nos vem à cabeça: sejam parvoíces puras (o mais provável), desabafos razoavelmente sérios ou outra coisa qualquer. este blogue não é a melhor forma de nos conhecerem.”
Excerto:

prémio nobel
será este ano que eles vão laurear a pevide?



publicado por Ricardo Nobre às 10:05 | referência | comentar

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus”.


publicado por Ricardo Nobre às 06:50 | referência | comentar

Quinta-feira, 24 de Abril de 2008
As Edições Caixotim são a primeira editora portuguesa a declarar a sua posição contra o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. A editora não vai cumprir o novo código de redacção, caso entre em vigor. Convido-vos a ler o texto do Editor, Paulo Samuel.

Para os que conhecem a actividade editorial de «Edições Caixotim» não terá sido motivo de estranheza a posição assumida recentemente pela Editora e tornada pública através de um cartaz colocado na montra da Livraria Caixotim (Rua dos Clérigos, 23 – Porto). Esta atitude, que precedeu em data quer os diversos artigos de opinião divulgados pela imprensa escrita, quer o debate (?) na Assembleia da República quer, mais próximo em data, o programa “Prós e Contras” da RTP1, decorre quase numa sequência natural de quem tem prestado à escrita e à língua portuguesa uma particular atenção, visível quer nas opções editoriais, tomadas ao longo de sete anos de existência, quer nos cuidados postos a nível da revisão e fixação de textos de autores clássicos, uma das vertentes que, aliás, distingue esta Editora no universo do livro português.
Daí que será decerto redundante explanar as razões que assistem a essa posição, basicamente centrada no pressuposto de que é fundamental defender a língua portuguesa, quando as razões pelas quais se procura a sua modificação (ou “adaptação”, “aproximação”, a outros códigos da expressão escrita) se alicerçam no plano economicista e de globalização consumista, no limite argumentativo visando uma ambiciosa política de expansão da língua portuguesa. Na verdade, nem sequer se percebe como é possível haver defensores do denominado “acordo” ortográfico que, na sua vida profissional de académicos e investigadores, procuram com denodo fundamentar teses de genética textual, estabelecendo regras comparativas entre matrizes textuais e subsequentes textos impressos, inferindo dos conceitos ou formação linguística, escolar e sócio-cultural em que radicou o húmus que fez este ou aquele autor seguir determinada construção verbal, usar um léxico de rigor formal ou de acentuado pendor popular, pedir de empréstimo uma expressão coloquial. Com a desejada uniformização, as diferenças serão necessariamente esbatidas, ou antes, eliminadas.
Para quem se tem esforçado por apresentar aos leitores de hoje e do futuro uma obra tão depurada quanto o exige a reedição das obras de autores clássicos como Camilo Castelo Branco (Camões, Garrett, António Feijó, Trindade Coelho, etc.), confirmando vocábulos, idiolectos, semânticas, em dicionários de referência (em particular, o de Rebelo Gonçalves), corrigindo lapsos e gralhas, confrontando linha a linha primeiras edições (ou outras que sofreram modificações ou correcções por parte dos autores), a possibilidade de todo este esforço ser menosprezado por uma edição banal e descuidada, sem exigências a nível de uma matriz fidedigna (os casos abundam), certamente conseguida por um qualquer processo de digitalização ou leitura OCR, que só procura alcançar o êxito fácil e de preferência amplo, em redes distributivas e de grande superfície, só pode encarar-se como um golpe vil e irresponsável no corpo da língua portuguesa. O mesmo que dizer na identidade que confere a um povo e à sua cultura o modo particular de se afirmar no tempo e no mundo.
É certo que todos ignoram hoje (ou preferem omitir aqueles que o sabem) a importância que a língua tem para a criação literária, em particular a expressão poética. Pascoaes defendeu uma fisionomia das palavras, porque sabia que estas têm uma vida própria, resultante do seu uso secular e da sua relação com a vida humana e a evolução do espírito criador. A escrita sónica, tentada no início do século XX, revelou-se inconsequente e os linguistas, por outro lado, mostram em estudos actuais a prevalência da escrita sobre a fonética na aferição da língua. Por outro lado, a legitimidade dos falantes da mesma língua não confere a estes (porque fora da falácia do enunciado democratista) o direito de alteração ou supressão de um código linguístico que se foi formando de par e passo com a realidade de um povo, numa dada circunstância.
Como escreveu em data recente Fernando Venâncio — “…a eliminação das consoantes mudas é de duvidoso ganho e de muita provável perda. Ninguém, até hoje, fez as exactas contas. Mas é de crer que este Acordo saia caro ao português como o falamos”.
Embora a perspectiva dos custos e impacto financeiro — que tal “acordo” vai implicar junto das Editoras — constitua cerne do documento e exposição recentemente apresentado pela APEL no quadro da Conferência Internacional/Audição Parlamentar, realizada na Assembleia da República, o que move «Edições Caixotim» a esta atitude é outra vertente, enraizada nos valores estilísticos e no património imaterial da língua, domínio com certeza mais coerente e válido do que as análises económicas. E não temos receio dos epítetos com que alguns pretendem amedrontar quem defende esta ordem de valores, cuidando que as actuais vagas de nacionalismo que percorrem a Europa servem a identificar quem assume um pensamento e afirmação cultural pátria (no sentido pessoano).
Finalmente, em todo este processo, como entender a falta de uma discussão alargada com a Universidade (não bastará, por certo, colher a estrita opinião de académicos ligados à área técnica), as associações dos editores e representantes daqueles que cultivam a língua, tal é o caso da APE? Não é apenas a constitucionalidade e formal ratificação do “acordo” que está em causa. Para a memória do passado e o desejo de um futuro no sentido da armilar esfera de portugalidade cumpre a cada um saber o que é essencial – e defendê-lo.

O Editor
Paulo Samuel



publicado por Ricardo Nobre às 20:38 | referência | comentar

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008
O André publicou um excerto da entrevista de António Lobo Antunes, que reinaugura a revista Ler. Parece-me fundamental lembrar esse passo, onde o escritor prevê que há-de ser avaliado pelo melhor que fez, concluindo com o exemplo de Ovídio, que “dizia que a obra dele ia vencer o tempo, o fogo e o ferro. E venceu. Ele só fez coisas extraordinárias. Eu tento traduzir os poetas latinos. O meu latim é mau mas lá ponho o indicador no substantivo, o mindinho no verbo e tal.” À pergunta “Ainda continua a fazer esse exercício, hoje?” Lobo Antunes confessa que sim. “Para aprender a escrever.”

Tópicos:

publicado por Ricardo Nobre às 23:15 | referência | comentar

Como exercício prático, passei o seguinte trecho de Os Maias de Eça de Queirós (no capítulo VIII) para a norma que irá vigorar em Portugal depois da ratificação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. As diferenças não são muitas (isso já se sabe), mas há algumas. Em seguida, cita-se exactamente o mesmo passo com a ortografia original. Vejamos:

A aparição do bacalhau foi um triunfo: — e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
— Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens; e a Raquel, coitadinha, veio para mim e abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas... Dirão vocês que o pai Dumas não é um poeta... E então D’Artagnan? D’Artagnan é um poema... é a faísca, é a fantasia, é a inspiração, é o sonho, é o arrobo! Então, poço, já veem vocês, e é poeta!... Pois vocês hão de vir um dia destes jantar comigo, e há de vir o Ega, hei de vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão de nascer castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas coisas de realismo e romantismo, histórias... Um lírio é tão natural como um percevejo... Uns preferem fedor de sarjeta; perfeitamente, destape-se o cano público... Eu prefiro pós de marechala num seio branco; a mim o seio, e, lá vai à vossa. O que se quer é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e, lá vai à saúde do Ega!
Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
— E, se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...
Mas não houve vendaval, a Grã-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo. Eram nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
Alencar, embuçado num capote, um verdadeiro capote de padre de aldeia, levava na mão um ramo de rosas: e agora guardara o seu panamá na maleta, trazia um boné de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um começo de spleen, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na gola do paletó, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Sintra ficava dormindo ao luar.
Algum tempo o break rodou em silêncio, na beleza da noite. A espaços, a estrada aparecia banhada de uma claridade quente que faiscava. Fachadas de casas, caladas e pálidas, surgiam, de entre as árvores, com um ar de melancolia romântica. Murmúrios de águas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados, o ar estava cheio de aroma. Alencar acendera o cachimbo, e olhava a Lua.
Mas, quando passaram as casas de São Pedro, e entraram na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou também para a Lua, e murmurou de entre os seus agasalhos:
— Ó Alencar, recita para aí alguma coisa...
O poeta condescendeu logo — apesar de um dos criados ir ali ao lado deles, dentro do break. Mas, que havia ele de recitar, sob o encanto da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da Lua! Enfim, ia dizer-lhe uma história bem verdadeira e bem triste... Veio sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, começou, num tom familiar e simples:
Era o jardim de uma vivenda antiga
Sem arrebiques d’arte ou flores de luxo;
Ruas singelas d’alfazema e buxo,
Cravos, roseiras..
.
— Com mil raios! — exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário.
O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
— Esqueceram-me as queijadas!



Convém agora comparar com a ortografia original da obra, da primeira edição, de 1888:

A apparição do bacalhau foi um triumpho: — e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
— Sempre queria que elle provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... N’outro dia filo lá em casa dos meus Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas... Dirão vocês que o pae Dumas não é um poeta... E então d’Artagnan? D’Artagnan é um poema... É a faisca, é a phantasia, é a inspiração, é o sonho, é o arrobo! Então, pôço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois vocês hão-de vir um dia d’estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e hei-de-vos arranjar umas perdizes á hespanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas cousas de realismo e romantismo, historias... Um lyrio é tão natural como um persevejo... Uns preferem fedôr de sargeta; perfeitamente, destape-se o cano publico... Eu prefiro pós de marechala n’um seio branco; a mim o seio, e, lá vae á vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-n’o. E tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim é que elles se querem, e, lá vae á saude do Ega!
Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
— E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta portuguez!...
Mas não houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta portuguez, e o jantar terminou n’um café tranquillo. Eram nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
Alencar, embuçado num capote, um verdadeiro capote de padre de aldêa, levava na mão um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panamá na maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um começo de spleen, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na gola do paletot, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Cintra ficava dormindo ao luar. Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaços, a estrada apparecia banhada d’uma claridade quente que faiscava. Fachadas de casas, caladas e pallidas, surgiam, d’entre as arvores com um ar de melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados, o ar estava cheio d’aroma. Alencar accendera o cachimbo, e olhava a lua. Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e murmurou d’entre os seus agasalhos:
— Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa...
O poeta condescendeu logo — apesar de um dos criados ir ali ao lado d’elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! Emfim, ía dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, começou, n’um tom familiar e simples:
Era o jardim d’uma vivenda antiga,
Sem arrebiques d’arte ou flôres de luxo;
Ruas singellas d’alfazema e buxo,
Cravos, roseiras...
— Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanario. O break parára, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou:
— Esqueceram-me as queijadas!


Está visto que o Acordo de 1990 muda pouco. Se assim é: para quê mudar?


publicado por Ricardo Nobre às 21:30 | referência | comentar | ler comentários (1)

Parece que no próximo dia 15 de Maio vai ser debatido, na Assembleia da República, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Abre-se assim caminho à ratificação do documento. Prevêem-se seis anos de transição.


publicado por Ricardo Nobre às 20:25 | referência | comentar

Vai ser hoje ratificado na Assembleia da República Portuguesa o Tratado de Lisboa (que transforma os documentos fundadores da União Europeia, Tratado da União Europeia e Tratado que institui a Comunidade Europeia, em Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia), assinado pelos países que constituem a União Europeia no dia 13 de Dezembro de 2007. A versão consolidada do Tratado de Lisboa está disponível aqui (formato pdf).


publicado por Ricardo Nobre às 07:20 | referência | comentar

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