Sábado, 30 de Dezembro de 2006
No fim do ano civil, o Livro de Estilo não tem seis meses, mas parece-me que precisa já de ser requalificado quanto às suas temáticas. Deixei-o derivar demasiado para fora dos assuntos que queria tratar e que presidiram à sua criação. A Cultura e a Literatura Clássicas ficaram como tema secundário, quando deveriam ser o tema principal!
Ao longo deste tempo, quis que quem me visitasse tivesse sempre alguma coisa (mais ou menos interessante) para ler, sem responder necessariamente ao programa.
No entanto, isso vai mudar e, em 2007, o Livro de Estilo abandona a sua vertente radiofónica e televisiva, que começava a ocupar muito espaço: essa temática passa, na totalidade, para um novo blogue, sobre rádio e televisão, que funcionará neste endereço.
Deste modo, esta página assume-se como uma página sobre Literatura, Cultura, Educação e Política, cumprindo o “programa” original, que era demonstrar a actualidade de muitos aspectos da cultura e civilização antigas.
O Livro de Estilo regressa em 2007. Feliz ano novo.

PS: Mais sugestões, por favor, contacte-me por este endereço.


publicado por Ricardo Nobre às 09:10 | referência | comentar | ler comentários (1)

Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006
Eu não concordo com a sentença de morte decretada a Saddam Hussein porque nas democracias, mesmo que as pessoas não se regenerem, têm de ter oportunidade para o fazer.
Ligações (ACTUALIZADAS): The Struggle for Iraq. Saddam Hussein executed in Iraq.


publicado por Ricardo Nobre às 19:45 | referência | comentar | ler comentários (4)

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world

The colours of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"

I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world

Oh yeah

Ligação: You Tube.

Tópicos:

publicado por Ricardo Nobre às 18:33 | referência | comentar | ler comentários (1)

Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.


publicado por Ricardo Nobre às 14:29 | referência | comentar

Clara Pinto Correia entrevistou o Magnífico Reitor da minha alma mater. Para ler aqui.


publicado por Ricardo Nobre às 10:49 | referência | comentar

Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
A revista norte-americana TIME enganou-se. A figura de 2006 não sou eu, nem ninguém com perfil público. A personalidade do ano que agora termina é aquela que está sempre presente, em todo o lado, em vários espaços, em vários tempos, que conhece toda a gente, que cumprimenta até os cães. A personalidade do ano é o

ENCOSTO





publicado por Ricardo Nobre às 17:29 | referência | comentar | ler comentários (3)

Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006
Fernando Correia, jornalista de desporto da TSF, completou 50 anos de (bom) serviço.
Uma bonita homenagem.


publicado por Ricardo Nobre às 16:05 | referência | comentar

A maioria dos visitantes que nos últimos dias têm chegado a esta página procuram saber sobre a morte da jornalista da TSF Leonor Colaço. Daí a minha decisão em voltar ao tema, dando ainda a conhecer o acontecido a outro jornalista da mesma Rádio, José Lameiras.
Maria Leonor Carvalho Colaço era detentora da carteira profissional número 1337 e a sócia número 2148 do Sindicato dos Jornalistas. Iniciou o seu percurso profissional em 1989, com um estágio na Rádio Minuto, entrando dois anos depois para a CM Rádio, ao mesmo tempo que colaborava com o "Expresso".

Integrou a empresa Lusomundo Net, responsável pela gestão do 'site' TSF on-line, em Novembro de 2000. Actualmente, a jornalista trabalhava na redacção da rádio de informação da Global Notícias. Chegou a fazer a cobertura do processo Casa Pia.
No dia 20 do corrente, grávida de 26 semanas, a jornalista estava em casa (há dois meses de baixa) e sentiu-se mal, acabando por desmaiar.
Foi transportada ao Hospital do Montijo, entrando já em paragem cárdio-respiratória. Durante 45 minutos, os médicos lutaram para lhe salvar a vida e a do bebé, mas sem sucesso. Os companheiros de Leonor não conseguem compreender como é que mais uma tragédia se abate sobre a TSF em escassos dois meses. “Parece que estamos embruxados”, desabafou uma jornalista da estação, que ontem se encontrava em verdadeiro estado de choque.

José Fragoso, director da TSF, disse ao Correio da Manhã: "A notícia deixou-nos a todos em estado de choque. A Leonor estava à beira de ser mãe e nada fazia prever isto. É uma tragédia para todos nós", tendo ainda acrescentado que Leonor Colaço era "uma grande profissional, uma grande amiga e uma excelente pessoa".
No Hospital do Montijo, os médicos ainda tentaram salvar o feto, mas em vão. O óbito foi declarado às 05h15. Como disse antes, tinha 39 anos.
Além das homenagens já referidas, ficam mais duas: de Nuno Markl e de José Milhazes.

A mesma TSF conheceu outro horror na sua redacção.
José Lameiras, de 55 anos, (...) sofreu um acidente de viação, aquando das fortes chuvadas que assolaram o País em Outubro, e encontra-se em estado considerado irreversível. O jornalista deixou a rádio pelas 06h00 e dirigia-se para casa, em Torres Vedras, quando embateu contra uma árvore, na zona da Malveira. “Atribuímos o acidente ao mau tempo, mas a verdade é que só ele poderia dizer o que aconteceu”, referiu um companheiro de Lameiras. O profissional deixou o Hospital de S. José, em Lisboa, esta semana, sendo transferido para uma clínica especializada das Caldas da Rainha. “O seu estado é vegetativo e irreversível”, diz ao CM outra fonte da rádio.

Aos familiares de Leonor Colaço e de José Lameiras, os meus sentimentos pelas perdas que, cada um à sua maneira, sofreram.


publicado por Ricardo Nobre às 10:31 | referência | comentar | ler comentários (1)

Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006
Vai sair por estes dias, pelo Círculo de Leitores, a versão portuguesa do Dicionário Houaiss de Sinónimos e Antónimos. Não deve ser difícil adivinhar que se trata de mais um importante contributo para a nossa língua.
Até agora existiam, para o português europeu, o Dicionário de Sinónimos (Porto Editora) e o Dicionário Universal de Sinónimos e Antónimos de Língua Portuguesa (Texto Editores).


publicado por Ricardo Nobre às 22:05 | referência | comentar

Autocarros cheios de publicidade.
Estações de Metro cheias de publicidade em MUPIs.
Estações de Metro com televisão com publicidade aos gritos.
Carruagens de Metro cheias de anúncios.
Alteração da facturação de “mês” para “trinta dias” (o utente só “ganha” em Fevereiro).
Preço dos passes indexado ao do combustível, a fim de aumentar, mas nunca de diminuir de mês para mês.
Inflação anual.
Nada disto é pedido pelo utente médio dos transportes públicos de Lisboa. Pede o utente competência, segurança e menos quartos de hora à espera do tão almejado autocarro (ou eléctrico).
Resultado: aumento do passe que de 26,5€ passa para 27,05€. E este é o aumento a que eu estou sujeito. Há gente (mais pobre) que paga muito mais, naturalmente.
Indigno-me por assim ser: quem aumenta o preço de um serviço sem aumentar a qualidade merece que lhe cuspam para cima, mas tal não é possível porque eles não usam transportes, não sabem o que é estar à chuva ou ao sol dois ou três quartos de hora à espera “de transporte”, não sabem o que é ser assaltado enquanto se espera “o transporte”...
Nem vale a pena desenvolver o assunto.


publicado por Ricardo Nobre às 14:34 | referência | comentar

Reconheço que o Natal representa o nascimento, mas teimo que o Natal de 2006 foi diferente.
Houve um renascimento ontem.
A minha bibliografia para a tese, falecida no dia 16 (ia dentro do disco rígido acidentado), renasceu depois de horas de intervenção junto de papéis cheios de riscos a que eu chamo, carinhosamente, a minha letra.
Sobra o pedido: há alguém aí desse lado que queira partilhar a leitura de livros e artigos cuja referência me ocupa 15 páginas A4?
Se souberem alemão, até podia aumentar a lista bibliográfica para 50 páginas. Já alguém reparou que os alemães se fartam de estudar os clássicos? Com essa atitude odiosa fazem com que haja textos importantíssimos sobre Tácito que não vou conseguir ler nos próximos 20 anos.


publicado por Ricardo Nobre às 09:06 | referência | comentar | ler comentários (1)

Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006
de Eça de Queirós*
Nesse tempo Jesus ainda se não afastara de Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade: — mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.
Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E enquanto descansava, sentado à beira da fonte dos Vergéis, contou ainda que esse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um Decurião romano, só com estender sobre ele a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerasénios, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia, e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog — o homem, sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos, se além da esquina do muro, ou de sob o sicômoro, não surgiria uma claridade, e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tão sapiente certeza, os ditames antigos.
Ora então vivia em Enganim um velho, por nome Obed, de uma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas — e com o coração tão cheio de orgulho como seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cepas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed, agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.
Apenas ouvira porém desse novo rabi da Galileia que alimentava as multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras — Obed, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros, tão costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi Ben-Dossa, ou Simão o Subtil. Esses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e fáceis nos seus segredos; com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto; e agarram entre os dedos as sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas, decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o Rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Issacar.
Os servos apertaram os cinturões de couro, — e largaram pela estrada das caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte Hermon. Depois, na frescura de uma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergéis, de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os palmares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca de uma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O Rabi de Nazaré? Oh! desde o mês de Ijar, o Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas.
Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã levadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo rabi da Galileia que, como os Essénios, ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o oásis de Engaddi, depois se adiantara para além... — Mas onde, «além»? — Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Além Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio — e debalde procuraram Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur... No Poço de Jacob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egipto mirra, especiarias e bálsamos de Gilead: e os cameleiros, tirando a água com os baldes de couro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova, um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaías, arrancara sete demónios do peito de uma tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabás se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos peregrinos até Gadara, cidade de altas torres, e ainda mais longe até às nascentes de Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada, seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. E os servos de Obed, descoroçoados, de novo passavam o Jordão na Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rotas dos longos caminhos, pisando já as terras da Judeia Romana, cruzaram um Fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. Encontrara ele, por acaso, esse Profeta novo da Galileia que, como um deus passeando na Terra, semeava milagres? A adunca face do Fariseu escureceu enrugada — e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso:
— Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém? Só Jeová tem força no seu Templo. De Galileia surdem os néscios e os impostores...
E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados — o furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: Racca! Racca! e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam, — e todavia, radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.
Por esse tempo, um Centurião romano, Publius Septimus, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, até à cidade e ao mar. Publius, homem áspero, veterano da campanha de Tibério contra os Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Ática, e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaccus, Legado Imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única, para ele mais amada que vida ou bens, definhava com um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que ele mandara consultar a Sídon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemitério, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai, definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Itália, numa galera enfestada. Ao seu lado, por vezes, um legionário, entre as ameias, apontava vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de asa serena, no céu rutilante. A filha de Septimus seguia um momento a ave, torneando, até bater morta sobre as rochas: — depois, mais triste, com um suspiro, e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar.
Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazim, deste Rabi admirável, tão potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem por Galileia, e por todas as cidades da Decápole, até à costa e até Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos no saco de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira — e as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana que desde Cesareia, até ao Lago, corta toda a Tetrarquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas: e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam de um trago, sentados à sombra dos sicômoros. Assim correram a Baixa Galileia — e, do Rabi, só encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas, desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que os Romanos não aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da piedosa terra submissa. À entrada das aldeias pobres detinham os peregrinos, gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que os cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas, e batiam sacrilegamente com os punhos das espadas nas Thebahs, os santos armários de cedro que continham os Livros Sagrados. Nas cercanias de Hébron arrastaram os Solitários pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi: — e dois mercadores fenícios que vinham de Joppé com uma carga de malóbatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dracmas a cada Decurião. Já a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrogavam sobre eles as Más-Sortes, invocando a vingança de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon: não encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas areias ardentes.
Uma madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro pórtico de um templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma túnica cor de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de mármore, a aparição do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo Sacerdote. Conhecia ele um novo Profeta que surgira na Galileia, e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale:
— Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituída por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos Imortais nem um galho seco pode tombar da árvore, nem seca folha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas.
Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de Septimus, porque a sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro — e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca como a aragem da tarde que sopra do Hérmon e, através dos hortos reanima e levanta as açucenas pendidas.
Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E sobre ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!
Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Septimus tão soberano destacara os seus soldados, até à costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesareia. Errando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Septimus. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que loca ou palácio, se escondia Jesus.
A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então, o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse Rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:
— Oh filho! e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do Rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. Septimus é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tão desejado por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse, através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
— Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
— Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
— Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
— Aqui estou.


* Publicado, pela primeira vez, em Dezembro de 1898, na Revista Moderna.


publicado por Ricardo Nobre às 09:02 | referência | comentar

RÁDIO
TSF — Rádio Notícias (emissão directo)
BBC Radio 4 (emissão directo)
BBC World Service (emissão directo)
BBC Radio 3 (emissão directo)
BBC Radio 5 Live (emissão directo)
LIGAÇÕES DE REFERÊNCIA
Informação Geral
BBC News
The Guardian
Público
Times
Diário de Notícias


Cultura
The TLS
BBC | Entertainment & Arts
The Guardian | Culture
Telegraph | Culture
New York Times | Arts
DN | Artes
Ípsilon
El Mundo | Cultura
El País | Cultura
Público | Culturas
Le Monde| Culture

LITERATURA
Bibliotecas
Biblioteca Nacional de Portugal (Porbase)
The British Library
Library of Congress
Bibliothèque nationale de France (Opale)
Biblioteca Nacional de España
National Library of Scotland
Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (SIBUL)
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
University of Cambridge Library (Newton)
Oxford University Libraries (SOLO)
Harvard Libraries (HOLLIS)


Editoras
Cambridge University Press: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos
Oxford University Press: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos; More than Words (Oxford World’s Classics)
Routledge: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos
Penguin Books


Revista CLASSICA — Boletim de Pedagogia e Cultura

LÍNGUA PORTUGUESA
Vírgulas
Sujeito e Predicado

Vocativo

Oração Causal

Oração Concessiva

Oração Condicional

Oração Conformativa

Oração Final

Oração Proporcional

Oração Temporal


Uso do apóstrofo


Vocabulário estudado
à
Alcaida
contracto
contrato
de
de mais
demais
grama
majestoso
para
presidenta
sedear
sediar
se não
senão
seriação


Livro de Estilo

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1945)
Código de Redacção Interinstitucional
Dicionário da Língua Portuguesa (Priberam)
Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora)
LX Conjugator (conjugação verbal)
MorDeb
Corpus do Português Europeu
Corpus do Português
Corpus Lexicográfico do Português
CETEMPúblico
Corpus Rede de Difusão Internacional do Português
Transliteração do Alfabeto Grego
Associação de Informação Terminológica
Acordo Ortográfico de 1990
Norma Portuguesa de Metrologia

APONTADORES
Bandeira ao Vento
Blogtailors: o blog da edição
Cadê o Revisor?
Detective Cantor
Lóbi do Chá
Memento…
Pesporrente
Português em Dia
Rascunho.net
Relógio D'Água Editores
A Senhora Sócrates
O Vermelho e o Negro
ARTIGOS RECENTES

PÚBLICO Menos

Novo PÚBLICO

Acordo na Faculdade de Le...

Acordo Ortográfico no CCB

Onde o latim acaba e o in...

Balanço de um colóquio

Diogo Infante deixa o D. ...

Memória curta

Também quero o subsídio e...

Governo de salvação nacio...

Quando os escritores não ...

Golpe de estado militar

TOMBO

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

SUBSCREVER FEEDS