Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
Não sei árabe e não se prevê que venha a saber. Mas vou tendo noções de português e de inglês, língua em que a letra e se pronuncia [i]. Por isso, “al-Qaeda”, grafia inglesa, pronuncia-se [al'kaida] (álcáida). Reparei recentemente que a RTP e a TSF (pelo menos) já grafam o nome da organização com i, faltando apenas passar o q para c. A grafia desejada em português será, naturalmente, Alcaida, tal como Alcorão.
Já o PÚBLICO, por exemplo, mantém a grafia inglesa, o que está incorrecto, mas, curiosamente, de acordo com o seu Livro de Estilo.

RTP:

TSF:

PÚBLICO:

PS: Já agora, note-se como na TSF se escreve correctamente Dacar, ao contrário, novamente, do PÚBLICO, mas aqui violando o que vem no Livro de Estilo.


publicado por Ricardo Nobre às 22:48 | referência | comentar

2 comentários:
De André a 4 de Janeiro de 2008 às 23:53
Bem, eu sei algum árabe ;) Posso tentar dar umas achegas.

Em árabe escreve-se القاعدة, e pronuncia-se [al'qāʕida] (*). Note-se, portanto, que nem sequer é um ditongo, na origem: o "ʕ" representa uma consoante faríngea, inexistente nas línguas que conheço, e que normalmente não é transcrita para o alfabeto latino. Portanto, em árabe a palavra é um trissílabo esdrúxulo (recordar que "al-" é artigo, não faz parte da palavra).

Em rigor, em português o correcto é de facto "alcaida", uma vez que, como disse, o ʕ não tem correspondência em português, não estando registado em nenhuma das palavras árabes que entraram no português e que o tinham (árabe, de "ʕarab", Iraque, de "ʕiraq", etc.). A inclusão do artigo al- segue a tradição lexical portuguesa, que com raríssimas excepções o incorpora, assimilado ou não (açúcar, arroz, arrabalde, alfinete, algodão, etc.), seguindo as regras de assimilação árabes.

A forma al-qaeda é errada, como bem referes, e um anglicismo desnecessário. De facto o "e" está ali para dar conta do som "i".

Nota:
[q] é uma oclusiva uvular, distinta de [k] - de resto os dois sons têm carácter distintivo: [qalb] é um coração, [kalb] é um cão, o que torna muito problemático a alguém pouco sensível a estas coisas da fonologia fazer uma delaração de amor mais ardente em árabe tradicional - se em vez de [qalbi laka] uma senhora disser ao seu amado [kalbi laka], está a dizer-lhe "o meu cão é teu", e não "o meu coração é teu".

No entanto, ambos os sons são invariavelmente grafados "c"/"qu", quando incorporados no nosso léxico, uma vez que o português não tem essa distinção, e o próprio som [q] é problemático nos países de língua árabe, que, muitas vezes ou o pronunciam [g], [k], ou, por exemplo no Egipto, como uma oclusiva glotal (ʔ). Apesar disso, os muçulmanos de língua árabe abandonam os traços mais marcados da sua fonética quando se trata de textos religiosos, o que é bastante curioso. Um egípcio pronuncia "جمل" (camelo) como ['gamal], e قلب (coração) como [ʔalb]. No entanto, se estiver a ler um versículo do Alcorão, pronunciará respectivamente ['dʒamal] e [qalb]. De resto o árabe é uma língua dificilmente separada da religião: há estudos que mostram que determinado léxico varia, por vezes radicalmente, entre diferentes comunidades religiosas na mesma cidade. Um exemplo curioso é o do nome Jesus, que no Alcorão aparece como عيسى ['ʕīsā], enquanto nos textos cristãos aparece como يسوع [ja'sūʕ]. Mais curioso ainda é o o que se passa com a palavra اﷲ (Deus), pronunciada [alˁāh] e não [allāh]: é a única ocorrência em árabe do som lˁ, um "l" enfático, que em todas as outras situações é um [l] simples.

OK, começo a falar de árabe e entusiasmo-me :p

---

(*) Tem uma consoante [t] no fim, marca de feminino, que no entanto só se pronuncia em situações muito formais, se seguida de vogal (por exemplo, uma marca casual, que na oralidade não se costuma empregar).


De Ricardo a 5 de Janeiro de 2008 às 08:25
André,

Muito obrigado pela explicação, que nunca poderia dar.
Abraço


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