Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

No dia 1 de Setembro, Livro de Estilo noticiou a publicação para breve do Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (DM). Acaba de sair, e sobre ele gostaria de fazer algumas considerações.

1. Obra de grande valor e de interesse para todos os interessados em literatura portuguesa do século XX, o DM foi coordenado por Fernando Cabral Martins, uma das personalidades mais autorizadas para um trabalho deste género na universidade portuguesa. Os seus colaboradores (89!) são quase todos conhecidos académicos e investigadores ligados às áreas respectivas. Com o preço de 60€, o DM é publicado pela Editorial Caminho — a mesma editora responsável pelo Dicionário de Eça de Queirós (de que já saiu um suplemento), de Camilo Castelo Branco, das Personagens da Novela Camiliana, do Romantismo Literário Português, da Literatura Medieval Galega e Portuguesa

2. Apesar de ser uma obra sobre literatura portuguesa modernista, não deixa de considerar autores estrangeiros e portugueses de outras épocas que, de um modo ou de outro, influenciaram a produção artística dos modernistas portugueses. Têm, assim, entrada autores como (apenas a título de exemplo): Guillaume Apollinaire (Nuno Júdice), Jorge Luis Borges (Patricio Ferrari e Jerónimo Pizarro), Robert Browning (Mariana de Castro), Lord Byron, Thomas Carlyle, Edgar Allan Poe (Ana Maria Freitas), Coleridge, Wordsworth (António M. Feijó), Rainer Maria Rilke (Béatrice Jongy), Shakespeare (Richard Zenith), Shelley (Fernando Cabral Martins); Raul Brandão (Maria João Reynaud), Eugénio de Castro, António Nobre (Paula Morão), António Patrício (Maria do Rosário Paixão), Aquilino Ribeiro (Serafina Martins), Cesário Verde (Helena Carvalhão Buescu)…

3. Especial interesse têm os artigos sobre teoria da literatura. Por exemplo, alegoria (Maria Andresen Sousa Tavares), alteridade/ impessoalidade (Manuel Gusmão), autor (Helena Carvalhão Buescu), fragmento (Patrícia Leal), etc. Importantes são igualmente os artigos de periodização e contextualização de movimentos literários, como Modernismo (Osvaldo Silvestre), Romantismo (Ana Luísa Amaral e Rui Mesquita), Simbolismo (Fernando Guimarães), Segundo e Terceiro Modernismo (Fernando J. B. Martinho) — mas nenhum “Primeiro Modernismo” —, etc.

4. As publicações que formaram e formataram o nosso modernismo, como a Águia (Paulo Motta Oliveira), Centauro (Nuno Júdice), Contemporânea (Sara Afonso Ferreira), Orpheu (Manuela Parreira da Silva), Presença (Clara Rocha), mas muitas outras também, têm artigos próprios.

5. Os principais textos de Pessoa têm artigos próprios (e.g., “Autopsicografia”, por Manuel Gusmão, “Chuva Oblíqua”, por Caio Gagliardi), bem como artigos que escreveu (“A Nova Poesia Portuguesa”, por Madalena Dine), sem esquecer a “Carta Sobre a Génese dos Heterónimos” (Miguel Tamen), entre muitas outras entradas.

6. Bandarra, Cabala, Quinto Império, Esoterismo… têm entradas próprias. No entanto, parece-me que são demasiado extensas para a importância que eu lhes dou na produção literária, mas é só a minha opinião.

7. Conceitos filosóficos como cinismo, epicurismo, estoicismo (Luís de Oliveira e Silva) são igualmente considerados. Tenho algumas dúvidas sobre o método de transliteração das palavras gregas, mas são pormenores que não tiram a excepcional qualidade destes artigos.

8. Onde o dicionário me parece mais frágil é nas entradas “Virgílio” (três colunas, que considerações paralelas reduzem a uma, com más traduções dos nomes latinos, etc.) e “Homero” — apenas uma breve referência à relação que Pessoa tinha com este autor, sem uma especificação que se encontra por exemplo em “Horácio” (Manuel Rodrigues). De facto, o poeta latino merece uma extensa entrada (seis colunas inteiras e mais um bocadinho), muito bem escrita, que alia a obra horaciana com a influência que esta exerceu em Pessoa. “Platão” (Steffen Dix) surge verdadeiramente bem condensado, mas o dicionário não tem entrada para Aristóteles (nem um artigo sobre “Apontamentos para uma Estética Não Aristotélica”, de Álvaro de Campos, apenas aludido no artigo “Álvaro de Campos”).

9. O livro, além de diversas imagens a preto-e-branco, inclui quatro conjuntos de imagens a cores, que documentam, na medida do possível, a arte modernista. Índice de nomes, uma cronologia de Fernando Pessoa, relação de edições dos autores modernistas enriquecem o dicionário. No entanto, onde o dicionário me parece menos bem em relação aos congéneres listados no ponto 1. é na ausência de ligação ou relação entre artigos e na falta de um índice de entradas temáticas e de títulos de revistas e obras referidas nos artigos do dicionário (cf. Dicionário do Romantismo Literário Português).

10. O último ponto leva-me à questão da distribuição do trabalho pelos colaboradores. O grosso do dicionário parece-me escrito por Fernando Cabral Martins, Manuela Parreira da Silva, e Richard Zenith, três dos grandes nomes ligados aos estudos pessoanos em Portugal. Ao lado das entradas com os autores óbvios — Antero de Quental, António Nobre, Aquilino Ribeiro —, surgem os menos óbvios. Quem esperava que “Eça de Queirós” não fosse de Carlos Reis ou de A. Campos Matos? Quem esperava a quase omissão de Eugénio Lisboa, de Aguiar e Silva (uma única referência a cada, a fazer fé no índice onomástico)? O silêncio de Carlos Leone, de Fátima Morna? Quem esperava que José-Augusto França não colaborasse? De facto, dos 89 colaboradores, apenas 34 não são das Universidades de Lisboa (Nova, Clássica, Aberta, Lusófona, Investigadores)! Haver  tão raros colaboradores do Porto (seis) e de Coimbra (três) deixou-me verdadeiramente surpreendido. Isto não quer dizer que novos académicos ou que os académicos de Lisboa não sejam todos excelentes e versados nos assuntos que trataram — alguns em substituição dos que deveríamos ver assinar alguns artigos —, pode até ser que lancem novas perspectivas sobre os temas e autores canonicamente atribuídos a outros; pode até ser que tenham sido pedidos artigos a esses especialistas que, cheios de trabalho, os não tenham concluído a tempo, mas, como digo, não deixa de ser uma opção que causa surpresa.

 

Concluindo, o DM, agora dado à estampa, vem actualizar os nossos conhecimentos sobre os Modernismos Portugueses. De facto, as entradas “Fernando Pessoa”, “Bernardo Soares” (Richard Zenith), “Alberto Caeiro” (Maria Helena Nery Garcez), “Álvaro de Campos” (Teresa Rita Lopes), “Ricardo Reis” (Manuela Parreira da Silva), “Almada Negreiros” (Luis Manuel Gaspar e Sara Afonso Ferreira), “Mário de Sá-Carneiro” (Paula Morão), “Amadeo de Souza-Cardoso” (Bernardo Pinto de Almeida), só para referir algumas, são de uma qualidade inexcedível e por vezes inigualável no panorama dos estudos literários portugueses.



publicado por Ricardo Nobre às 08:00 | referência | comentar

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