Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

A utilização da vírgula com orações subordinadas adverbiais e com complementos circunstanciais (ou modificadores preposicionais e adverbiais)
 

As orações subordinadas adverbiais que funcionam como modificadores frásicos que modificam o grupo (ou sintagma) verbal são as causais, finais, e temporais (fazem parte do predicado que modificam). Por seu lado, as orações concessivas e condicionais são modificadores frásicos que não integram o predicado.
As orações causais, finais, e temporais apresentam comportamentos típicos de subordinação adverbial:
1) Desempenham uma função sintáctica numa oração subordinante similar à de um advérbio;
2) Permitem uma grande mobilidade na frase (posição inicial, medial, final);
3) Quando finitas, são introduzidas por conjunções que denotam uma semântica causal, final, ou temporal.
Das posições frásicas que estas orações podem assumir, a final é a menos marcada, ou seja, num discurso corrente, aquela em que é mais comum aparecer, pois a ordem normal das palavras numa frase do português é SVO. Por isso, numa ordenação SVO, as orações em questão não são, no geral, separadas da subordinante por vírgulas. Quando ocupam uma posição precedente ou intercalada na subordinante, usa-se a vírgula.


Causais

Deve recordar-se o que aqui foi dito sobre a diferença entre orações causais e orações explicativas.
- posição inicial (com vírgula):
Porque estava a chover, resolvi ficar em casa.
- posição medial (com vírgula a delimitar o início e o fim):
Resolvi, porque estava a chover, ficar em casa.
- posição final (sem vírgula):
Resolvi ficar em casa porque estava a chover.


Finais
- posição inicial (com vírgula):
Para acabar o trabalho, resolvi ficar em casa.
- posição medial (com vírgula a delimitar o início e o fim):
Resolvi, para acabar o trabalho, ficar em casa.
- posição final (sem vírgula):
Resolvi ficar em casa para acabar o trabalho.


Temporais
- posição inicial (com vírgula):
Quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra, a sr.ª D. Irene já tinha saído da quinta.
- posição medial (com vírgula a delimitar o início e o fim):
“A sr.ª D. Irene, quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra, já tinha saído da quinta.” Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho
- posição final (sem vírgula):
A sr.ª D. Irene já tinha saído da quinta quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra.


No que aos complementos circunstanciais causais, finais, temporais (ou, noutra nomenclatura, modificadores preposicionais e adverbiais) diz respeito, verifica-se o mesmo emprego de vírgulas quando em posição inicial ou medial. No entanto, quando o sintagma apresenta uma estrutura simples (ou “leve”, ou seja, apresenta apenas um núcleo, por exemplo), dispensa-se a pontuação:
Resolvi ficar hoje em casa.
Resolvi ficar em casa hoje.



publicado por Ricardo Nobre às 07:58 | referência | comentar

10 comentários:
De Anónimo a 12 de Novembro de 2008 às 22:15
Que boa ideia que são estes posts sobre a vírgula!
Que bibliografia podemos considerar para estudar o tema?
Obrigada.


De Ricardo Nobre a 12 de Novembro de 2008 às 22:33
Ainda bem que os textos lhe podem ser úteis. Referi bibliografia neste texto: http://livrodeestilo.blogs.sapo.pt/163373.html


De M. J. M. Santos a 25 de Fevereiro de 2009 às 21:16
Como se classificam as seguintes orações:
-«Como se desse em vão nalgum rochedo»
(é apenas comparativa ou existem também comparativas condicionais?);
-«Que pareceu sair do mar profundo»
(é apenas comparativa ou existem também relativas comparativas?).


Obrigado.


De Ricardo Nobre a 26 de Fevereiro de 2009 às 08:11
Sendo orações subordinadas, elas exercem funções sintácticas em orações que lhes são subordinantes. Como tal, não posso classificar estas orações sem contexto; à primeira vista, a primeira é uma oração chamada temporal-causal, e a segunda pode ser consecutiva. Mas, como lhe disse, só conhecendo o contexto é que se pode classificar correctamente as orações.


De M. J. M. Santos a 26 de Fevereiro de 2009 às 15:12
Caro Ricardo,
as orações em questão estão integradas no «Adamastor», de Os Lusíadas. Não as reconheceu?
Aqui seguem ,então, devidamente contextualizadas:

«Bramindo, o negro mar, de longe brada
Como se desse em vão nalgum rochedo»
(é apenas comparativa ou existem também comparativas condicionais?);
«Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo»
(é apenas comparativa ou existem também relativas comparativas?).

Esclareça-me, se possível, as minhas dúvidas concretas, apresentadas abaixo de cada citação.
Muito obrigado,

M. Santos


De Ricardo Nobre a 26 de Fevereiro de 2009 às 16:10
M. Santos,
Quanto à primeira oração, agora contextualizada, vejo que se trata efectivamente de uma oração comparativa. Não existem comparativas condicionais; “como se” é uma locução comparativa comum em português.
A segunda é uma oração subordinada adjectiva relativa explicativa, cujo antecedente é “um tom de voz horrendo e grosso” (a ordem “normal” das palavras será “fala-nos com um tom de voz horrendo e grosso, que [= esse tom de voz...] pareceu sair do mar profundo”).
As orações relativas com conjuntivo podem ter outros valores de subordinação, mas não é aqui o caso (pois o verbo está no indicativo).
Espero ter sido útil.


De M. J. M. Santos a 26 de Fevereiro de 2009 às 16:42
Percebi completamente.
Foi de toda a utilidade.

Obrigado.


De Eduardo Coelho a 3 de Março de 2010 às 23:08
Caro Ricardo:

antes de mais, parabéns pelo blog.

Relativamente ao assunto em apreço, permita-me discordar da classificação que fez da oração "que pareceu sair do mar profundo."

O Ricardo classifica-a como subordinada adjectiva relativa explicativa.

Que é subordinada e relativa, não me oferece quaisquer dúvidas. Que é adjectiva, também não, na justa medida em que qualifica o tom de voz, tal como "horrendo e grosso" - é "adjectiva" exactamente porque tem o valor de adjectivo.

Assim, não pode ter valor explicativo, mas restritivo. Basta que se retire "horrendo e grosso" à frase e temos:

"[Fala-nos] Com um tom de voz que pareceu sair do mar profundo",

não *"[Fala-nos] Com um tom de voz, que pareceu sair do mar profundo"

Não foi, portanto, com um tom de voz qualquer, mas um tom que pareceu sair do mar profundo.

Permita-me ainda um outro teste:

O meu carro é branco e negro. / O meu carro é assim: branco e negro.

Falou com um tom de voz que pareceu sair do mar profundo. / Falou com um tom de voz assim: pareceu sair do mar profundo.

Com os melhores cumprimentos, faço votos para que continue a deliciar-nos com os seus oportuníssimos artigos.

Eduardo Coelho


De Eduardo Coelho a 3 de Março de 2010 às 23:54
Caro Ricardo:

em seu entender, os complementos circunstanciais de tempo, causa e fim integram o predicado?...

Se não, como interpretar esta frase:

"As orações subordinadas adverbiais que funcionam como modificadores frásicos que modificam o grupo (ou sintagma) verbal são as causais, finais, e temporais (fazem parte do predicado que modificam)." - ?

Modificam o predicado fazendo parte dele?

Quando tiver tempo e paciência, podia explicar-me este conceito?

Confesso que tenho dificuldade em perceber como uma coisa que aconteceu depois possa ter modificado o que aconteceu antes - como é o caso do exemplo retirado d'As Novelas do Minho:

Se bem leio a frase, a Sr.ª D. Irene saiu da quinta ANTES de ser procurada para entrar no convento de St.ª Clara... O estado de coisas da oração subordinante não pode ter sido modificado pelo da oração subordinada...

No caso dos outros exemplos, há, de facto, uma anterioridade da oração subordinada:

o locutor verificou que estava a chover antes de decidir ficar em casa;

o locutor já sabia que tinha de acabar o trabalho antes de decidir ficar em casa.

Em qualquer dos casos, "estar a chover" ou "[ter de] acabar o trabalho" não fazem parte do predicado "ficar em casa".

Um abraço!

Eduardo Coelho


De Eduardo Coelho a 4 de Março de 2010 às 00:18
Ainda a propósito do meu comentário anterior:

quando muito, o que acontece é que dão origem a um novo estado de coisas. Se não, vejamos:

Eu queria sair. Verifiquei que estava a chover. Resolvi ficar em casa.

Eu queria sair. Verifiquei que tinha pouco tempo para acabar o trabalho. Resolvi ficar em casa.

D. Irene queria ficar na quinta. Soube que ia ser procurada para ser levada para um convento. Resolveu abandonar a quinta. ou Alguém queria levar D. Irene para um convento. D. Irene saiu da quinta. Essa pessoa não pôde levá-la.

Em qualquer dos casos, temos:

X -> suposto antecedente; (sair; sair; ficar na quinta/levar)
Y -> estado de coisas descrito na oração subordinada; (chover; trabalhar; ser procurado/não encontrar)
Z -> novo estado de coisas (ficar; ficar; sair da quinta/não levar)

portanto: X->Y->Z, em que o que é modificado é sempre X, por ocorrência de Y; Z resulta de Y.

Obrigado pela paciência e um forte abraço.

Eduardo


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