Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

A crise financeira internacional afecta a todos. Mas a uns afecta no bolso, a outros afecta na língua. Quem parece sofrer esta patologia é Cristina Ferreira, que escreveu esta notícia (?) do Público; daí, retire-se este trecho: “confrontado com a hipótese de o BES poder vir a recorrer á garantia de 20 mil milhões disponibilizada pelo Estado para avalizar necessidades de financiamento da banca…” Ainda que pudesse ser visto como uma gralha, aquele acento agudo (em á) é aquilo a que se chama erro de palmatória. Digo “pudesse” porque não pode ser gralha. É recorrente: “Todos os bancos na Europa estão a recorrer às garantias disponibilizadas pelos seus Estados e os bancos portugueses não a usarem perdem uma oportunidade e capacidade para emprestar dinheiro á economia”. Cristina Ferreira, se justiça houvesse, ia para casa com as mãos vermelhas da palmatória.
Tenho ainda muitas dúvidas se está correcta a utilização do verbo avalizar neste contexto. Se o sentido estiver correcto, a estrutura argumental está certamente errada. Mas Cristina Ferreira não é sintaxista do português, é uma esteta da língua, como a criação do neologismo aindsa demonstra. Cristina Ferreira é o dicionário da Academia e Houaiss. Cristina Ferreira sabe pontuação como ninguém; o trecho seguinte prova-o: “Ricardo Salgado referiu aindsa que nas operações de médio e longo prazo os spreads das taxas de juro ainda estão muito altos, mas que a tendência é de descida e que em Portugal não houve comportamentos de risco nem de alavancagem por parte da banca.” Disse que Cristina Ferreira sabe pontuação como ninguém porque ninguém percebe porque está uma pessoa assim a escrever notícias.

A notícia de que o Banco Espírito Santo iria recorrer à ajuda do Estado foi ouvida na TSF no dia 24 deste mês. A notícia de Cristina Ferreira nem é notícia nem é português.
Duas aspirinas para quem lê. Um dicionário para Cristina Ferreira.



publicado por Ricardo Nobre às 22:54 | referência | comentar

4 comentários:
De bigz a 30 de Outubro de 2008 às 00:21
Ricardo
De acordo quanto ao 'á', é erro grave, estrutural.
O 'aindsa' é, visivelmente, gralha; não entendo por que 'forçou a nota' considerando-o um neologismo.
Mas a razão por que faço este contacto prende-se com o facto de eu não ter entendido o que disse sobre o verbo 'avalizar'. Parece-me que o sentido é correcto; não entendo, porém, que a argumentação saia prejudicada, sobretudo na sua ligação com o 'sentido', uma ligação do tipo "on" / "off", ou seja, se uma delas é verdadeira a outra tem que ser falsa.
Penso que devia ter antecipado a dúvida explicando o seu raciocínio.
Cmpts
Bigz


De Ricardo Nobre a 30 de Outubro de 2008 às 07:30
Obrigado pelo seu comentário.
A observação sobre “aindsa” era ironia.
“Avalizar” significa ‘dar o aval, garantir’. A frase em causa é “… a hipótese de o BES poder vir a recorrer [à] garantia de 20 mil milhões disponibilizada pelo Estado para avalizar necessidades de financiamento da banca.” Dá-se aval às necessidades de financiamento? Garante-se uma necessidade? Como disse, tenho dúvidas, e se calhar até sou eu que estou errado.


De Nuno Q. a 30 de Outubro de 2008 às 12:20
Confesso que partilho dessa dúvida em relação ao verbo «avalizar» no contexto em causa. A mim, pelo menos, também me arranha um pouco os ouvidos, apesar de esta ser uma das áreas em que mais traduzo e de aparecer em expressões mais correntes como «avalizar uma política». Contudo, o sentido aqui é tudo menos claro e ganharia bastante se a frase tivesse sido reformulada (mas isso já seria demasiada areia para a camioneta da jornalista).

Talvez seja mais um daqueles tiques típicos do economês », que parece ter horror à clareza.


De João Silveira a 30 de Outubro de 2008 às 19:14
O Meu amigo tem razão! Vamos lá a ver se nos entendemos todos: O Governo não está a avalizar nada, parece-me. Avalizar é dar aval. Dar aval é afiançar qualquer coisa sobre... O Governo, neste caso, não está a avalizar nada à banca. Está a "dar" uma coisa sobre a hipótese de poder haver (ou acontecer) outra que não seja respeitada por inerência e circuntância de mercado mundial, logo o Governo pôe limites e "balizas". Entre a banca e quem lá tem o seu dinheiro o governo ABALIZA. Não avaliza. Avalizar o quê? A banca? Não é este o principio da actual concessão, julgo eu. O termo correcto deveria ser "abalizar".


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