Sábado, 11 de Outubro de 2008

Não é a primeira vez que ouço falar de pessoas que alegam o preço dos livros (e outros argumentos "culturais") para preferirem traduções inglesas às portuguesas de obras literárias ou não (cujo original está em línguas para eles inacessíveis). Filipe Guerra, tradutor do russo, fala dessa tendência "cosmopolita".

Quanto aos clássicos da Antiguidade, o fenómeno é o mesmo. Claro que a tradução dos poemas homéricos publicada pela Cotovia são mais caras do que as da Penguin, mas há assim tanto desprezo pela língua portuguesa (ou tamanho conhecimento profundo do inglês)?

Há depois quem alegue falta de tradutores do latim e do grego para legitimar a tradução a partir do inglês ou do francês. Eu, que conheço tantos classicistas que até gostavam de fazer traduções e que são mais do que capazes de traduzir com brilhantismo os textos inacessíveis à grande maioria da população, não posso ficar indiferente a estes escândalos: pessoas que sabem tanto inglês que renegam a sua língua. Eu sei que os portugueses sempre se detestaram, sempre odiaram o seu país, mas se há coisa boa nesta pátria é o seu património linguístico e literário.

PS: Lamento não escrever este blogue em inglês para que os leitores mais cosmopolitas me possam ler...



publicado por Ricardo Nobre às 10:11 | referência | comentar

9 comentários:
De André a 11 de Outubro de 2008 às 17:47
Eu por acaso praticamente só leio traduções em inglês, se se trata de línguas modernas que não domino. A não ser que haja traduções portuguesas de qualidade inquestionável. Por isso leio, graças aos Guerra, os russos em português. Mas recuso-me a ler o Pamuk em traduções portuguesas indirectas, e enquanto não houver bons tradutores de turco para português, nunca me passará pela cabeça gastar o triplo do dinheiro por uma tradução indirecta quando posso ler uma directa por um terço do preço. Leio Kafka em português quando a ficha técnica me garante que se trata de tradução directa, caso contrário naturalmente prefiro uma tradução inglesa ou francesa, mais baratas. Claro que ser uma tradução directa não é garantia de qualidade. Já me calharam traduções directas de autores árabes lamentáveis (as traduções, não os autores), e suspeito que vou ter de os ler em inglês ou em francês, enquanto o meu árabe não der para mais do que soletrar versículos do Alcorão e traduzir poemas curtos ( http://latinorium.blogspot.com/search/label/Nizar%20Qabani ). Porque a questão não é simples. Não vamos ler em português uma má tradução apenas porque está em português, isso é mesmo contraproducente. E num país como o nosso, sem qualquer cultura de exigência, estas coisas passam sem grande alarido. Há uns anos, numa colecção do Público, uma tradutora que assinava trabalhos de inglês e francês (o que, enfim, é logo de ficar de pé atrás) traduzia uma obra do Júlio Verne exprimindo sempre o pronome pessoal, à francesa, em enunciados do género "ele levantou-se, e ele abriu a porta". Ao fim de meia dúzia de páginas berrei "parbleu", e fui buscar o original à prateleira. Na mesma colecção, uma tradução de Melville, com uma média de 1 erro ortográfico por linha, às tantas falava-se de um quarto com "abobora" (sic). Como não era Carroll nem Joyce, achei melhor tirar a coisa a limpo. Peguei no Moby Dick em inglês, e verifiquei que a senhora realmente queria dizer "abóbada". O original inglês ficou na mesa de cabeceira, o lixo português só não foi para onde merecia porque eu acho pecado deitar livros fora. É um exemplo extremo, mas serve apenas para mostrar que não podemos ser radicais nem para um lado nem para o outro.

Quanto a mim, continuarei a ler exclusivamente em inglês, espanhol e francês os livros escritos nessas línguas, pois se as domino não me parece que faça sentido lê-las em tradução, e em traduções inglesas ou francesas nos casos em que não haja boas traduções portuguesas, ou nos casos em que o preço da edição portuguesa roce a pornografia - nalguns casos a pornografia mais degradante, como as milionárias edições do Quixote, que se podem comprar no original, anotadas e com estudos dos maiores especialistas, a preços equivalentes a um jantar barato num restaurante médio.

Finalmente, o preço é um argumento importante, e as editoras em Portugal assumem práticas de "bookjacking".

Vejamos um exemplo. A "Anna Karenina" custa, em Inglaterra, entre 2£ e 6£ (2,5€ - 7,5€). A boa tradução portuguesa custou-me 35€, ou seja: cerca de 5 vezes mais do que a edição mais cara, cerca de 17 vezes mais do que a edição mais barata - que eu tenho, e é de excelente qualidade . Por acaso comprei a edição portuguesa, porque me oferecia a garantia de uma tradução directa de qualidade. No entanto, é este também o preço de traduções indirectas de qualidade incógnita.

Vejamos outro exemplo. A tradução inglesa, directa, do fabuloso "O meu nome é Vermelho", do Pamuk, custa na Amazon 2£, ou seja, cerca de 2,€. A tradução portuguesa, indirecta, custa, na webboom, e já com desconto, 21,38€. Portanto, a indirecta portuguesa custa mais de 10 vezes mais. Quando quis ler, não havia a edição portuguesa, e portanto não tive escolha. Se fosse agora, não hesitaria. Entre pagar 2€ por uma edição de qualidade, directa, e 20€ por uma indirecta e portanto de qualidade à partida questionável, eu não hesitaria.

O dinheiro não é cultural, mas sem ele não se podem comprar livros. E sem livros não há cultura. Quando eu for rico e puder dar-me ao luxo de me ser indiferente pagar 2€ ou 20€, então talvez mude de hábitos. Até lá, continuarei a comprar em português apenas traduções directas de qualidade, e de línguas que não domine.


De André a 11 de Outubro de 2008 às 17:48


Quanto aos clássicos, o problema é outro. Falta entre os académicos portugueses uma verdadeira mentalidade de abertura. Vive-se em circuito fechado. Trabalhe-se de e para a academia. Não se traduz porque se acha que não é preciso, "porque tem de se ler no original". Lembro-me de uma professora de quem gostava tanto que não vou dizer o nome, que reagiu com indignação veemente à tradução do Hipólito, pelo Frederico Lourenço. Dizia ela, apopléctica, que o professor Rebelo Gonçalves tinha escrito dezenas de páginas sobre apenas um verso daquela tragédia, e vinha agora aquele rapazola! A audácia dele! Eu contra mim falo, que não publiquei ainda qualquer tradução, e tenho o Catulo empatado (há outra coisa prestes a sair, porém), mas assim que despachar a droga do doutoramento ponho em prática o meu plano de traduções.


De Jacinto a 12 de Outubro de 2008 às 01:35
André,
Não se incomode com estes comentários pedantes de pseudo-intelectuais como parece ser esta sua professora. A sua atitude só demonstra a pequenez e inveja de que outros possam também ter acesso ao conhecimento.
A tradução do Professor Frederico Lourenço é um trabalho sério e competente.
Deste tradutor tenho as famosas Ilíada e Odisseia e se não fosse a tradução deste professor ficava privado do contacto destes textos.
O que diz é verdade. A academia protege-se, fecha-se e transforma-se numa seita de eleitos. É triste.


De André a 11 de Outubro de 2008 às 17:53
Depois de ler o texto do Filipe Guerra, tenho de dizer que concordo em absoluto com o parágrafo final, e no geral com a totalidade do texto. É pena é que o Filipe Guerra aparentemente depois não concretize na prática o que defende. A não ser que seja falante de turco, facto de que não tenho notícia - ele assina a tradução de pelo menos uma obra do Pamuk traduzida para português.


De Ricardo Nobre a 11 de Outubro de 2008 às 20:15
No meu texto não terá ficado claro, mas o André saberá que a minha posição é idêntica à sua: também já li várias traduções inglesas por as portuguesas disponíveis não valerem as folhas de papel em que foram impressas.


De André a 12 de Outubro de 2008 às 22:22
Ficou claro, sim, não te preocupes. Infelizmente são ainda muitas as traduções portuguesas que não valem as folhas de papel em que foram impressas. Mas também é verdade que vão sendo cada vez menos, à medida que vão aparecendo mais e melhores tradutores.

Penso que é tudo uma questão de cultura de exigência, ou de falta dela. No caso que relatei, da colecção do Público, enviei emails indignados a protestar. Percebi, num passeio pelos blogues, que não tinha sido o único. Recebi depois uma resposta do Público, lamentando o sucedido, e informando que "para a próxima" já não iriam contratar aquela empresa de tradução. Isto é, não retiraram os volumes já nas bancas nem cancelaram o resto da colecção. Ia cheia de erros e mal traduzida? Paciência. Não se ia era perder o dinheirinho. É o país que temos.


De Guerra a 12 de Outubro de 2008 às 21:49
Uma crítica consistente do André. Em minha defesa e, sobretudo, em defesa da editora (Presença), alego que não se encontrou um tradutor literário de turco em Portugal depois de muito se pesquisar. Quando é assim e os livros têm de ser traduzidos, são inevitáveis as "traições" - da parte da editora porque tem os contratos assinados, da parte do tradutor porque precisa de trabalhar (é a minha única profissão). Acresce ainda que os tradutores do turco para o francês são turcos bilingues, merecendo as suas traduções uma certa confiança. Além disso, o próprio Orhan Pamuk elogiou as traduções francesas dos seus livros, feitas por grandes intelectuais franco-turcos (bilingues, como disse). Mas,no fundo,tem razão, André. Mea culpa. Quanto ao resto: peço que se pense nos leitores (maioritários, tenho quase a certeza) que só sabem ler em português, ou que, sabendo ler noutras línguas, não se sentem seguros na apreensão completa da obra e preferem o português.


De André a 12 de Outubro de 2008 às 22:15
Antes de mais, Filipe, tenho de lhe fazer uma longa e demorada vénia pelo excelente trabalho de tradução dos autores russos para português, que eu não dispenso, mesmo sendo sendo mais caras do que as inglesas ou francesas. As suas razões são boas, e eu acabo por me dar por vencido sem grande luta. Entre a inexistência de traduções e a existência de traduções indirectas, mais vale de facto haver indirectas. Para quem, como diz, só sabe ler em português, ou prefere fazê-lo assim. No entanto persiste a questão inicial deste debate. Para quem domine o inglês ou o francês, parece-me que a opção por traduções directas em inglês ou francês, ainda por cima bastante mais baratas, é legítima e lógica. Quanto a mim, faço-o apenas nessas circunstâncias. O Pamuk leio-o em inglês, mas o Dostoiévski, o Tolstoi, o Tchékhov, o Púchkin, em português, nas vossas excelentes traduções.


De Hugo a 12 de Outubro de 2008 às 01:30
Permita-me partilhar a minha experiência pessoal. Só 100% a favor de que qualquer obra seja da antiguidade ou contemporânea seja sempre traduzida em português. Infelizmente se assim não for, no meu caso pessoal ficaria privado irremediavelmente , do contacto com autores estrangeiros se os mesmos não fossem traduzidos.


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