Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

Nas gramáticas e nos dicionários de português, encontramos a seguinte classificação para “porque” enquanto conjunção:

Dicionário da Língua Portuguesa (Verbo), supostamente de acordo com a TLEBS:

conj[unção] 1. Exprime causa, razão, POIS. Caí ~ tropecei numa pedra. Cheguei atrasado ~ adormeci. 2. Introduz justificação de frase anterior, JÁ QUE, POIS QUE, UMA VEZ QUE. Ele está cá, ~ ainda há pouco o vi!

Grande Dicionário da Língua Portuguesa e Dicionário da Língua Portuguesa 2009 — Acordo Ortográfico (Porto Editora):

conj[unção] uma vez que; já que; como; por causa de

Priberam:

conj[unção] introduz uma oração causal: Ele ganhou as eleições porque fez uma boa campanha.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores/Temas e Debates/Objetiva):

conj[unção] coord[coordenativa] (…) 1 conj[unção] expl[i]c[ativa] liga duas orações coordenadas, numa das quais se explica ou se justifica a asserção contida na outra; pois, porquanto, que

Na observação do fim da entrada: “não há diferença muito sensível semanticamente entre a explicativa e a causal; segundo os gramáticos, a oração coordenada explicativa ger[almente] é separada da oração anterior por uma pausa, que pode ser expressa na escrita por vírgula, ponto-e-vírgula [sic] ou mesmo ponto final”.

A polémica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), na sua primeira versão, problematizou a classificação das conjunções coordenadas explicativas e conclusivas, apresentando em alternativa uma classificação única de conclusivas (ou seja, são conclusivas as conclusivas e as explicativas tradicionais). Como é evidente, esta unificação trazia problemas, porque uma explicação não é uma conclusão, e a revisão da TLEBS restaura a classificação tradicional. Mantém-se, no entanto, a dificuldade de interpretação não só entre coordenadas explicativas e subordinadas causais, como entre as explicativas e as conclusivas.
Esquecendo a resposta do Ciberdúvidas, convém reportar ainda que nem todas as gramáticas indicam “porque” como conjunção coordenada explicativa, e as que o fazem não costumam distinguir este uso daquele que mais comummente encontramos, que é o de conjunção subordinada causal. Quanto aos casos em que “porque” não figura nas conjunções explicativas, tomemos por exemplo uma gramática de uso escolar como a Gramática Universal da Língua Portuguesa, de António Afonso Borregana (Lisboa: Texto Editora, a minha é a primeira edição, de 1996), lemos que as explicativas “[l]igam duas orações, a segunda das quais justifica o conteúdo da primeira” (pág. 216). Mais à frente deparamos com estas duas observações: “As orações explicativas despertam muitas dúvidas a professores e alunos. Com efeito, se substituirmos o pois e o porquanto (…) por porque, as duas orações introduzidas por esta conjunção [anteriormente citadas] conservariam sensivelmente o mesmo sentido mas seriam subordinadas causais.”
“Atendendo ao significado da palavra coordenadas (ordenadas entre si) seria lícito concluir que tão coordenadas são (num período) a primeira como a(as) que se lhe segue (seguem). Por outro lado, atendendo a que há a tendência de procurar sempre uma oração principal num período, não nos parece errado chamar à primeira das orações coordena principal, pela razão de que é ela que inicia o processo de coordenação. Além disso, nas orações conclusivas e explicativas, é nela que se baseia a conclusão, ou explicação, dada na seguinte, ou seguintes.” (pág. 242)
Tal como esta gramática, também a Gramática do Português Moderno1 (que considero uma das melhores) não indica “porque” na lista de conjunções explicativas (apenas enuncia “pois”, “porquanto”, e “que”).
Por seu lado, a Gramática do Português Actual, de José de Almeida Moura (Lisboa: Lisboa Editora, 2003), 238, tenta explicar as diferenças entre coordenadas explicativas e subordinadas causais2:

As orações explicativas apresentam uma justificação, não a causa real, para a asserção contida na oração coordenada sua antecedente:
Faltou às aulas, que eu bem sei.
Faltaste à escola, malandro, porque a estas horas devias estar lá.
Anda triste, pois/que os olhos o indicam.
De facto, não se estabelece uma relação de causa-efeito nas asserções exemplificadas: o facto de se saber da falta não implica que alguém tenha faltado às aulas, nem o facto de os olhos indicarem tristeza a provoca.
Diferente situação é a das frases com subordinada causal, associada sem vírgula para se marcar a relação causa-efeito:
Faltou às aulas porque/visto que está com 40 de febre.
Anda triste porque/visto que rompeu o namoro.
Uma oração explicativa pode tornar-se casual, desde a se subordine a frase a uma oração cujo sentido a consinta:

O espaço é infinito, porque mo disseram. [coord.da explicativa]
Só acho que o espaço é infinito porque mo disseram. [sub.da causal]

Com efeito, a distinção semântica é esta. Falta realçar que em termos sintácticos existe uma grande diferença entre subordinação e coordenação, nomeadamente:
- no que concerne ao movimento dos membros da frase: os membros coordenados [1] não têm a mobilidade dos subordinados [2]:

 

[1a] Foi um passeio cansativo, mas diverti-me.
[1b] *Mas diverti-me, foi um passeio cansativo.
[2a] Adorei o jantar porque a comida estava óptima.
[2b] Porque a comida estava óptima, adorei o jantar.

 

- no que concerne ao tipo de ligação que a conjunção proporciona: os membros coordenados também ligam palavras simples [3], algo que os subordinados não fazem [4]:

 

[3] O bolo tem nozes e canela.
[4] *O bolo tem nozes porque canela.

 

Existem algumas restrições quanto a estas tendências sintácticas das conjunções coordenadas. De facto, nem todas as conjunções coordenadas ligam palavras [5]:

 

[5] *O bolo tem nozes, pois canela.

 

Este comportamento e outras distinções sintácticas fizeram com que a gramática moderna tivesse adoptado duas designações para aquilo que a gramática tradicional nomeava conjunções coordenadas:
- as conjunções propriamente ditas (excluem-se as subordinadas que passam a designar-se complementadores) são copulativas (e), disjuntivas (ou), e adversativas (mas).
- são conectores as “conjunções coordenadas” que designam contraste (porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto), explicação (pois, que, porque, porquanto), e conclusão (logo, pois, assim, portanto, por isso, por conseguinte, por consequência). Para desenvolvimento deste assunto, v. Mateus, M. H. M. et aliae, Gramática da Língua Portuguesa (5.ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003), 551–574.
Em termos ortográficos, retenhamos a observação quanto à colocação da vírgula antes de “porque” explicativo, mas não entre “porque” causal. Com efeito, é comum a utilização de vírgula com algumas conjunções coordenadas [6], mas não com todas [7]:

 

[6] O céu está nublado, mas a temperatura é agradável.
[7] O céu está nublado e a temperatura é agradável.

 

Observe-se finalmente que estamos a falar de subordinadas à direita da subordinantes, uma posição “menos marcada” dos elementos oracionais nas frases complexas do português. Em breve serão publicados textos sobre a pontuação nestas estruturas coordenadas e subordinadas.

 


1 Pinto, J. M. de C., M. C. V. Lopes, e M. Neves, Gramática do Português Moderno (5.ª ed., Lisboa: Plátano Editora, 1999).
2 Onde o autor tem realces de outra cor (laranja), eu escrevo em negrito. Os itálicos são os originais.



publicado por Ricardo Nobre às 09:00 | referência | comentar

1 comentário:
De Angelino Cipriano a 31 de Maio de 2011 às 22:43
Estou feliz porque superei as minhas duvidas. Na verdade,a distinçao entre as oraçoes coordenadas explicativas e as subordinadas causais nao é fácil,mas o que tem que ficar em nós é: -as explicativas funcionam como adjectivas,ou seja,explicam o sentido da primeira ideia. Enquanto que,as causais exprimem,como o nome diz,a relaçao de causa e efeito.


Comentar artigo

RÁDIO
TSF — Rádio Notícias (emissão directo)
BBC Radio 4 (emissão directo)
BBC World Service (emissão directo)
BBC Radio 3 (emissão directo)
BBC Radio 5 Live (emissão directo)
LIGAÇÕES DE REFERÊNCIA
Informação Geral
BBC News
The Guardian
Público
Times
Diário de Notícias


Cultura
The TLS
BBC | Entertainment & Arts
The Guardian | Culture
Telegraph | Culture
New York Times | Arts
DN | Artes
Ípsilon
El Mundo | Cultura
El País | Cultura
Público | Culturas
Le Monde| Culture

LITERATURA
Bibliotecas
Biblioteca Nacional de Portugal (Porbase)
The British Library
Library of Congress
Bibliothèque nationale de France (Opale)
Biblioteca Nacional de España
National Library of Scotland
Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (SIBUL)
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
University of Cambridge Library (Newton)
Oxford University Libraries (SOLO)
Harvard Libraries (HOLLIS)


Editoras
Cambridge University Press: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos
Oxford University Press: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos; More than Words (Oxford World’s Classics)
Routledge: Catálogo de Literatura; Catálogo de Estudos Clássicos
Penguin Books


Revista CLASSICA — Boletim de Pedagogia e Cultura

LÍNGUA PORTUGUESA
Vírgulas
Sujeito e Predicado

Vocativo

Oração Causal

Oração Concessiva

Oração Condicional

Oração Conformativa

Oração Final

Oração Proporcional

Oração Temporal


Uso do apóstrofo


Vocabulário estudado
à
Alcaida
contracto
contrato
de
de mais
demais
grama
majestoso
para
presidenta
sedear
sediar
se não
senão
seriação


Livro de Estilo

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1945)
Código de Redacção Interinstitucional
Dicionário da Língua Portuguesa (Priberam)
Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora)
LX Conjugator (conjugação verbal)
MorDeb
Corpus do Português Europeu
Corpus do Português
Corpus Lexicográfico do Português
CETEMPúblico
Corpus Rede de Difusão Internacional do Português
Transliteração do Alfabeto Grego
Associação de Informação Terminológica
Acordo Ortográfico de 1990
Norma Portuguesa de Metrologia

APONTADORES
Bandeira ao Vento
Blogtailors: o blog da edição
Cadê o Revisor?
Detective Cantor
Lóbi do Chá
Memento…
Pesporrente
Português em Dia
Rascunho.net
Relógio D'Água Editores
A Senhora Sócrates
O Vermelho e o Negro
ARTIGOS RECENTES

PÚBLICO Menos

Novo PÚBLICO

Acordo na Faculdade de Le...

Acordo Ortográfico no CCB

Onde o latim acaba e o in...

Balanço de um colóquio

Diogo Infante deixa o D. ...

Memória curta

Também quero o subsídio e...

Governo de salvação nacio...

Quando os escritores não ...

Golpe de estado militar

TOMBO

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

SUBSCREVER FEEDS