Nas gramáticas e nos dicionários de português, encontramos a seguinte classificação para “porque” enquanto conjunção:
Dicionário da Língua Portuguesa (Verbo), supostamente de acordo com a TLEBS:
conj[unção] 1. Exprime causa, razão, POIS. Caí ~ tropecei numa pedra. Cheguei atrasado ~ adormeci. 2. Introduz justificação de frase anterior, JÁ QUE, POIS QUE, UMA VEZ QUE. Ele está cá, ~ ainda há pouco o vi!
Grande Dicionário da Língua Portuguesa e Dicionário da Língua Portuguesa 2009 — Acordo Ortográfico (Porto Editora):
conj[unção] uma vez que; já que; como; por causa de
Priberam:
conj[unção] introduz uma oração causal: Ele ganhou as eleições porque fez uma boa campanha.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores/Temas e Debates/Objetiva):
conj[unção] coord[coordenativa] (…) 1 conj[unção] expl[i]c[ativa] liga duas orações coordenadas, numa das quais se explica ou se justifica a asserção contida na outra; pois, porquanto, que
Na observação do fim da entrada: “não há diferença muito sensível semanticamente entre a explicativa e a causal; segundo os gramáticos, a oração coordenada explicativa ger[almente] é separada da oração anterior por uma pausa, que pode ser expressa na escrita por vírgula, ponto-e-vírgula [sic] ou mesmo ponto final”.
A polémica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), na sua primeira versão, problematizou a classificação das conjunções coordenadas explicativas e conclusivas, apresentando em alternativa uma classificação única de conclusivas (ou seja, são conclusivas as conclusivas e as explicativas tradicionais). Como é evidente, esta unificação trazia problemas, porque uma explicação não é uma conclusão, e a revisão da TLEBS restaura a classificação tradicional. Mantém-se, no entanto, a dificuldade de interpretação não só entre coordenadas explicativas e subordinadas causais, como entre as explicativas e as conclusivas.
Esquecendo a resposta do Ciberdúvidas, convém reportar ainda que nem todas as gramáticas indicam “porque” como conjunção coordenada explicativa, e as que o fazem não costumam distinguir este uso daquele que mais comummente encontramos, que é o de conjunção subordinada causal. Quanto aos casos em que “porque” não figura nas conjunções explicativas, tomemos por exemplo uma gramática de uso escolar como a Gramática Universal da Língua Portuguesa, de António Afonso Borregana (Lisboa: Texto Editora, a minha é a primeira edição, de 1996), lemos que as explicativas “[l]igam duas orações, a segunda das quais justifica o conteúdo da primeira” (pág. 216). Mais à frente deparamos com estas duas observações: “As orações explicativas despertam muitas dúvidas a professores e alunos. Com efeito, se substituirmos o pois e o porquanto (…) por porque, as duas orações introduzidas por esta conjunção [anteriormente citadas] conservariam sensivelmente o mesmo sentido mas seriam subordinadas causais.”
“Atendendo ao significado da palavra coordenadas (ordenadas entre si) seria lícito concluir que tão coordenadas são (num período) a primeira como a(as) que se lhe segue (seguem). Por outro lado, atendendo a que há a tendência de procurar sempre uma oração principal num período, não nos parece errado chamar à primeira das orações coordena principal, pela razão de que é ela que inicia o processo de coordenação. Além disso, nas orações conclusivas e explicativas, é nela que se baseia a conclusão, ou explicação, dada na seguinte, ou seguintes.” (pág. 242)
Tal como esta gramática, também a Gramática do Português Moderno1 (que considero uma das melhores) não indica “porque” na lista de conjunções explicativas (apenas enuncia “pois”, “porquanto”, e “que”).
Por seu lado, a Gramática do Português Actual, de José de Almeida Moura (Lisboa: Lisboa Editora, 2003), 238, tenta explicar as diferenças entre coordenadas explicativas e subordinadas causais2:
As orações explicativas apresentam uma justificação, não a causa real, para a asserção contida na oração coordenada sua antecedente:
Faltou às aulas, que eu bem sei.
Faltaste à escola, malandro, porque a estas horas devias estar lá.
Anda triste, pois/que os olhos o indicam.
De facto, não se estabelece uma relação de causa-efeito nas asserções exemplificadas: o facto de se saber da falta não implica que alguém tenha faltado às aulas, nem o facto de os olhos indicarem tristeza a provoca.
Diferente situação é a das frases com subordinada causal, associada sem vírgula para se marcar a relação causa-efeito:
Faltou às aulas porque/visto que está com 40 de febre.
Anda triste porque/visto que rompeu o namoro.
Uma oração explicativa pode tornar-se casual, desde a se subordine a frase a uma oração cujo sentido a consinta:
O espaço é infinito, porque mo disseram. [coord.da explicativa]
Só acho que o espaço é infinito porque mo disseram. [sub.da causal]
Com efeito, a distinção semântica é esta. Falta realçar que em termos sintácticos existe uma grande diferença entre subordinação e coordenação, nomeadamente:
- no que concerne ao movimento dos membros da frase: os membros coordenados [1] não têm a mobilidade dos subordinados [2]:
[1a] Foi um passeio cansativo, mas diverti-me.
[1b] *Mas diverti-me, foi um passeio cansativo.
[2a] Adorei o jantar porque a comida estava óptima.
[2b] Porque a comida estava óptima, adorei o jantar.
- no que concerne ao tipo de ligação que a conjunção proporciona: os membros coordenados também ligam palavras simples [3], algo que os subordinados não fazem [4]:
[3] O bolo tem nozes e canela.
[4] *O bolo tem nozes porque canela.
Existem algumas restrições quanto a estas tendências sintácticas das conjunções coordenadas. De facto, nem todas as conjunções coordenadas ligam palavras [5]:
[5] *O bolo tem nozes, pois canela.
Este comportamento e outras distinções sintácticas fizeram com que a gramática moderna tivesse adoptado duas designações para aquilo que a gramática tradicional nomeava conjunções coordenadas:
- as conjunções propriamente ditas (excluem-se as subordinadas que passam a designar-se complementadores) são copulativas (e), disjuntivas (ou), e adversativas (mas).
- são conectores as “conjunções coordenadas” que designam contraste (porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto), explicação (pois, que, porque, porquanto), e conclusão (logo, pois, assim, portanto, por isso, por conseguinte, por consequência). Para desenvolvimento deste assunto, v. Mateus, M. H. M. et aliae, Gramática da Língua Portuguesa (5.ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003), 551–574.
Em termos ortográficos, retenhamos a observação quanto à colocação da vírgula antes de “porque” explicativo, mas não entre “porque” causal. Com efeito, é comum a utilização de vírgula com algumas conjunções coordenadas [6], mas não com todas [7]:
[6] O céu está nublado, mas a temperatura é agradável.
[7] O céu está nublado e a temperatura é agradável.
Observe-se finalmente que estamos a falar de subordinadas à direita da subordinantes, uma posição “menos marcada” dos elementos oracionais nas frases complexas do português. Em breve serão publicados textos sobre a pontuação nestas estruturas coordenadas e subordinadas.
1 Pinto, J. M. de C., M. C. V. Lopes, e M. Neves, Gramática do Português Moderno (5.ª ed., Lisboa: Plátano Editora, 1999).
2 Onde o autor tem realces de outra cor (laranja), eu escrevo em negrito. Os itálicos são os originais.
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