Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

É estranha, empírica, omissa, ambígua, e confusa a relação que a gramática tradicional tem com a pontuação. A gramática moderna (estruturalista, generativa, entre outras escolas) não costuma contemplá-la nos seus estudos, por se considerar parte da ortografia (que, como se sabe, não é parte da gramática, actualmente dividida entre fonética/fonologia, morfologia, sintaxe, e semântica, havendo ainda quem inclua a pragmática). Apesar disso, as normas ortográficas que nos regem não contemplam qualquer referência a sinais de pontuação.
Nos próximos dias, vou tentar demonstrar como a pontuação actua sobre todas estas vertentes (da ortografia à pragmática). Entendo, ainda assim, que os sinais de pontuação (nomeadamente as vírgulas) servem, primordialmente, para hierarquizar os constituintes sintácticos; outros, como os pontos de exclamação e interrogação, actuam sobre a pragmática, a semântica, e a fonética frásica.



publicado por Ricardo Nobre às 08:00 | referência | comentar

6 comentários:
De Nuno Q. a 1 de Agosto de 2008 às 18:35
Caro Ricardo,

Ainda assim, neste post, erros em várias vírgulas:

a) «[...] os sinais de pontuação [...] servem, primordialmente, para hierarquizar os constituintes sintácticos».

Sobre o uso de vírgulas entre advérbios de modo, ver por exemplo: http://letratura.blogspot.com/2007/06/uso-da-vrgula_07.html

b)
- «[...] entre fonética/fonologia, morfologia, sintaxe, e semântica, havendo ainda quem inclua a pragmática»

- «[...] actuam sobre a pragmática, a semântica, e a fonética frásica.»

Sobre o uso de vírgulas antes de «e» em enumerações como as citadas, ver, entre outros, o Novo Prontuário Ortográfico, de José Manuel de Castro Pinto, 6.ª ed., p. 255 (o que tenho à mão).

Presumo que irá alegar o carácter expressivo da famosa Oxford comma, também previsto pelo Prontuário. Ainda assim, citando, mais uma vez, o referido Prontuário: «mas não pode ser abusivo e é preciso não cair em exageros.»

Um abraço de um leitor habitual,

Nuno


De Ricardo Nobre a 1 de Agosto de 2008 às 19:01
Estimado Nuno,

Fala de "erros" onde eu vejo opções perfeitamente legítimas de pontuação. Irei referir todos os casos em questão, mas desde já chamo a sua atenção para o facto de eu usar há vários meses a Oxford comma neste blogue.

Obrigado pelas suas observações. Por favor, continue a dá-las, pois elas são muito importantes para a continuação deste blogue!


De Nuno Q. a 1 de Agosto de 2008 às 19:19
Caro Ricardo,

Já reparara que utiliza a Oxford Comma; pessoalmente, abomino-a e considero-a um enxerto inútil.

A separação daquele advérbio de modo é que me parece totalmente desnecessária e introduz pausas que, na realidade, não existem ou, a existirem, são uma questão de entoação e não de pontuação.

«Na realidade, a pontuação não deve depender do arbítrio de cada um: ela deve subordinar-se a princípios da lógica do pensamento, de certas regras da sintaxe gramatical. [...]. Muitos supõem que a pontuação de um escrito qualquer deve obedecer à entonação que imprimimos à leitura desse escrito. Isso é verdade em parte, e em parte não é verdade: a pontuação e a entonação devem jogar uma com a outra, desde que a entonação seja racional.» («Prólogo», Guia Alfabética de Pontuação de Rodrigo de Sá Nogueira).

Aceite mais um abraço,

Nuno


De Ricardo Nobre a 1 de Agosto de 2008 às 21:22
Nuno,

Agradeço mais este reparo. A reflexão sobre os sinais de pontuação está "in fieri" e não reúne consenso nas obras que consultei.
Não vou aqui debater as qualidades sintácticas da Oxford comma , remetendo, desde já, para o texto que há-de ser publicado sobre vírgulas.
Tal como o "desde já" da frase em cima, o advérbio "primordialmente" está entre vírgulas (a que vou chamar "de estilo"): não são obrigatórias, mas o seu emprego deve-se a questões que estão mais longe da entoação do que de retórica; no caso, as vírgulas atribuem uma função apositiva à palavra que isolam. Note que a frase funcionaria perfeitamente bem sem a presença de "primordialmente", que é uma especificação.
Na obra de R. Sá Nogueira que cita (não vou fazer, por agora, comentários acerca das qualidades da Guia Alfabética), o autor apenas considera errado o uso da vírgula quando estão em causa advérbios de modo do tipo "bem": "Ele trabalha bem". Repare-se, por outro lado, na agramaticalidade de um enunciado do tipo "Ele trabalha primordialmente". Não é por a tradição gramatical incluir bem e primordialmente na categoria de advérbio de modo que eles devem ser tratados da mesma maneira, desde logo porque há muitas outras questões a ter em conta na classificação dos advérbios (que não as puramente semânticas).

Abraço


De Nuno Q. a 1 de Agosto de 2008 às 21:41
Caro Ricardo,

Quando «não obrigatórias», as vírgulas geram apenas ruído no texto, fazendo com que a leitura avance aos soluços. Se são desnessárias, omitam-se, e dê-se liberdade ao leitor de introduzir as pausas que tiver por convenientes.

É uma questão de economia textual. Perdoe-me a expressão inglesa: less is more. Talvez seja esta a grande lição, enquanto profissional da escrita, que tenho aprendido nos últimos tempos (e toda a aprendizagem é, por natureza, sempre interminável).

Perdoe-me o desabafo e a longa intervenção. Vou continuar a lê-lo atentamente.

Abraço,

Nuno


De Ricardo Nobre a 1 de Agosto de 2008 às 22:13
Não vou continuar a defender o uso daquelas vírgulas, pois quando se trata de pontuação opcional nada é inteiramente justificável. Por outro lado, tentei mostrar por que razão as usei e que, quer se opte por usá-las ou não, o seu emprego não deve ser considerado erro nem desvio.
Estou de acordo quanto às vantagens de uma parca utilização da pontuação. Aliás, o segundo texto que vou publicar sobre pontuação (lá para a próxima semana) terá como tópico os estilos "brando e pesado" dos sinais de pontuação.

O Nuno não tem nada que pedir desculpa: como disse, as opiniões de leitores informados são sempre bem-vindas. Apareça sempre.

Um abraço do
Ricardo


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