Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
A TSF noticia que dados do INE revelam que o desemprego entre os licenciados aumentou 61% em três anos, sendo 9% os que se licenciaram nas áreas de ciência e tecnologia. A área das ciências sociais (educação, artes, humanidades, psicologia, sociologia, direito, jornalismo) é a que tem mais desempregados. Pensa-se que actualmente há 47 mil desempregados que têm uma licenciatura.
Tinha ficado antes prometido que, na sequência da Reportagem TSF de 18 de Janeiro, eu haveria de comentar essa realidade, mas, por motivos diversos, acabei por adiar o assunto. Vamos lá ver.
Toda a gente sabe que é difícil arranjar emprego em determinadas áreas do saber, como as estatísticas que referi revelam. Toda a gente sabe que é difícil, senão impossível, um recém-licenciado chegar a ser professor, seja de que área for. Toda a gente sabe que o “mercado de trabalho” não absorve historiadores, sociólogos, antropólogos... porque as “empresas” precisam, de um lado, de gestores, e, de outro, mão-de-obra qualificada para mexer nas máquinas, computadores.
Mas há alunos e famílias que continuam a investir na formação nessas outras áreas. É possível dizer a um estudante da área das artes que “vá para informática”? Só se o estudante de artes fosse mentecapto (o que o desqualificaria para a área das artes). Claro que se pode sempre argumentar que, se segue a área que sabe “saturada”, sujeita-se... mas o que é uma área saturada?

Ninguém dirá que temos historiadores a mais em Portugal. A Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional, e as dezenas de Arquivos distritais do país estão cheios de documentos de várias épocas que nunca foram estudados por ninguém. Há falta de historiadores?
Está, em Portugal, o trabalho no âmbito da sociologia, psicologia, antropologia concluído? A sociedade não precisa de mais professores de Literatura? Estamos bem servidos de professores? É óbvio que não. Há pessoas que não são licenciadas que estão a dar aulas há anos. É preciso afastar essas pessoas, metê-las em bibliotecas, museus, etc.: é preciso ir buscar os que se licenciaram em locais adequados para os meter a trabalhar nas suas áreas. E dar-lhes meios. Há escolas nalguns locais (não só nas grandes periferias urbanas, mas também mais isoladas, no interior) onde sociólogos e psicólogos deveriam poder actuar, junto de professores, a fim de resolver sérios problemas de indisciplina e insucesso escolar, por exemplo. Não precisamos que todos sejam alunos brilhantes porque vamos continuar a precisar de cantoneiros, pedreiros, jardineiros, coveiros. Mas continuamos a desperdiçar cérebros.
Há pessoas formadas na área das artes que estão desempregadas. Isto significa que Portugal é um país de artistas? Sinceramente, só me consigo lembrar que Paula Rego vive em Londres. Talvez o problema dos que nasceram para artistas (pintores, músicos, arquitectos) seja terem nascido em Portugal e não terem a oportunidade de sair de cá. (Se todos os projectos de construção de uma câmara municipal precisassem que um arquitecto os supervisionasse, talvez não se construísse tão mal em Portugal.)
Há pessoas licenciadas em direito que não têm emprego. Deve-se esta situação ao facto de os tribunais funcionarem sem problemas, num mundo em que os processos são resolvidos com celeridade com os meios que há? Então por que motivo o mercado de trabalho não absorve os recém-licenciados?
Há licenciados em Linguística desempregados. Mas não há uma boa gramática de português de nível médio. Não há um bom dicionário de referência de português europeu (sei que está, finalmente, a ser feito um). As editoras precisam de mais e mais revisores, as empresas de “marketing” também precisam de consultores linguísticos. Uma Europa que fala tantas línguas precisa de muitos tradutores e intérpretes. Há todo um caminho a percorrer na área de investigação em literaturas e culturas estrangeiras. Não há uma História da Literatura Inglesa feita por portugueses, por exemplo... Trabalho não falta, mas ninguém o faz.
Não se pode dizer que há jornalistas a mais quando vemos, ouvimos, e lemos notícias iguais em todos os canais, jornais, estações, sítios. Há uma versão de uma agência de notícias que (não) é reescrita nas diversas redacções. Para fazer traduções e adaptações não é preciso ter um curso de jornalismo. Era preciso mais. Não sei o quê, mas era preciso muito mais nesta área.

É preciso notar que o que foi dito é apenas exemplificativo de algumas realidades (não falei da Filosofia, mas poderia ter perguntado quantos filósofos portugueses entraram para a História, que correntes filosóficas criámos?). A falta de meios, por um lado, não pode ser suplantada apenas pelo Estado — mas para que é que serve o mecenato? Ouço todos os dias que as grandes empresas portuguesas têm lucros de milhões e milhões de euros. Porque não investi-los nos cérebros que estão parados? Não apenas em laboratórios, mas em estudos das humanidades e nas artes. Fala-se tanto em parcerias de empresas com universidades. Não podemos meter formandos nas áreas de ciências sociais e artes a estagiar em empresas a fazer o que gestores e economistas farão, mas as empresas podem com facilidade incitar estudos sociológicos e antropológicos da sociedade portuguesa, por exemplo. Podem patrocinar a publicação de estudos de História de Portugal, de linguística, de literatura, que servem para consolidar o conhecimento do Homem.
São exemplos...

É lamentável que estejamos a desperdiçar a tal geração mais bem formada de sempre. É lamentável que se pergunte “e isso serve para quê?” quando se fica a saber que o filho da vizinha estuda línguas, literaturas e culturas. Os estudos nas áreas do saber e da cultura (como são as ciências sociais e humanas e as artes) são menorizados porque desadequados para a economia de mercado, uma vez que não se inserem na lógica de lucro que domina o nosso imaginário.
O sonho da classe média é a continuação da espécie: constituir família, ter um carro que atafulha de todo o tipo de porcarias para ir passar duas semanas ao Algarve no Verão. É a classe que não se quer chatear e perder 10 minutos a ir votar, que não perde tempo para ter curiosidade, bastando ver o Quem quer ser milionário? para aumentar a cultura geral — mas que não dispensa um documentário no National Geographic, “porque gosta de bichos”, ou uma coisa mais “científica” no Discovery.
Nem toda a gente pensa assim porque, felizmente, há pessoas que têm espírito livre e gosto pelo saber. Não nos podemos nunca esquecer de que as tais ciências sociais e humanas são as que formam o livre pensamento.
Mas em Portugal pensa-se pouco.

Ligar
+ à Reportagem TSF “Vidas por um canudo


publicado por Ricardo Nobre às 09:15 | referência | comentar

2 comentários:
De Alguem Revoltado a 10 de Março de 2009 às 21:47
Sou estudante do 1º ano, na licenciatura de Sociologia, no ISCTE. Como tal, sei qual a gravidade destes dados e realmente assusta-me o que possa acontecer; neste momento, sinto-me completamente perdida e não faço ideia do que será melhor para mim: será ser fiel a mim mesma e continuar a estudar aquilo que goste (e esperar, simultaneamente, que Portugal comece a pensar e a verificar que esta é, sem duvida, uma área na qual tem de apostar) ou deverei ser uma espécie de máquina e ir para o Técnico? (sem qualquer ofensa aos estudantes - que são maginificos - de lá). Como eu, há vários. Varios futuros-desempregados.
Como é possível estar motivado para saber que, ao fim de 3 anos, de estarmos a estudar e a bolsar (sim, porque as faculdades públicas acabam por, também, privatizarem) vamos ser desempregados? Resta esperar...


De Sofia a 6 de Outubro de 2009 às 23:27
Sou uma Técnica de Diagnóstico e Terapêutica, não sei até quando me poderei considerar "recém-licenciada" uma vez que já completei a Licenciatura há 1 ano e 2 meses. 432 dias de angústia e 431 noites de insónia. Estou farta de fazer estágios não remunerados nos quais não me pagam um tostão, nem subsídio de almoço, nem deslocação, NADA. E eu dou tudo em troca de uma oportunidade para ganhar experiência e para ajudar as pessoas, para aprender, para evoluir. Nada disto é valorizado, pelo contrário, quanto mais tempo passa mais me ignoram e menos se importam.
O desespero começa a bater fundo e já se pensa em desistir.
Deixo este comentário como Anónimo em homenagem aos tantos Recém-Licenciados Anónimos que vão passar mais uma noite mal dormida e angustiada.


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