Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007
Acabou há instantes o colóquio A Sexualidade no Mundo Antigo. Como balanço, convido à leitura deste artigo, que saiu hoje no PÚBLICO, da autoria de Alexandra do Prado Coelho (com ligeiras correcções).

Sexo e Arte Há — três mil anos havia menos tabus?

A prostituição em Roma
Em Portugal, vários professores universitários juntaram-se (...) para, durante um período (...) de (...) três dias, não falarem de mais nada se não de sexo. Num colóquio que termina hoje na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, especialistas de várias áreas da História1 discutiram A Sexualidade no Mundo Antigo (...).
A vida sexual na Roma antiga, por exemplo, tinha tão poucos tabus como parece nas séries de televisão? “A prostituição não era propriamente elogiada, aliás quem a exercia estava na base da pirâmide social, mas era vista como totalmente necessária”, explica Nuno Simões Rodrigues, da Universidade de Lisboa, que, no colóquio, falou precisamente sobre “Os submundos da sexualidade em Roma”. “As matronas, senhoras da aristocracia, muitas vezes mantinham as escravas como prostitutas, ganhando dinheiro para elas próprias, e tendo os maridos, os filhos ou os pais como clientes.”
A distinção entre as senhoras respeitáveis e as que não o eram baseava-se num tabu mais de natureza social do que sexual. “Tinha de haver as mulheres sobre as quais não existia suspeita em relação à paternidade dos filhos, as que dão aos homens os filhos legítimos”, diz Simões Rodrigues. Essa é a razão por que o adultério era tabu — “não tanto por causa do sexo, mas pelas consequências que o acto tinha para a comunidade”. Por isso, conta, houve mesmo matronas que, acusadas de adultério, pediram para ser inscritas junto do edil como prostitutas. “Apesar de ser uma queda de estatuto social, isto mostra que o estigma não era assim tão grande.”
Um dos grandes tabus da actualidade — a pedofilia — não fazia, aparentemente, parte das preocupações dos romanos antigos. Simões Rodrigues recorda que, no Satyricon, Petrónio relata uma festa em casa de uma matrona que, para divertir os convidados, organiza como espectáculo a iniciação sexual de uma menina de sete anos.

Homossexualidade tabu
Havia, contudo, outros tabus. Se o sexo com prostitutas ou prostitutos não era mal visto — os escravos eram apenas objectos sexuais — já a homossexualidade entre dois “homens livres” era duramente condenada, porque implicava “usar como elemento passivo um homem de nascimento livre”, levantando também aqui uma questão mais de natureza social do que sexual.
A ideia, por outro lado, de que a homossexualidade masculina era perfeitamente aceite pelos gregos antigos — e lá estariam os vasos para o provar — pode ser um mito que fomos construindo, como muitos outros relativos à sexualidade dos antigos, afirma Frederico Lourenço. Foi isso, aliás, que explicou na sua intervenção sobre “Homossexualidade masculina e cultura grega”. “A intolerância existia na Grécia antiga como existe hoje. E tinha muito a ver com a ideia de que o homem que se demite do seu papel de homem não merece respeito, o que também está ligado à visão negativa em relação às mulheres.” Tal como em Roma, também na Grécia existia legislação condenando os homens livres que “desempenhassem um papel passivo” na relação sexual.
O amor, sobre o qual Platão escreve, entre um homem mais velho e um rapaz mais novo, era rodeado de grande pudor. “Mesmo nas representações na cerâmica, as posições sexuais tinham que ser não penetrativas, de respeito pela integridade física”, e a expectativa era de que esses jovens viessem a casar e a ter uma família. Os gregos antigos, defende Frederico Lourenço, “não compreenderiam aquilo a que chamamos hoje homossexualidade”.

O mito da Mesopotâmia
(...)
Tal como na Grécia, as mulheres têm um estatuto claramente inferior. Maria de Fátima Silva, da Universidade de Coimbra, reconhece que, em termos legais, era assim na sociedade grega, mas lembra a Lisístrata, comédia de Aristófanes, recentemente recuperada a propósito da guerra do Iraque. Aí, as mulheres “conduzem uma espécie de revolução feminina em que, pela greve ao sexo, obrigam os maridos a fazerem a paz”. Foi nessa Grécia patriarcal que surgiu uma ideia como esta, sublinha Maria de Fátima Silva: as mulheres possuem uma arma que é o sexo e com ela podem dominar a agressividade masculina.
E, no entanto, contrapõe Luís Manuel de Araújo, egiptólogo da Universidade de Lisboa, foram os gregos que vieram introduzir “uma certa boçalidade” nas imagens de “erotismo recatado, inteligente”, que era o dos egípcios antigos. O sexo estava também muito presente no Egipto Antigo, pelo menos é o que nos dizem as imagens gravadas em templos e túmulos, as representações de deuses com grande potência sexual “que dialogam com faraós e reis numa familiaridade despida de preconceitos”.
“O erotismo egípcio”, explica, “não privilegia muito a imagem da mulher nua, prefere cobri-la com linho transparante, ou tecido molhado colado ao corpo”. Quando a influência grega começa a fazer-se sentir, no século VII a.C., “acaba-se o refinamento e os egípcios começam a despir as suas deusas”, e as cenas de erotismo passam “a jogar mais com o irónico do que com o erótico”.

Antes e depois de Cristo
No Antigo Egipto, o sexo não podia ter uma carga negativa, porque “os exemplos vinham de cima, dos deuses”. É, aliás, um deus criador, Atum, que forma a Terra a partir da masturbação, diz Luís Manuel de Araújo.
Esta ideia de divindades com vida sexual (e bastante activa) desaparece com o monoteísmo. E “a noção do pecado surge [na Mesopotâmia] com os semitas, 1700 ou 1800 anos antes de Cristo”, afirma Maria de Lurdes Palma. (...)



Nota
1 Não foram só especialistas da área da História, pois muitos eram da área das Literaturas Clássicas, da Religião, e de Filosofia.



publicado por Ricardo Nobre às 18:57 | referência | comentar

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