Sábado, 11 de Novembro de 2006
Para quem ainda não sabe, ocupo três tardes por semana a dar explicações. Não o faço por conta própria, mas sim para um centro de explicações ao domicílio. Todas as aulas decorrem uma vez por semana, durante uma hora. Nas normas do centro, está estabelecido que os professores têm total liberdade pedagógica, a fim de poder adoptar os melhores métodos para levar cada caso a um caso de sucesso.
Até quinta, um dos miúdos a que dei aulas de Português e Filosofia, do 10.º ano, tinha sofrido bastante de uma doença que ainda deixou sequelas, como a perda de memória e cansaço rápido. As notas dos primeiros testes foram desanimadoras para qualquer um. Negativas muito baixas, nomeadamente o 2,5 a Português.
Dei-lhe sete aulas, entre Português e Filosofia, contando com a da quinta-feira, que seria, a pedido da mãe, para corrigir o teste de Filosofia. Claro que a partir de então eu pensava mudar de estratégia, pois tenho liberdade pedagógica para o fazer. As sessões semanais não poderiam ser desperdiçadas a fazer trabalhos de casa – se o aluno mostra dificuldades em reter o que é a holonímia ou meronímia, então o melhor é trabalharmos a interpretação de texto, já que ele está num nível quase analfabeto. Assim, conseguiria resultados não só em Português, como em Filosofia, Biologia, e em Húngaro, se o estudasse.
Confrontada com o facto de, numa hora, não termos resolvido o teste de Filosofia, já que eu não queria limitar-me a ditar as respostas, queria que o aluno procurasse no manual a matéria, que poderia até copiar, mas importava que ele se esforçasse – confrontada com esse facto, dizia, a mãe disse que assim não servia de nada. Porque assim o filho ia chegar à escola no dia seguinte sem o exercício feito e seria enxovalhado. Eu retorqui que o trabalho teria sido concluído se ele já tivesse, pelo menos, preparado alguns tópicos de resposta.
Mas o aluno tem de descansar, tem muitas aulas, além do que, o que é ainda mais triste, é analfabeto funcional. Esta última razão não foi apontada pela mãe, que me disse que no ano passado a explicadora era uma “querida” que “levava isto [o enunciado do teste] para casa e amanhã de manhã estava lá em baixo na caixa do correio”. Deste modo, o filho não seria enxovalhado na escola.
Não seria enxovalhado na entrega de um exercício, mas continuaria a sê-lo na recepção de testes – ele seria um aluno que entregaria trabalhos sem ter feito um único raciocínio, sem fazer ideia do que ia ali escrito.
A mãe respondeu-me que queria alguém que a apoiasse, pois o aluno tem dificuldades. Eu disse que fazer os trabalhos em vez do aluno muito dificilmente é apoiar. Eu disse que fazê-lo seria uma desonestidade sem tamanho. A senhora ainda perguntou, como se dúvidas houvesse, se eu não a ia ajudar — eu já a tinha informado que ela teria de entrar em contacto com o centro de explicações para que lhe arranjassem outra pessoa porque não trabalho assim, por isso reiterei a resposta: nunca na minha vida o faria.
Seguiu-se a resposta vulgar: o senhor não tem filhos? Vê-se logo que não.
Eu retorqui: não tenho, mas se tivesse, fique certa de que nunca lhe faria o trabalho de casa sem que ele tirasse algum proveito do facto.
Finalmente, a senhora terminou a conversa com um “vamos ficar por aqui que eu já não estou em mim e o senhor mantém essa pose de muito certinho e muito correcto”.
Pedi desculpa ao aluno por não poder ajudá-lo — não como a mãe quer, mas como eu queria — e desejei-lhe os maiores sucessos para a vida.
Saí.
Mais tarde ainda pensei no que se vai tornar aquele miúdo, se a mãe continua a comprar o seu sucesso. O que vai ser de uma pessoa que, sob protecção da mãe, não sabe que a vida se conquista com esforço e dedicação?

Por outro lado, entendi porque era ele tão disfuncionalmente analfabeto. Se a explicadora não o ajudava como devia, é natural que ele esteja num nível tão baixo e tão negativo. Chamo a atenção de todos os professores profissionais que acautelem os trabalhos de casa dos seus alunos, pois há sempre por aí “explicadores” que são “fazedores de trabalhos” dos meninos. Quer eles tenham problemas de saúde ou não...


publicado por Ricardo Nobre às 09:32 | referência | comentar

2 comentários:
De Manuel a 12 de Novembro de 2006 às 13:01
Obrigado pelo aviso Ricardo.

Até agora nada...


De Anónimo a 3 de Janeiro de 2012 às 19:32
gostei muito do seu artigo e concordo 100% com a sua postura. Amanhã vou dar a minha primeira explicação e fiquei satisfeita ao perceber que a minha estratégia vai de encontro com alguém experiente. o caso do meu explicando é semelhante ao que relatou.


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