Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
Os concorrentes do Campeonato da Língua Portuguesa receberam o seguinte comunicado da Comissão Técnico-científica, a propósito do primeiro texto do segundo teste:

A Comissão Técnico-científica do Campeonato da Língua Portuguesa apreciou atentamente as opiniões dos concorrentes reclamando acerca de várias questões respeitando ao primeiro texto do 2.º Teste. Analisadas as considerações que quiseram fazer o favor de enviar, foi parecer da CTC que as circunstâncias decorrentes aconselhariam a uma decisão que ultrapassasse não apenas os erros realmente existentes, mas também as questões que, podendo ser mais polémicas, não facilitariam a superação integral do problema criado.
Assim, a CTC toma a decisão de neutralizar essa pergunta, atribuindo a todos os concorrentes o ponto respectivo.
Certamente que algumas das questões apresentadas não são pacíficas nem constituem erro, como explicaremos. Como a acção da CTC não deve ser ficar-se pela tentativa singela de solucionar diferendos, numa perspectiva pedagógica e de troca de impressões juntamos a esta nota o nosso parecer sobre cada uma das questões levantadas.
(...)

«Ninguém dá mais um paço»
Comecemos pelo erro «paço», que deve ser corrigido pela palavra correcta «passo».
Quanto ao imperativo negativo, não pode ser considerado errado, embora no português da norma seja: «Ninguém dê mais um passo». No entanto, conforme já foi mesmo referido por um dos participantes que contestou a construção da frase, «certos tempos do indicativo podem ser utilizados com valor de imperativo». Na pág.477 da Gramática de referência é enunciado o seguinte: «Com o presente atenuamos a rudeza da forma imperativa»
Mas, por vezes, esta forma do presente do indicativo em vez de atenuar a rudeza da forma imperativa, intensifica a ordem, tornando-a mais peremptória, pela forma oral utilizada. É o caso desta frase.

«Não via um palmo diante do nariz»
De facto, a frase idiomática habitual é «não via um palmo adiante do nariz».
A diferença, porém, entre «adiante» e «diante» é praticamente nula, pois «diante» significa «na frente», «defronte», «em frente de».
«Adiante» significa «na frente», «em tempo futuro», «depois». Haveria, certamente, mais legitimidade em dizer-se «diante do nariz», mas o povo, por vezes, acrescenta «a», no princípio da palavra (fenómeno fonético denominado «prótese») (Exemplos: «alevanta» em vez de «levanta», «amanda» em vez de «manda»). Daí que «não via nada diante do nariz» (por causa do nevoeiro) tem todo o sentido.
Não há no dicionário de referência nada que diga que «não ver um palmo diante do nariz» significa «ser estúpido» diferentemente de «não ver um palmo adiante do nariz» que significaria (segundo um participante) apenas «não ver nada». Ora esta expressão idiomática pode ter ambas conotações.

«Tivéssemos unidos»
Esta frase aparece em vez de «estivéssemos unidos». A situação é muito diferente da que se apresenta na anterior, pois aqui há um erro. A supressão da primeira sílaba transforma o verbo «estar» em «ter», dando-lhe um sentido totalmente diferente. Por isso, não se pode aceitar este erro, mesmo entre participantes com menos de 15 anos, porque não é um caso de oralidade ou de expressão popular, mas de pura falta de conhecimento ou desleixo, que, infelizmente, encontramos em muitos adultos.

«Poder-nos-ia ter sucedido alguma desgraça»
Em relação ao reparo que alguém fez sobre a construção desta frase, considerando-a errada, cumpre-nos dizer o seguinte, acompanhando a própria argumentação desse participante:
Invocando a pág.316 do capítulo «Pronomes Pessoais – colocação dos pronomes átonos» da Gramática de referência, leia-se:
«Quando o verbo principal está no particípio, o pronome átono não pode vir depois dele. Virá, então, proclítico ou enclítico ao verbo auxiliar, de acordo com as normas expostas para os verbos na forma simples. Exemplos: «Tenho-o trazido sempre». «Que se teria passado?»
A partir desta citação, o participante conclui que seria antes correcto dizer: «Poderia ter-nos sucedido».
O que acontece, porém, é que, na frase em questão, há dois verbos principais: «poder» no futuro perfeito, conjugado reflexamente, e «suceder», no infinito composto. Por isso, esta construção está correcta, segundo as normas da conjugação verbal do futuro perfeito («poder-nos-ia ter sucedido»).
Mas vejamos uma outra hipótese registada na mesma Gramática de referência, na pág.318, que se poderá aplicar à mesma frase e que se adequa melhor a este exemplo.
Tendo em conta a colocação dos pronomes átonos no Brasil, diz a Gramática:
«Pôde-se pôr o pronome depois dos futuros (do presente e do passado) (exemplo: poderá se reduzir», «poderia se reduzir». Deixando de ligar-se aos futuros, para unir-se ao infinitivo, deixou igualmente de interpor-se-lhes aos elementos constitutivos.»
Portanto, o que a Gramática de referência aqui refere não é uma regra, mas apenas uma proposta, ou melhor, uma liberdade de aplicação («Pôde-se pôr»).
Assim, é correcta a frase:
«Poderia nos ter sucedido», o que não invalida a frase em questão: «Poder-nos-ia ter sucedido….»

Serros e cerros
Ao elaborar-se o texto, tinha-se em mente a palavra «cerros», que significa «outeiro, pequena elevação de terreno», amplamente empregada por escritores célebres como Eça de Queirós, Aquilino Ribeiro, Camilo, etc. Por isso, o primeiro ímpeto foi marcar erro à palavra «serros». Mas o que é certo é que «serros» está registada com o sentido de «serrania, conjunto de serras, aresta de monte, espinhaço». Desta forma, optámos, então, por não marcar erro, visto que a palavra existe e é empregada na mesma área semântica.


A isto, reagi assim:

Exmos Senhores,

Aproveito o clima de polémica em que o concurso se encontra envolvido para terminar a minha participação, desejando que para o ano, a haver campeonato, a CTC seja constituída por linguistas e não por amadores do estudo científico da língua.

Com os meus melhores cumprimentos,
Ricardo Nobre



publicado por Ricardo Nobre às 20:51 | referência | comentar

4 comentários:
De Anónimo a 26 de Fevereiro de 2008 às 21:33
Pois... Eu também reagi de imediato. Prefiro partilhar o teor da minha reclamação por email, mas acho uma piada incrível ao sentido de coisas como "poder-nos-ia ter sucedido" não constitui erro, mas vamos permitir que quem tenha assinalado como tal tenha uma hipótese de se igualar àqueles que viram mais um palmo à frente do nariz, que é para isto ser mais giro e não romper com a tradição dos outros anos. Aliás, porque não permiti-lo a todos quantos vêem erros onde os não há e, já agora, a quem não veja os que lá estão? Assim ninguém errava, passavam todos, e escusava de haver quem achasse que não dominava a sua língua, que é cá coisa que faz mal à auto-estima.

... A CTC tem boas intenções, portanto!

APC


De Anónimo a 26 de Fevereiro de 2008 às 21:58
Ah, e já agora: desculpem lá, mas é que a gente não conhecia a palavra "serro" (e nem sequer nos lembrámos de a ir ver ao dicionário antes de a pormos no texto, calculem!), por isso achámos que seria erro, agora não temos moral para corrigir quem achou o mesmo, como devem compreender!

Ora, façam-me o favor!...

APC


De Zé Pedro a 27 de Fevereiro de 2008 às 00:41
Boa-noite

Por mim, respondi-lhes imediatamente, mas não estranho estes desmandos daquela gente.

Em quatro edições de C(N)LP houve sempre asneirada; de cada vez que se propuseram corrigir o mal, agravaram a situação.

E isto ainda não acabou...

O que me espanta é o facto dos decisores, membros das comissões que largam os carcanhóis, teimarem em manter no activo quem só provou ser incompetente; "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és"; "em terra de cegos, quem tem um olho é rei", mas nós, que temos dois olhos, e bem abertos, não receamos afirmar: O REI VAI NU!

Zé Pedro


De Anónimo a 27 de Fevereiro de 2008 às 00:56
Caro Ricardo:
Sou o Anónimo que, logo desde o início, tentou preveni-lo contra a incompetência da CTC. Penso que só há uma maneira de acabar com isto: se os seis finalistas séniores tiverem a coragem de boicotar a prova em directo, e de uma forma mais dura e mais clara que aquela usada pelo Manuel Silva em 2007, os patrocinadores serão obrigados a mandar esta gente da CTC para a rua. Daí que o meu conselho seria: continue, vá à Final, e tente ser um dos seis finalistas. É o que eu, e mais uns quantos, estamos a tentar fazer. Daí a necessidade deste anonimato...


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