Sexta-feira, 21 de Março de 2008
Este artigo pretende distinguir os valores gramaticais do par homófono se não/ senão.

I. Bibliografia
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Lisboa: Círculo de Leitores, 2002–2003). Versão original em linha.
Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Lisboa: Academia das Ciências, Editorial Verbo, 2001).
Dicionário Verbo da Língua Portuguesa (Lisboa: Editorial Verbo, 2006).
COSTA, J. Almeida e A. Sampaio e Melo, Dicionário da Língua Portuguesa (8.ª edição, Porto: Porto Editora, 1998).
DIAS, Augusto Epiphanio da Silva, Syntaxe Histórica Portuguesa (4.ª edição, Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1959).
GOMES, Aldónio e Fernanda Cavacas, Escrever Direito — Ortografia (Lisboa: Clássica Editora, 2005).
GONÇALVES, Francisco Rebelo, Vocabulário da Língua Portuguesa (Coimbra: Coimbra Editora, 1966).
HUDDLESTON, Rodney e Geoffrey K. Pullum, The Cambridge Grammar of the English Language (Cambridge: Cambridge University Press, 2002).
Léxico Multifuncional Computorizado do Português Contemporâneo.
MATEUS, Maria Helena Mira et aliae, Gramática da Língua Portuguesa (5.ª edição, Lisboa: Editorial Caminho, 2003).
MOURA, José de Almeida, Gramática do Português Actual (Lisboa: Lisboa Editora, 2003).
PERES, J. A. e T. Móia, Áreas Críticas da Língua Portuguesa (2.ª edição, Lisboa: Editorial Caminho, 2003).
PINTO, José Manuel de Castro, Maria do Céu Vieira Lopes, e Manuela Neves, Gramática do Português Moderno (Lisboa: Plátano Editora, 1999).
PINTO, José Manuel de Castro, Manual Prático de Ortografia (2.ª edição, Lisboa: Plátano Editora, 1998).
Foram ainda consultados manuais de ortografia e prontuários, mas que pouco ajudaram neste estudo, de maneira que é escusado citá-los.
Os exemplos que não são inéditos foram recolhidos dessas obras e do CETEMPúblico.


II. Se não
Valores da expressão “se não”.
1) conjunção subordinativa circunstancial condicional se e advérbio de negação não
Exprime uma condição, negando-a. Introduz uma oração subordinada circunstancial condicional (negativa), pelo que, de acordo com o comportamento das orações subordinadas, tem certa mobilidade na frase.

EX1: Vou à baixa se não chover — cf. se não chover, vou à baixa.
EX2: Aparece cá em casa, se não, avisa — cf. se não apareceres cá em casa, avisa.
OBS1: O EX2 pode ser reanalisado do seguinte modo: “aparece cá em casa, senão avisa”, em que senão já não é conjunção condicional negada, sendo agramatical a mobilidade desse sintagma — *senão avisa, aparece cá em casa. Para a correcta grafia destas alternativas, é preciso ter em atenção a pontuação (no caso, a vírgula) da frase.


2) advérbio interrogativo (considerado no Brasil conjunção completiva) se e advérbio de negação não
Introduz uma oração subordinada interrogativa indirecta (ou completiva, na análise brasileira) na forma negativa. Não tem a mobilidade da oração anterior, e completa verbos como dizer, perguntar, inquirir, interrogar, e outros. Tem equivalente em interrogações directas, em que se não é realizado.

EX4: Perguntei-lhe se não estava interessado em comprar o carro — cf. perguntei-lhe: não estás interessado em comprar o carro?
EX5: Diz-me se não queres comer — cf. diz-me: não queres comer?
OBS2: A oração introduzida por se numa frase como “avisa se não almoçares em casa” é condicional, equivalente a “se não almoçares em casa, avisa”.
OBS3: v. dicionário da Academia s.v. “se”, 2.III, e cf., e.g., J. A. Peres e T. Móia, Áreas Críticas da Língua Portuguesa, 93.


3) partícula apassivante se e advérbio de negação não
Uso menos frequente. A ordem normal seria “não se”, mas em construções indutoras de próclise verificam-se exemplos como estes:

EX6: No momento actual, em que se não respeitam os professores, há exemplos de violência nas escolas.
EX7: As coisas que se não fazem para explicar a gramática!




III. Senão
A classificação de senão reúne menos consenso. Verifiquei nos dicionários, gramáticas, e prontuários os piores defeitos da gramática tradicional: o empírico e o intuitivo. Há quem simplifique demasiado e há quem complexifique em excesso... e há quem cometa erros.
A partir da teorização gramatical mais recente, podem isolar-se os seguintes valores.
1) substantivo
Sinónimo de “inconveniente”, “problema”, “defeito”, “deficiência”, etc.

EX8: A ideia é interessante, mas há um senão...
EX9: Não há bela sem senão.



2) conjunção
“As conjunções são palavras morfologicamente não flexionáveis que veiculam prototipicamente valores de adição, alternância ou contraste entre os termos coordenados. (...) As conjunções distinguem-se dos complementadores (tradicionalmente designados conjunções subordinativas) não só pelos valores que veiculam mas também pelo facto de com eles poderem ocorrer quando os membros coordenados são frases subordinadas”. (M. H. M. Mateus et aliae, Gramática da Língua Portuguesa, 558).
Com o valor de conjunção, há que distinguir diferentes usos de senão:

2.1 conjunção coordenativa copulativa
Este valor (pouco frequente) aparece apenas nas locuções não só... senão também e não só... senão que.

EX10: Não só trouxeram sumos e água, senão também sandes de presunto — cf. trouxeram sumos, água, e sandes de presunto; não só trouxeram sumos e água, mas também sandes de presunto.
OBS4: Ensina Epifânio da Silva Dias, Syntaxe Histórica Portuguesa, 257: “quando o segundo membro é constituido por uma or[ação] com predicado diferente, não se diz simplesmente: senão, mas sim: senão que: não tomou para sy essas novas glorias, senão que todas as quis para elle (Vieira, II, 50)”; cf. ainda Lusíadas, VII, 81: “E ainda, Nymphas minhas, não bastava / Que tamanhas miserias me cercassem, / Senão que aquelles que eu cantando andava / Tal premio de meus versos me tornassem”. Note-se o valor adversativo destes exemplos: cf. 2.2.



2.2 conjunção coordenada adversativa
“A conjunção simples representativa deste valor [de contraste entre membros coordenados] é mas. O português apresenta ainda, embora em menor número de contextos do que outras línguas românicas, a adversativa senão.” (M. H. M. Mateus et aliae, Gramática da Língua Portuguesa, 566). Alerta ainda a gramática para o facto de esta conjunção requerer “a presença de um elemento negativo precedendo-a”, tal como acontece com nem de sentido aditivo.

EX11: Não obteve aplausos nem respeito, senão escárnio e menoscabo.
EX12: O filósofo não era só interessado, senão culto.
EX13: A santidade não consiste em muito contemplar, senão em muito obrar.
OBS5: Este sentido é próximo do de conjunção copulativa, tal como mas o pode ser.



2.3 conjunção coordenada disjuntiva
Quando o sentido que adquire é de alternativa, senão pode ser analisada como conjunção disjuntiva. Aproximando-se de “se não”, as construções são diferentes.

EX14: Toma os medicamentos senão poderás piorar — cf. *senão poderás piorar, toma os medicamentos; se não tomares os medicamentos, poderás piorar; poderás piorar se não tomares os medicamentos.
EX15: Para mim, a UEO deve ser integrada na UE. Senão corre o risco de paralisia, por falta de meios...
EX16: Esta confusão de papéis é que não nos convém: senão o primeiro-ministro ainda acorda a pensar que é o Chefe do Estado.
EX17: E espero que haja descobertas que não tenham a ver com o modelo standard, senão a física começa a tornar-se muito aborrecida...
EX18: É preciso gerir as crises com muito cuidado, senão fazem-se asneiras.
OBS6: Como se viu na OBS1, é importante observar a pontuação, pois, pela colocação de vírgulas, uma frase como “toma os medicamentos, se não, poderás piorar” é gramatical.



3) advérbio
A palavra senão é considerada pela gramática tradicional um “advérbio de exclusão”, assim como apenas, somente, unicamente.
Os advérbios de exclusão, que não modificam nomes, têm comportamentos distintos da maioria dos elementos desta classe.

EX19: A sessão não durou senão até à noite.
EX20: A Ana não comprou esta revista senão ontem.
EX21: A Ana não comprou senão esta revista ontem.
EX22: Não pretendo senão uma coisa, que me encerrem definitivamente no meu pensamento.
OBS7: Num exemplo como “a Ana não comprou senão esta revista ontem”, senão pode ser reanalisado como preposição, se for interpretado como “a Ana ontem não comprou nada sem ser (=excepto) esta revista”. Mas é advérbio quando significa “a Ana comprou apenas (=somente) a revista ontem”. Do mesmo modo, “não pretendo senão uma coisa, que me encerrem definitivamente no meu pensamento” pode entender-se como “apenas pretendo uma coisa...”, ou “pretendo tudo, excepto...”.


Na teoria gramatical mais recente, os advérbios de exclusão denominam-se advérbios focalizadores. Os advérbios podem ser classificados segundo o seu valor restritor, que senão também tem. É obrigatoriamente correlativo de uma expressão negativa (nunca, não, etc.).

OSB8: Celso Cunha, Nova Gramática do Português Contemporâneo adopta a designação “palavras denotativas” para estes advérbios porque “não modificam o verbo, nem o adjectivo, nem outro advérbio”.




4) preposição
Poucas gramáticas referem o tipo de preposições consideradas “acidentais”, de que senão faz parte.
As preposições acidentais atribuem caso nominativo a pronomes pessoais (que ficam, assim, na sua forma recta).

EX23: Todos, senão eu, estiveram presentes no jantar.
EX24: Do deserto, o que é que se espera à partida senão deserto?
EX25: Aqui não há vagatura para mais nada senão ir para o campo e tratar do gado.
EX26: A justiça não terá outra coisa a fazer senão encerrar
EX27: Acabou por ser refém da sua própria estratégia, não lhe restando outra solução senão recandidatar-se em Loulé.


É preposição quando vem antes de grupo nominal ou frase infinitiva.



IV. Esclarecimentos
1) senão não é conjunção (complementador) condicional
Apesar do que dizem algumas obras, senão nunca é conjunção condicional (ou, se se preferir, complementador) porque nunca introduz uma oração subordinada — aliás, senão não tem nada que ver com subordinação, estando sempre ligado, enquanto conjunção, à coordenação.
Sabemos que “a oração subordinada desempenha sempre na subordinante uma função sintáctica (...) e uma função temática” e que “contrariamente ao tradicionalmente assumido, os termos coordenados têm muito pouca mobilidade na frase.” Por isso, não nos é possível escrever “*senão chumbas, estuda”. É precisamente a mobilidade que desambigua os “casos-fronteira” ou “coordenações assimétricas” (M. H. M. Mateus et aliae, Gramática da Língua Portuguesa, 552, 553, e 555). Só é gramaticalmente aceite escrever-se “se não estudas, chumbas” e “chumbas, se não estudas”, que são frases complexas por subordinação e não por coordenação. Esta seria possível em “estuda, senão chumbas” (cf. *senão chumbas, estuda), onde já se deu uma reanálise do valor de senão.

2) A expressão “senão(,) vejamos” não designa um contrário, mas confirma o que foi dito antes. Escreve-se senão.

3) Atente-se à expressão “(eis) senão quando”.


publicado por Ricardo Nobre às 12:30 | referência | comentar

2 comentários:
De Nothing more than me a 25 de Março de 2008 às 22:05
EX12: O filósofo não era só interessado, senão culto.

CNLP 2007: "Ele é distraído, senão parvo".

!?!


De Ricardo a 25 de Março de 2008 às 22:27
...


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