Quarta-feira, 4 de Abril de 2007
Portugal concluiu a escolha do Grande Português há quase duas semanas, mas eu, apesar de a Susana ter reclamado por opinião, mantive-me quieto, porque o tempo não me permitiu sentar para discorrer para o computador ou então, como disse a Carina, porque até sou fã do "Botas". Vejamos...

1. Salazar não foi o pior português, como foi votado no Eixo do Mal há uns meses. Outros terão sido melhores portugueses. Dos candidatos, é-me difícil escolher e nem me interessa fazê-lo.
Salazar tem alguns aspectos muito positivos de governação que conviria relembrar. Não sou historiador, pelo que essa investigação não me cabe — mas certamente que não caberá a historiadores politicamente posicionados na extrema-esquerda.
2. A fraca memória portuguesa não se tem lembrado de que Salazar não nos foi imposto, foi plebiscitado, foi escolhido, pediu-se-lhe que assumisse a pasta das Finanças e depois que formasse governo. Salazar (como outros ditadores, entenda-se) foi escolhido pelo povo que queria sair da situação vivida em Portugal, pois as sérias dificuldades económicas e financeiras em que o país se encontrava reflectiam-se no modo e qualidade de vida de todos. Ele foi o "Salvador".

3. Salazar criou um sistema político juridicamente forte que era impenetrável, um regime centrado na sua figura, daí que se diga ditatorial. Esse regime político formatava a economia, a sociedade e as suas mentalidades, e até mesmo o desporto. Eleições eram encenadas mais para iludir o estrangeiro e as Nações Unidas do que por haver cá dentro quem dissesse "olhe que era melhor vermos a vontade do povo". A falta de oposição é resultado dessa máquina legislativa que proibia os partidos, mas também perseguia quem se mostrasse "descontente", mas "enformava" as pessoas, desde crianças, para certa ideologia que não questionasse opções políticas, posicionamentos económicos, valores tradicionais e... questionáveis.
4. Temos de admirar a construção dessa máquina de propaganda. Dotar um país de centenas e centenas de escolas que ensinam um programa único, tendo em vista formatar gerações e gerações de portugueses, só pode ser genial — quando não perverso, ou não se fizesse essa formatação sentir na mentalidade de tanta gente (papel tutorial do Estado, por exemplo).
Os valores que aí se veiculavam eram os tradicionais, cheios de autoridade (do pai, do Estado, de Deus), recheados de moralidade. Até a disciplina de Latim servia esses propósitos — só se estudavam textos que transmitissem a ideia de virtude e honra... a língua era considerada pura, correcta, sem reviravoltas nas regras.
Não me interpretem mal. Havia algo de bom nesses programas: a consciência de uma História nacional (muitas vezes deformada, mas pelo menos estava lá), o ensino da língua portuguesa, ainda que não "didáctico", representava resultados francamente positivos. Mesmo a exercitação da memória (tabuada, afluentes dos rios, linhas de caminho-de-ferro, o Latim durante CINCO anos) servia para a boa formação do indivíduo. Atrevo-me a dizer que a severidade com que se lidava com a indisciplina faz falta nos dias de hoje...

5. É possível que, como alguns defenderam, que esta "escolha" se justifique pelo descontentamento relativamente à situação actual do país ("no tempo da 'outra senhora' é que era!"). Com Salazar éramos pobres e tínhamos fome, ao mesmo tempo que não tínhamos liberdade, nem honra, nem ambição. Quem votou em Salazar não tem a inteligência que ele teve, não defende só o bem que ele fez.
6. Nada disto quer dizer que a eleição de Salazar como o grande português tenha sido feita por acaso ou por simples ignorância. No entanto, na pastelaria que frequento, ao pé de casa, ouvi no outro dia que a Segunda Guerra Mundial tinha ocorrido de 1942 a 1945. Isto tem de querer dizer alguma coisa.


publicado por Ricardo Nobre às 10:42 | referência | comentar

7 comentários:
De S.V. a 4 de Abril de 2007 às 10:43
sim, muito interessante, mas sabes perfeitamente que, se ele existisse agora, não podias dizer o que te apetece.
olha o meu caso: sei que nao vou ter emprego e que, quando o tiver, os meus alunos serão indisciplinados e ignorantes. Apesar disto, tive a oportunidade de tirar um curso superior; se fosse no tempo do Salazar, a não ser que fosse de uma família abastada, dificilmente ultrapassaria a 4º classe,como aconteceu com o meu pai e com todos os irmão dele. tu poderias ter ido para a guerra colonial, como tantos foram. Qualquer um de nós poderia adoecer e morrer num hospital em Lisboa sozinho, porque a família nem tinha dinheiro para a camioneta, como aconteceu com um irmão do meu pai. Por isso, as coisas positivas que possas apontar serão sempre insignificantes face a tudo o resto, pelo menos para mim.


De Elipse a 5 de Abril de 2007 às 12:54
Não é meu costume contestar a opinião fundamentada de cada pessoa mas neste caso não pode levar a mal que lhe diga que o bem e o mal são conceitos relativos, como muito bem sabe uma pessoa com a sua formação.
Nunca será desejável que alguém se pegue ao poder duante TANTO tempo... doutra forma teríamos de condenar as democracias que, com todos os defeitos que possam ter, são aquilo que nos permite algumas preciosas liberdades.

Acredito que a sua idade não lhe permite outro conhecimento dos factos que não seja o teórico. Doutra forma tenho a certeza que a sua posição seria diferente!

(a minha formação é na área da História, embora esse facto, por si só, não seja o meu absoluto).


De Elipse a 5 de Abril de 2007 às 14:31
ainda assim, a leitura dos seus fundamentos veio ajudar-me a compreender um certo fenómeno que vou percepcionando e que me tem deixado apreensiva. Embora,sendo eu da História, não me seja de todo difícil a compreensão dos ciclos...


De Ricardo a 5 de Abril de 2007 às 15:22
Minhas caras amigas,

Em primeiro lugar, agradeço o interesse que o meu texto vos despertou e, apesar de não costumar comentar comentários, sinto a obrigação de responder a alguns aspectos que tiveram a gentileza de focar, não estando em causa os meus princípios democráticos e de tolerância que não se verificavam no Estado Novo.

1. “se ele existisse agora, não podias dizer o que te apetece”: Pois não, é por isso que prezo a liberdade, e ainda que me irrite algum excesso cometido à sua conta (como o mural amarelo no PN da Faculdade de Letras, agora totalmente vandalizado...), sei que nada de mais precioso pode um regime político oferecer aos seus cidadãos do que a liberdade de expressão e a possibilidade de votar.
2. “tive a oportunidade de tirar um curso superior; se fosse no tempo do Salazar, a não ser que fosse de uma família abastada, dificilmente ultrapassaria a 4º classe,como aconteceu com o meu pai e com todos os irmão dele.”: comigo aconteceria a mesma coisa. O meu “fascínio” quanto à educação do Estado Novo tem que ver com a história da Emilita que é esperta e desembaraçada e que vai ser uma boa dona de casa — ou então a esmola que se dá a um pobre mendigo, que não é dinheiro, mas um prato de sopa. Estou a par dessas restrições e sei da divisão que era feita entre as pessoas “burras”, médias e “inteligentes”, logo na primária.
3. “tu poderias ter ido para a guerra colonial, como tantos foram.”: nem à tropa fui. A guerra colonial foi o principal motivo por que não enunciei o batido argumento de Salazar nos ter livrado da Segunda Guerra Mundial (SGM)... pois meteu-nos noutra não menos deprimente. Além disso, a SGM sempre era entre democracias e ditaduras; mais valia termos entrado nessa do que começado esta, cuja única intervenção militar deveria ou poderia ter sido a evacuação dos portugueses que viviam nos países africanos (se assim entendessem). Foi um erro que nunca foi admitido pelo próprio, o que é compreensível, sendo ele o “Salvador”, não podia errar, tinha de estar certo e tinha de acontecer assim.
4. “Qualquer um de nós poderia adoecer e morrer num hospital em Lisboa sozinho, porque a família nem tinha dinheiro para a camioneta”: ligo isto à pobreza que impossibilitava instrução mais do que a elementar.

5. “o bem e o mal são conceitos relativos”: Penso que seja por isso que o meu texto esteja escrito de forma tão ambígua.
6. “Nunca será desejável que alguém se pegue ao poder duante TANTO tempo”: é por isso mesmo que costumo dizer que quem não vota nem merece a democracia que tem, o que não significa que defenda a ditadura.
7. “a sua idade não lhe permite outro conhecimento dos factos que não seja o teórico”: O meu interesse encontra-se no âmbito do estudo e não numa aplicação à prática daquilo que foi o Estado Novo. Por tudo o que fica dito, afirmo que felizmente que não vivi nesse tempo.
8. “compreensão dos ciclos”: Já Tácito, o meu historiador, tinha a percepção dos ciclos (e espero não fugir à verdade se disser que Tucídides também). E com Tácito concluo.
Encontro nos Annales, mais do que um fascínio literário, uma obra de grande interesse no que diz respeito à valorização da liberdade e condenação de comportamentos a ela contrários: as tentativas de obtenção do poder por meios irregulares são mais do que muitas. O próprio autor, quando refere o poder regular, bom, na justa medida, usa a palavra “principatus”; quando é mau, déspota, ditatorial, diz “dominatio”...
Annales é também uma obra que ensina a viver, que dá lições de vida — sendo os exemplos históricos, como a bela lição de Trásea Peto, senador romano que, em silêncio e sem agitação, abandona o Senado, quando a assembleia se prepara para legislar que os actos mais vis (no caso, a morte de Agripina pelo filho, o imperador Nero) foram cometidos “a bem da nação”. Claro que foi perseguido e morto, mas nunca deixou de defender os valores (estóicos) em que acreditava. A honra e a liberdade, nos Annales estão acima da vida humana, mas não raras vezes saem perdedoras.

Quero que a S.V., a Eclipse e todos os que me lêem entendam que o meu “salazarismo” tem mais que ver com matéria de estudo (da inculcação de valores, principalmente, quer pelos programas escolares, quer pela realização de exposições, construções de pontes, edifícios, estradas... que revela(ri)am a grandeza do nosso país). E censura só dos erros linguísticos que por aí se vêem — mas agora chama-se “revisão de texto”. Com a piada me despeço, agradecendo, mais uma vez, a atenção e a paciência.


De Elipse a 5 de Abril de 2007 às 19:25
meu caro Ricardo, não deixa de ser saudável esta troca de impressões.

enquanto pensava neste seu texto (acredite que me deixou pensativa durante toda a tarde),lembrava os textos do livro único da escola primária que falavam em coisas como a água que Salazar pôs nas fontes... as estradas que Salazar mandou construir... e ... "os passarinhos/tão engraçados/fazem os ninhos/ com mil cuidados..."(Afonso Lopes Vieira).

e as páginas do fim tinham assim uma espécie de catecismo que razava assim: pergunta - quem é Deus?; resposta - Deus é nosso pai e Criador; pergunta - onde está Deus?; resposta - deus está em toda a parte e vê-nos em todas as circunstâncias. E assim sucessivamente.
os valores da disciplina e da obediência surtiam efeito, mas misturavam-se com o medo.
Lembrei-me também dos livritos que na Alemanha de Hitler se davam a ler aos meninos, em cujas capas se viam cogumelos venenosos a crescer. Cogumelos que davam pelo nome de judeus.
Uma ditadura é sempre uma ditadura.
Mas percebo-o muito bem quando fala nas aberrações do sistema de ensino actual e na ausência da ideia de grandeza.
Já não temos as colónias para que a grandeza continue a estudar-se e as atrocidades que sabemos terem sido cometidas por Vasco da Gama e Albuquerque retiraram-lhes a heroicidade (com todo o valor que temos de reconhecer-lhes...).
Por outro lado, acompanhamos a tendência de uma Europa que não está a saber envelhecer, Não estamos orgulhosamente sós, nem na desgraça! É o ciclo a fechar-se, não duvido que os europeus queiram de novo a ordem e o respeito.

Desculpe se me alonguei. E não pense que não voltarei a ler a qualidade da sua escrita.


De Susana Alves a 5 de Abril de 2007 às 19:50
Assim é que eu gosto!


De Manuel a 6 de Abril de 2007 às 15:40
hmm...

Não posso deixar de lembrar que aqueles que o regime assassinou:

http://salazarices.blogs.sapo.pt/6490.html

Perante assassinatos, tenho muita pena, mas o resto é conversa...


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