Sexta-feira, 2 de Maio de 2008
Não há dicionários para a variante europeia do português que sejam bons. Há dicionários aceitáveis, que podem ser aconselháveis, e há dicionários maus, mas não há nenhum que seja intocável. Não há nenhum dicionário que esgote o corpus do português ou que sature o leque semântico de todos os vocábulos (ou pelo menos de uma percentagem superior).
Neste cenário, como pode um falante fazer uso saudável dos dicionários que existem no mercado? É simples: com muita cautela.
O ideal seria ter muitos dicionários em casa, para confrontar versões. No entanto, isto poderá representar um impasse: que dicionário tem mais autoridade? Um mais antigo ou um mais recente? Desta ou daquela editora? É por isso que é preciso ter espírito crítico.
Sugiro agora um guia de selecção (consoante a utilização) dos dicionários — porque o dicionário não se mede pelo tamanho nem pelo preço. Estes textos, como qualquer um dos outros neste blogue, não tem fins propagandísticos nem publicitários (porque eu não ganho nada com a compra dos livros de que falo).

1. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências de Lisboa)
Dos dicionários a que me vou referir, é o único que não tenho, mas não dispenso a sua consulta sempre que há necessidade.

Que me lembre, nunca a publicação de um dicionário levantou tanta polémica como aconteceu com este. O aportuguesamento e integração nas nossas normas fonéticas e ortográficas de vocábulos estrangeiros foram os processos mais criticados. Pela primeira vez, um dicionário integrava lobby, stress, hooligan, e muitas outras, trajando essas palavras em português, e sem complexos. No entanto, o que começou uma boa ideia revelou-se caótico e mesmo inaceitável em português: a forma gânguesteres, com acento na anteantepenúltima sílaba, ou o croissã (sendo inédita em português a sequência ortográfica oi com valor fonético de ua). Mas vamos atentar noutros aspectos.
A estrutura dos verbetes é muito aceitável. Depois da entrada (que inclui a flexão dos substantivos, adjectivos, e verbos), surge a transcrição fonética, utilizando-se para tal o Alfabeto Fonético Internacional (o que torna a sua utilização possível por parte de estrangeiros menos familiarizados com a nossa língua, por exemplo). Li críticas totalmente descabidas sobre esta transcrição, por ela registar apenas a variante de Lisboa. É o mesmo que pedir que se registem todas as pronúncias do país (que “escândalo” seria para esses críticos aparecer a pronúncia ‘caféi’ no café alentejano)... quando toda a gente reconhece o português de Lisboa o padrão europeu (não só por ser o centro cultural do país, como por ser a região onde vive mais gente), a par do de Coimbra (cuja variante também vem atestada, ainda que estes críticos não saibam). A transcrição fonética não é, ainda assim, intocável. Os exemplos de completivo ou proxeneta revelam bem que o dicionário poderia ter sido mais normativo, em vez de registar unicamente o uso mais frequente (nada impedia a que se registassem ambos). Tal não quer dizer, porém, que eu discorde em absoluto da decisão de registar unicamente o uso.
A etimologia é das que considero pobres, porque não diz quase nada. Bem sei que não é um dicionário etimológico, mas em muitos casos, para ter o que tem, mais valia não ter nada. A grafia em grego dos vocábulos desta origem é-me grata, porque foge à artificialidade e à arbitrariedade da transliteração, mas pode, por outro lado, afastar o utilizador comum da informação etimológica. A propósito, existem erros no grego que convinha serem corrigidos.
Na estrutura do verbete, é o uso mais moderno do sentido das palavras que está registado. Por exemplo, não aparecem palavras que surgem uma vez em Camilo (lembro-me de conceitar), e talvez seguir o uso mais frequente em termos ortográficos não seja sempre boa ideia (como no senão, que surge erradamente como conjunção condicional). As informações gramaticais são, ainda assim e no geral, fiáveis e com qualidade. Infelizmente, nos verbos não houve o cuidado de os classificar — este é, a meu ver, o maior defeito deste dicionário.

Existem centenas de teses acerca da forma como analisar e estudar uma língua. E existem muitas mais formas de a utilizar. Bem ou mal do ponto de vista dos moralistas da língua (ia escrever ‘académico’, mas a Universidade há muito que deixou a moralização linguística, tendo agora uma atitude mais científica, de raiz anglo-saxónica), o português evoluiu e tem hoje uma configuração que não tinha há alguns anos. Como li já não sei onde, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências sacode o pó dos dicionários e apresenta uma língua fresca e renovada.
É um dicionário fundamental para estudiosos e curiosos. Claro que não satisfaz todas as suas necessidades, que certamente vão além do âmbito de um único dicionário, mas é uma das ferramentas que devem ser utilizadas por eles. Parece-me, igualmente, um dicionário útil ao público geral (incluindo professores e estudantes). É um dicionário que tira dúvidas, mas aconselha-se sempre a confirmação noutras fontes (dicionários, vocabulários, ou gramáticas).
Enfim, resta dizer que o “Dicionário da Academia” é um bom dicionário de português contemporâneo — nem pretende ser mais que isso.


publicado por Ricardo Nobre às 07:45 | referência | comentar

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